A primeira mulher a ocupar a Presidência irlandesa, Mary Robinson, é membro do Conselho da Fundação Mo Ibrahim e promove a luta pelos direitos femininos e contra alterações climáticas. Para a ex-alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, a Europa não faz o suficiente para lidar com a questão dos imigrantes africanos.

Por Heloísa Traiano (*)

Por que é tão difícil escolher um líder como modelo para a África? Desde 2009, não houve nomeados pelo Prémio Ibrahim em cinco ocasiões.

Mary Robinson – Tivemos quatro diferentes candidatos bem-sucedidos nos últimos dez anos, que fazem um óptimo trabalho. Não esperamos dar o prémio todos os anos. Para explicar isso, perguntamos aos nossos amigos europeus para qual governante que já deixou o poder eles dariam um prémio por excepcional liderança. E eles riem. O mesmo vale para o Brasil.

O índice define os conflitos como o principal impedimento para a boa governança na África. Qual é o impacto deste desafio hoje?

MR – Todos os países nos últimos lugares no índice estão em conflitos, da Somália ao Sudão do Sul. É a realidade: se um país está em conflito, pode ter certeza que não se sairá bem. Esta é uma ferramenta valiosa para a sociedade, o governo, a academia e a imprensa da África, que deve cobrar dos seus governos.

Populações que fogem de zonas de conflito enfrentam novos desafios como refugiados. Como vê a crise migratória europeia?

MR – Os países em conflito formam uma porção significativa do fluxo de refugiados que sofrem perseguições em seus países. Esta é grande parte de um problema com o qual a Europa obviamente não está lidando bem o bastante. Queremos que o índice incentive a sociedade e os governos a perceberem que, se você está em conflito, estará nas piores colocações em desenvolvimento humano, segurança, participação, direitos humanos e prosperidade. A população vai sofrer e provavelmente querer deixar o país.

África tem uma grande população jovem, e as áreas urbanas crescem. Qual é o maior desafio para os líderes do continente na próxima década?

MR – Os países africanos deverão duplicar a sua população neste século. E este poderia ser um problema, a menos que seja levado como uma vantagem demográfica, se você quiser chamar assim. A única forma de fazer isso é melhorar a saúde e a educação, porque os jovens precisarão de empregos.

Como o aumento da participação feminina deve afectar a vida das mulheres africanas?

MR – Em muitos países, as mulheres ainda sofrem violência sexual, e as meninas não vão tanto à escola quanto os meninos. Na África, vi muitas mulheres resilientes, determinadas a alimentar suas famílias e a seguir em frente. Precisamos contar mais estas vozes e histórias. Elas são vítimas, mas também parte activa da mudança. O empoderamento económico feminino é uma grande maneira de acelerar o desenvolvimento. Os governos devem treiná-las na agricultura e fazê-las proprietárias das terras.

(*) O Globo
Foto: Jason Patinkin / AP

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