Um dia destes estivemos a reler, com bastante atenção, separando a emoção, o hino Angola Avante. A letra pela qual o Manuel Rui sente tanto orgulho, para além de estar completamente ultrapassada, em termos da realidade angolana, é, poeticamente, muito pouco rica, para não dizer pobre.

Por Domingos Kambunji

Não é de admirar o fraco valor poético. A ideologia sobrepõe-se à poesia e, quando assim é, a poda passa de moda. A maioria dos hinos nacionais em todo o mundo apelam à guerra e ao sangue, quando os dirigente políticos afirmam serem todos defensores da paz. O hino de Angola assenta numa ideologia de demagogia.

O hino de Angola tem por lema um avante com os povos oprimidos, num apelo à liberdade para ser obediente e subserviente à ditadura. Era essa a antiga e é assim a actual cultura na gestão de mentalidades. Como diria, sarcasticamente, um dos nossos melhores professores de Economia, “é de ir às lágrimas”.

Esses povos oprimidos foram “libertados” por partidos, como um que há por cá, o MPLA, para continuarem a ser enganados.

O nosso hino incentiva ao trabalho para construir um “homem novo”. Dirigidos por velhos que estão mais vocacionados para enricar a roubar do que para trabalhar? Esta passagem faz-nos recordar um poema dum nosso amigo, o António Monginho, em que ele diz que “os jovens do meu tempo já morreram quase todos mas a maior parte deles ainda não sabe disso”.

Que “homem novo” se poderá formar em Angola numa ditadura que desincentiva a formação de líderes, de seres pensantes e promove apenas os “bem comportados”, os domesticados e depois assimilados? Como se poderão formar homens novos com paradigmas tão velhos?

Os ideais soviéticos inspiraram o Manuel Rui para escrever a letra do hino de Angola. Em termos reais, na prática, esses ideais eram muito semelhantes aos dos tempos coloniais.

Visitámos alguns países que se tornaram independentes (?) do ex-império soviético e observámos muitas aberrações nas desigualdades sociais causadas por esse sistema Feudal.

Essa contradição no desenvolvimento é explicada pelo José Milhazes quando diz que a Rússia possui o material bélico e espacial mais avançado do mundo mas é incapaz de construir um ferro eléctrico de engomar. Esta metáfora serve também para explicar a situação em Angola, nas primeira e segunda ditaduras do MPLA.

O grande problema de Angola é a megalomania e a ostentação proveniente do novo-riquismo sanzaleiro e uma concentração do poder numa casta que castra a inteligência e as iniciativas honestas, impedindo assim o desenvolvimento e vulgarização de comportamentos adultos e responsáveis na sociedade.

Em Angola patriotismo é sinónimo de seguidismo, conformismo ou subserviência ao Paternalismo Presidencial. Isso impede a inovação construtiva, só possível através do pensamento crítico inteligente e construtivo.

Todos sabemos que em Angola a crítica é considerada Tentativa de Golpe de Estado e os pensadores são acusados e condenados por pertencerem a organizações de malfeitores. No nosso território nacional temos a certeza de que a grande maioria dos malfeitores pertencem ao Poder Executivo e ao Poder Judicial.

O Manuel Rui é o grande megafone que berra, por todos os cantos, afirmando que MPLA foi capaz de libertar a África Austral. Conversa para enganar o parvo e tentar embalar e adormecer os bois. Que movimento é esse que é incapaz de libertar o seu próprio povo da pobreza e confunde cleptomania com democracia?

O Avante Angola parece que só é capaz de convidar a “avançar para trás”.

Concluímos citando um poeta angolano que diz: quando os meninos do Huambo, com falta de pão, acreditaram que as estrelas eram do povo, o angolano “Estado Novo” meteu-os na prisão.

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