Os 17 activistas angolanos condenados a penas de prisão por – entre outras farsas – suposta e nunca provada rebelião realizam na quarta-feira uma conferência de imprensa para explicarem o “encarceramento bárbaro” que viveram e que, como se sabe, faz parte do ADN do regime de sua majestade o rei José Eduardo dos Santos.

Por Orlando Castro

O evento vai acontecer no mesmo dia em que arranca o congresso do MPLA para reeleição de José Eduardo dos Santos. É, aliás, uma justa homenagem ao “querido líder”, ao “escolhido de Deus” que desgoverna o país desde 1977sem nunca ter sido nominalmente eleito como presidente… da República.

Detidos em 20 de Junho de 2015, estes activistas foram condenados em 28 de Março último a penas entre 2 anos e 3 meses e os 8 anos e meio de prisão, também por associação de malfeitores e depois de terem sido considerados como conspiradores para um golpe de Estado, tendo sido libertados em 29 de Junho, na sequência de um ‘habeas corpus’ apresentado pela defesa.

A conferência de imprensa, que chegou a ser agendada para 20 Julho e depois cancelada por falta de espaço, decorrerá sob o lema “Unidos Pela Cidadania, Liberdade e Construção do Futuro”, servirá para a “apresentação pública da versão dos factos relacionados com o encarceramento bárbaro, ilegal e as sistemáticas violações dos Direitos Humanos”.

Recorde-se que a UNITA justificou a “falta de espaço” com uma suposta “sobreposição” de eventos e que terá sido isso que provocou a indisponibilidade do complexo que possui nos arredores de Luanda para acolher, como estava anunciado, a conferência de imprensa promovida pelos 17 activistas.

A conferência de imprensa está agora agendado para as instalações da Liga Africana, em Luanda, precisamente no mesmo dia em que arranca na capital o congresso do MPLA, evento em que – tal como nas edições anteriores – José Eduardo dos Santos será caninamente confirmado não só como querido e único líder mas, também, como o maior estadista de África, do mundo e do que mais se lembrarem os sipaios amestrados do regime.

Os activistas prometem “narrar as peripécias”, vividas e registadas no corpo e na alma, que passaram desde a detenção, humilhação baptizada de “julgamento”, que decorreu desde Novembro de 2015, condenação e a actual liberdade provisória, sob termo de identidade e residência.

Este grupo recorda que um outro activista, Francisco Gomes Macampa ‘Dago Nível Intelecto’, continua na prisão, a cumprir uma pena de 8 meses de cadeia. Foi condenado em julgamento sumário em 28 de Março, depois de conhecida a sentença aplicada então aos 17 activistas, por ter gritado na sala de audiências aquilo que todos os observadores (até mesmo do MPLA) pensavam e pensam: o “julgamento” era uma “palhaçada”.

Curiosamente, e depois de certamente ter “validado” a informação junto do governo, a agência de notícias de Portugal, Lusa, cola à notícia desta iniciativa a referência de que “a conferência de imprensa surge depois da publicação, em Diário da República, em 12 de Agosto, da Lei de Amnistia para crimes punidos com até 12 anos de prisão e praticados até Novembro de 2015, executando os de sangue, medida que abrange o caso dos 17 activistas, que apresentaram recurso das condenações para os tribunais Supremo e Constitucional”.

MPLA é Dos Santos, Dos Santos é o MPLA

Neste congresso, mais uma vez, o MPLA vai mostrar quão importante é para si o exemplo da República Popular Socialista Unipartidária da Coreia do Norte. Assim, bem ao estilo de Kim Jong-un, veremos o Presidente da República (José Eduardo dos Santos) e o líder do MPLA (José Eduardo dos Santos) fazerem a análise do estado do partido que, na verdade, é o estado do país. Será, com certeza, uma análise coincidente com a do Titular do Poder Executivo (José Eduardo dos Santos) e do pai da princesa herdeira do trono (José Eduardo dos Santos).

