O MPLA, partido no poder em Angola continua a dar lições de pouca ousadia, quando tem de enfrentar novos desafios, como o que ocorre com a realização do seu VII Congresso, iniciado no dia 16 deste mês de Agosto, gastando, segundo fontes do Folha 8, mais de 20 milhões de dólares.

Mas diante desta bestialidade atentatória da dignidade dos angolanos, mesmo daqueles que são do MPLA, o Congresso foi ensombrado com o bater de porta de uma das últimas vozes coerentes, que condena estes desvarios, bem como a condução unipessoal do seu líder, a quem todos devem obedecer cegamente, não podendo falar.

Ele, Ambrósio Lukoki, actual embaixador na Tanzânia e membro do Comité Central, no dia 16.08, numa atitude de elevada coragem deu uma conferência de imprensa, anunciando a sua auto-retirada e não participação no conclave, aliás, mandou retirar o seu nome da lista, que agora, aparece em branco; era o número 27. Tudo por não se rever neste regabofe, nesta orgia digna de nepotismo do regime.

Com uma grave crise social e económica e sanitária, o partido no poder não olhou a meios para dar uma festança, quando morrem milhares de angolanos todos os dias, face à alta inflação, provocada pela má política económica, com destaque para a alta do preço de pão que atingiu os 150 kwanzas; o desemprego com uma taxa de cerca de 45 %; o surto da febre-amarela que leva mais de 600 mortes por dia e, não foi declarada nenhuma calamidade sanitária, pese não estar controlada.

O MPLA indiferente a isso convidou mais delegações estrangeiras do que nos congressos anteriores, instalando-os principescamente nos hotéis mais caros da capital angolana. A comitiva portuguesa é a maior, com todos os partidos políticos, à excepção do Bloco de Esquerda, a participarem no regabofe, batendo palmas à ditadura do petróleo de Dos Santos. Uma vergonha esta tribo política portuguesa que se verga a um prato de lagosta de borla, ante o sofrimento dos cidadãos angolanos, carentes de liberdade, emprego, educação, saúde e habitação.

Vão, cinicamente, argumentar não saber da realidade, mas seguramente, poderiam perguntar as razões de não haver dinheiro para pagar às empresas portuguesas e aos seus trabalhadores, haver dificuldades na transferência de valores para o exterior, mas haver tanta ostentação, num congresso, que poderia ser modesto, mas os materiais são na sua maioria de grande qualidade vindos do exterior.

E nesta caravana lusa um destaque: Paulo Portas, uma vergonha de político, apresentado como convidado especial, principescamente pago com o dinheiro da corrupção do governo angolano, que antes criticava, mas que depois de corrompido o idolatra.

Tudo foi um show mediático, mal parido, onde está decidido o final, tanto que o líder máximo não precisa de conversar com nenhum delegado, nem fazer campanha, tanto assim é que está sentado distante dos restantes membros do bureau político. Ele é diferente, não se junta com a gentalha, salvo para não horrorizar tanto, ladeou-se do vice-presidente e secretário geral, mas com as devidas distâncias, não vá o diabo tecê-las e apanhar uma alergia, por contágio.

Todos os países do mundo cuja ditadura está no apogeu, foram partidescamente convidados ao beija-mão, os dos países da SADC e do resto de África, também. Da Europa Ocidental a grande excepção é Portugal, cujos políticos, são gente menos séria, que só condenarão o óbvio quando este não mais existir…

Os presidentes de todos os tribunais, juízes, procuradores, a chefia das Forças Armadas e da Polícia Nacional, também se fizeram presentes, com os respectivos cartões de militantes do MPLA, nos bolsos, daí não aceitarem os convites de outras formações partidárias.

Os bispos, padres e pastores, a maioria assalariada ideologicamente, fizeram questão de se fazer notar, denunciando, alguns, descaradamente, a cartilha partidária no lugar da cruz e da Bíblia.

A moção lida por Roberto de Almeida, foi um vazio, um lugar comum de idolatria ao líder e do muito prometido não realizado, mas estranhamente, colhia palmas do muito que ficou por se fazer, em nome dos cidadãos. Era como se o teatro de fantoches estivesse em acção.

Grande destaque teve, neste primeiro dia, a militarização da sala, do congresso, por parte da UGP (Unidade da Guarda Presidencial) de José Eduardo dos Santos, com cerca de 600 homens armados no interior e 2.500 no exterior, numa clara demonstração de desconfiança nos seus dirigentes, militantes e povo.

A Televisão pública, a Rádio Nacional, quais filiais do MPLA, transmitiram em directo a abertura e os trabalhos do primeiro dia, numa cobertura nunca antes vista, em clara demonstração de que para o partido no poder, o Estado é uma propriedade partidocrata, onde não existem leis, melhor, eles são as leis.

Recorde-se ter a UNITA recentemente realizado o seu congresso e a comunicação social pública, não teve o mesmo comportamento, demonstrando serem “UNS FILHOS DA MÃE E OUTROS FILHOS DA COISA”, uma tese, cuja semente vai fazendo germinar o sentimento de revolta, que calcorreia incubado, nos corações, mas poderá estar perto de rebentar.

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