Inclui vídeo. Impedido de sair de Angola por se encontrar com termo de identidade e residência que o obriga a apresentações mensais no tribunal, Luaty Beirão gravou uma mensagem em vídeo que será apresentada este sábado, no Fórum Socialismo, realizado pelo Bloco de Esquerda, em Santa Maria da Feira, Portugal.


Na sua intervenção, subordinada ao tema “Libertar a Democracia”, o jovem agradece a solidariedade manifestada pelo Bloco de Esquerda e critica os representantes dos partidos portugueses que estiveram presentes no congresso do MPLA que se realizou este mês em Luanda.

“Dizer Angola e democracia na mesma frase é um abuso de linguagem”, começa por afirmar o activista que sublinha ser preciso acrescentar a “necessidade de lutar pela instauração da mesma no país”.

“Angola é um país que saiu de um falso socialismo, de um falso marxismo-leninismo que foi chamado de socialismo esquemático”, refere Luaty Beirão que faz ainda alusão “à mentalidade das pessoas que estiveram e continuam a estar no poder porque são as mesmas e que se aproveitaram do bem público para o seu próprio enriquecimento pessoal”.

Esta situação foi para o jovem angolano várias vezes legitimada através do discurso dos altos responsáveis da nação, como, por exemplo, o Presidente da República (José Eduardo dos Santos) com frases do género “ninguém vive do seu próprio salário” e assim foi preciso “criar um empresariado forte através da acumulação primitiva do capital”.

“Desta forma”, referiu “está aberto o saque”, que é o mesmo que dizer “roubem o que quiserem que não há consequências”.

Neste quadro e para manter esta via, Luaty Beirão disse que o regime começou a utilizar as “ameaças de morte” e as “tentativas de incriminação” de toda e qualquer pessoa que tente levantar a voz para dizer que “isto está mal, que precisa de melhorar porque as pessoas que estão hoje no poder são incompetentes”.

O clima que se vive em Angola “torna impossível” para Luaty Beirão colocar Angola e a democracia na mesma frase e manter um ar sério, algo que fizeram todos os políticos presentes no Congresso do MPLA.

Angola e democracia ainda são incompatíveis

“E sses políticos exaltaram a longevidade e o amor que aparentemente nutrem pela figura do Presidente José Eduardo dos Santos”, sublinhou, lembrando ainda que este “foi candidato único à sua própria sucessão tendo sido eleito com 99,6 por cento dos votos”.

O jovem activista lança depois uma dúvida marcada pela ironia: “Não sei se existe outra democracia no mundo que tenha um presidente único há 37 anos no poder”.

Crítico também do poder judicial, Luaty Beirão afirma que as leis estão lá mas as pessoas que têm a responsabilidade de as ler, interpretar e executar estão “exclusivamente ao serviço dos poderes instituídos” porque também “beneficiam deles”.

“Angola é um Estado que está disposto a deixar morrer pessoas para manter a sua atitude teimosa e irredutível de não vergar à exigência ainda que esta seja apenas do cumprimento das leis vigentes no país”, avançou.

Para o activista, o regime prefere deixar morrer alguém ao invés de fazer cumprir a lei do país.

“Este é o ponto que nos obriga a dizer Liberdade Já e também que a democracia ainda é uma utopia pela qual vale a pena lutar”, finalizou.

Refira-se que durante a sessão sobre Angola, Luaty Beirão acompanhará as intervenções do público e responderá a perguntas através do skype.

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