Curiosamente, ou talvez não (quem sabe?), tanto o líder do reino como o do MPLA coincidirão na afirmação de que o Governo não está a receber receitas da Sonangol desde o início do ano devido ao abaixamento do preço do petróleo no mercado internacional, facto que – dirão os dois – é decisivo para a difícil situação que o país, não o regime, vive neste momento.

Mais uma vez, o Chefe de Estado, líder do MPLA, Titular do Poder Executivo e pai da princesa Isabel dos Santos, herdeira do trono, apontará como prioridade máxima o redobrar dos esforços para que seja conseguido um ritmo mais acelerado na aplicação dos programas em curso (desde 1975, não?) para a diversificação da economia nacional, sublinhando o papel que a banca deve desempenhar no apoio ao investimento e à prosperidade das famílias. Ou seja, a partir do momento em que descobriu (e isso foi ontem ou anteontem) que era urgente diversificar a economia, meteu mãos à obra. É obra!

Como muito bem dirá sua majestade o rei, todos estes desafios que se colocam ao país, para serem vencidos precisam forçosamente de um ambiente de paz e de estabilidade que não se compadece com jogos florais da parte daqueles (energúmenos, obviamente) que, por terem assento no Parlamento, se esquecem que têm também responsabilidades acrescidas para com a população no sentido de as proteger e garantir a sua segurança.

Perante um contexto de completa irresponsabilidade de todos, com excepção do MPLA, o pai da princesa herdeira do trono sentirá necessidade de sublinhar a importância que o regime dá à segurança e à estabilidade das populações e do país. Se só existisse o MPLA nada disto era preocupante. Nada disto existia. Mas como existe por aí uma certa oposição política, uns tantos jovens frustrados que se dizem activistas, é obrigatório temer pela paz e pela estabilidade. Além disso, içar a bandeira da guerra é algo que fica sempre bem aos que sentem o poder a fugir.

O MPLA certamente que irá também abordar os recentes tumultos registados no Cubal, que o rei condenou vivamente, lamentando ou que volvidos 14 anos desde o fim da guerra tenha acontecido este incidente entre meliantes da UNITA e militantes do MPLA.

Não é de excluir que ente os milhares de nobres e impolutos delegados algum se lembre, com razão, de perguntar: Será que este pessoal do Galo Negro não percebe que pertence a uma subespécie de angolanos e que só a magnanimidade do “escolhido de Deus” lhe permite parecerem cidadãos de primeira?

De modo muito claro, salientará o Boletim Oficial do regime na cobertura do congresso, “José Eduardo dos Santos disse que os cidadãos e as pessoas colectivas, partidos políticos ou associações, devem recorrer às autoridades quando alguém tentar violar ou violar de facto os seus direitos e nunca fazerem justiça por conta própria”.

As teses do MPLA, claramente expressas pelo Presidente da República (José Eduardo dos Santos), depois de auscultada a opinião do Presidente do MPLA (José Eduardo dos Santos), do Titular do Poder Executivo (José Eduardo dos Santos) e do pai da princesa herdeira do trono (José Eduardo dos Santos), deverão incentivar todos os protagonistas políticos do país, os de primeira e os de segunda, a defenderem tudo aquilo que os de primeira dizem.

A pouco menos de um ano da suposta, eventual, ida às urnas, para o cumprimento do democrático simulacro do calendário eleitoral, o congresso deixará clara a intenção de sua majestade o rei de continuar a ser um jogador, para além de árbitro, muito activo no xadrez político, uma espécie de “escolhido de Deus” inspirador do esforço do regime para que não se perca de vista o essencial: a defesa das conquistas do MPLA e a necessidade da sua perpetuação no poder.

José Eduardo dos Santos, com uma visão lúcida, divina e nunca vista num ser humano, e que é reconhecida em todo o mundo (e arredores), mais uma vez, tomará a iniciativa de apelar ao esforço conjunto dos angolanos, de modo a que o MPLA possa (e disso ninguém tem dúvidas) arrasar todos aqueles que tenham a veleidade de querer mudar o sistema esclavagista implantado em 1975.

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