Os bispos católicos angolanos defenderam hoje, em Luanda, que os procedimentos e regras do registo eleitoral, em curso em Angola, devem incutir, em todos, “confiança para que não se parta para as eleições com suspeições”.

Então há esse risco? Pois. A fazer fé nas eleições anteriores e nos indícios das que estão marcadas para 2017, nomeadamente com a CNE atirada para canto e o Governo a pôr e dispor, a confiança num processo transparente já parece mais uma miragem.

A posição dos bispos foi expressa pelo presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), Filomeno Vieira Dias, no encerramento da IIª assembleia ordinária da organização religiosa, que decorreu durante uma semana na capital angolana.

No comunicado final, os bispos sublinharam a necessidade de todos os cidadãos se mobilizarem para o registo eleitoral, como forma de consolidar a consciência cívica e participativa nos assuntos que têm a ver com o bem comum.

Sobre as suspeições levantadas pelos partidos da oposição quanto à realização do registo eleitoral pelo Ministério da Administração do Território, tarefa que defendem caber à Comissão Nacional Eleitoral, os bispos apelam para que se respeite as normas e regras que são consensuais e aceites por todos.

“O apelo que fazemos é que na resolução destes modos diferentes de perceber e de ver qual é o organismo que de facto resolve as coisas é que em todos possa-se finalmente dizer estamos diante de um processo onde as normas e as regras são aquelas que são consensuais, aceites por todos e que dão a garantia de que o processo será um processo transparente e por isso convincente, que vai reflectir aquilo que vai ser a decisão e a escolha dos cidadãos nas urnas”, disse Filomeno Vieira Dias, que é também arcebispo de Luanda.

É que, sabem os bispos mas não dizem, à mulher de César não basta ser séria, também deve parecer séria. Ora, nesta caso, o Governo não é sério e nem está preocupado em parecer ser sério. Para o MPLA, os fins (manutenção do poder) justificam o uso de todos os meios.

Os bispos manifestaram também preocupação com a crise económica e financeira que Angola enfrenta, por continuar a afectar o poder de compra das famílias, “agravando ainda mais a pobreza, o desemprego e causando algum desespero entre a população”.

Os bispos também sabem que Angola um dos países mais corruptos do mundo, é um dos países com piores práticas democráticas, é um país com enormes assimetrias sociais e é o país com o maior índice de mortalidade infantil do mundo. Sabem mas…

A preocupação vai de igual modo para o problema da desflorestação “vasta, simultânea e generalizada” por todo o país, com o abate industrial de árvores e outras práticas que consideraram hostis à biodiversidade, como derrames de petróleo, queimadas, produção desenfreada de carvão e caça indiscriminada.

De facto, a desflorestação é algo muito mais relevante do que Angola ser o país com o maior índice de mortalidade infantil do mundo. Não é D. Filomeno Vieira Dias?

Para os bispos, é preciso que as autoridades governamentais ponham cobro à situação para que não ponha em causa a natureza angolana. “O Ministério do Ambiente, os guardas florestais, devem ter em conta esse aspecto, porque são matas inteiras que estão a ser destruídas em pouco tempo”, queixaram-se os bispos.

Queixam-se com toda a razão. É, aliás, muito mais pacífico os bispos falarem disto do que, em abono da verdade (que devia ser sagrada para os católicos), dizerem o mesmo que afirmava o falecido Frei João Domingos: “Muitos governantes têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro”.

A questão das demolições selvagens e selváticas, que se registam em Luanda, foi também referenciada no comunicado final, que considera “desumana” a forma como decorre o processo, por deixar “famílias inteiras à mercê da miséria e do sofrimento, bem como a manutenção por tempo indeterminado de famílias diferentes numa mesma casa”.

Segundo os bispos, tem estado igualmente a decorrer a ocupação “prepotente” de grandes extensões de terras para fins agro.industriais “inconfessos e gananciosos”, com total desrespeito para com as comunidades aí residentes, que impotentes assistem à destruição das suas zonas de transumância, de agricultura familiar e até dos seus cemitérios, “gerando não poucos conflitos”.

Os bispos não se lembraram, mas nós recordamos um desses exemplos. O General Eusébio de Brito Teixeira requereu ao Governador do Kwanza Sul, Eusébio de Brito Teixeira, autorização para açambarcar 30.000 hectares, no Kuanza Sul. O Governador do Kwanza Sul, Eusébio de Brito Teixeira, deu deferimento ao pedido apresentado pelo General Eusébio de Brito Teixeira, autorizando o açambarcamento de 30.000 hectares no Kwanza Sul. Os cidadãos residentes nessa área, que agora é propriedade do General Eusébio de Brito Teixeira, serão desalojados, por ordem do Governador do Kwanza Sul, Eusébio de Brito Teixeira.

A falta “gritante” de medicamentos nos hospitais públicos é outro grande problema que está na base do aumento da taxa de mortalidade, sobretudo infantil, e do recurso à prática de feitiçaria pelos cidadãos, dizem os bispos.

“É preciso que os nossos hospitais consigam dar respostas às várias doenças que nos afligem, para que verdadeiramente pouco a pouco o cidadão comece a diminuir esta tendência de recorrer à feitiçaria para responder a questões tão claras como são as que têm a ver com a saúde”, disse o porta-voz da CEAST, José Manuel Imbamba.

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