Responsáveis católicos de sete países de língua portuguesa manifestaram hoje, em Aparecida, no interior do estado brasileiro de São Paulo, “preocupação pela instável situação social, política e económica em quase todos os países” lusófonos.

Num comunicado conjunto, enviado à imprensa no último dos cinco dias do XII Encontro de Bispos dos Países Lusófonos, os representantes alertaram que esta instabilidade tem “consequências na vida dos cidadãos, famílias e instituições”.

No documento, condenaram as “situações de corrupção, de exploração dos mais pobres e de tráfico de seres humanos” e chamaram a atenção para a “necessidade de diálogo” com políticos e governos, para defender “valores essenciais ligados à vida humana e ao bem comum, à democracia e aos direitos humanos”.

Os representantes dos episcopados da Igreja Católica também acordaram na necessidade de maior cooperação entre as igrejas lusófonas e no diálogo inter-religioso, “na busca comum da paz e da tolerância, da segurança e do bem-estar”.

No encontro, foi igualmente defendida a necessidade de diálogo com outras religiões, políticos e sociedade civil a propósito da protecção do ambiente, ao analisarem a encíclica ecológica do Papa Francisco, ’Laudato Si’.

Os participantes do evento concordaram na “urgência” de incluir esta temática na iniciação cristã e na formação continua e defenderam “a educação ecológica para a sobriedade e a partilha face a uma sociedade de consumo e de lucro”.

Foi sugerida também a “partilha de informações e estudos, reflexões e itinerários catequéticos sobre a ecologia entre as nossas conferências episcopais”, lê-se no texto.

No encontro, os responsáveis reflectiram sobre outro texto papal relativo ao matrimónio e à família, propondo “o Evangelho da família e a pastoral do vínculo face a outros modos e conceitos de família e como resposta a uma cultura de descarte e de um mundo em desagregação”.

Neste sentido, defenderam que é necessário “acolher, preparar e acompanhar as famílias em todas as fases e processos” e “atender mais a problemas como a poligamia e os casamentos com disparidade de culto”.

Os responsáveis lamentaram ainda “a suspensão do uso da língua portuguesa nos processos de postulação das causas dos santos pela Congregação para as Causas dos Santos”.

No documento, manifestaram “preocupação por esta decisão que, além de contrariar a Instrução ‘Sanctorum Mater’ de 17 de maio de 2007, vai dificultar e encarecer o bom andamento dos processos de canonização com origem nos países de expressão portuguesa”.

No texto, mencionaram “relevantes acontecimentos jubilares que vão decorrer em 2017: a celebração dos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, o centenário das Aparições em Fátima, Portugal, a comemoração de 150 anos de presença dos Missionários Espiritanos em Angola e Portugal e a celebração dos 40 anos da diocese de Bissau”.

Por fim, ficou decidido que o XIII Encontro de Bispos dos Países Lusófonos vai decorrer na Praia, em Cabo Verde, de 27 a 29 de Abril de 2018.

O encontro contou com 14 representantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tome e Príncipe.

Recorde-se o caso de… Angola

A Igreja Católica angolana disse – num raro e atrasado laivo de sanidade mental – que a falta de ética, a má gestão do erário público e a corrupção generalizada estão na origem da crise económica e financeira em Angola, e não apenas no petróleo, como tem dito o Governo.

Vamos repetir para ver se é mesmo verdade. A Igreja Católica – a de Angola, é claro – disse mesmo isso? Fala de falta de ética, má gestão do erário público e corrupção generalizada? Haja Deus!

A Nota Pastoral, divulgada no dia 9 de Março deste ano no final da primeira assembleia ordinária da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (Ceast), que decorreu Ndalatando, província do Cuanza Norte, faz uma radiografia tão real quanto catastrófica para o regime que (nunca será demais dizer: Haja Deus) é responsável pela situação actual do país.

Os responsáveis católicos lamentaram “o agravamento preocupante da pobreza das populações e a paralisação paulatina dos agentes económicos”, devido às dificuldades na renovação de mercadorias por falta de poder aquisitivo”, bem como a “falta de critérios no uso dos fundos públicos, gastos exorbitantes, importação de coisas supérfluas, que não aproveitam às populações”.

“Aumenta assustadoramente o fosso entre os cada vez mais pobres e os poucos que se apoderam das riquezas nacionais, muitas vezes adquiridas de forma desonesta e fraudulenta”, acusou a Ceast que é peremptória ao afirmar que a crise actual em Angola deve-se também à “mentalidade de compadrio ao nepotismo, em acúmulo à discriminação derivada da partidarização crescente da função pública, que sacrifica competência e o mérito”.

A partidarização dos meios de comunicação social foi também criticada na Nota Pastoral, dizendo que esses meios públicos “devem estar ao serviço de todos”.

Ao fazer uma radiografia do país, os bispos católicos citaram o aumento do índice da mortalidade de crianças e adultos, devido ao paludismo, diarreia e febre-amarela, a falta de água, a acumulação do lixo, desvio de medicamentos para farmácias ou unidade de saúde privadas, enquanto muitos hospitais têm falta de medicamentos e nem conseguem alimentar os doentes.

A seca no sul de Angola não passou ao lado da Conferência que apelou à mobilização de todos para ajudar os que sofrem e exige uma definição de “políticas concretas que ponham fim a estes males crónicos”. Hoje, um relatório do Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (PNUD), dizia que algumas comunidades rurais do Cunene e da Huíla têm reservas de comida para menos de seis semanas e 400.000 pessoas precisam de alimentos e assistência urgente.

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