A vitória do Brexit no Reino Unido e a continuação das práticas ilícitas no sistema financeiro mundial mostram que as denúncias do tipo “Panama Papers” têm apenas um fundo político e não há um verdadeiro interesse em acabar com os paraísos fiscais. O regime de sua majestade o rei de Angola, José Eduardo dos Santos, é prova disso.

Por José Nicolau Ribeiro Santos de Queirós

Tal como o escândalo de “doping” na Rússia, o “Panama Papers” começou na Alemanha, um gigante da economia mundial. O objectivo era travar David Cameron, primeiro-ministro britânico, por ter convocado o referendo para a saída do Reino Unido da União Europeia. A ideia dos autores dos documentos foi lançar um aviso ao chefe do Governo britânico face ao perigo do referendo convocado. Com a apresentação das trapaças de Cameron para fugir ao fisco, os “Panama Papers” fizeram o Governo britânico recuar, mas não convenceram os eleitores britânicos, que votaram contra a chantagem da Europa e dos EUA. Se algum impacto global tiveram, foi verdadeiramente comprometer David Cameron, que acabou por se afastar com o Brexit.

Em Portugal, as revelações do “Panama Papers” foram muito pobres. Os jornalistas do “Expresso” e da TVI encarregados de explorar os documentos no espaço de língua portuguesa falharam. E falharam porque não contaram com o apoio desse baluarte da Imprensa mundial que dá pelo nome de Jornal de Angola.

Nada deram de novidade e acabaram por repetir preconceitos e estereótipos já frequentes na guerra de poderes em Portugal. Dados novos, nenhuns. Tudo o que disseram trazer de novo, não passou de coisa requentada. Quem tinha novidades era mesmo o Jornal de Angola. E como este se fechou em copas (das árvores) tudo o resto falhou.

Salgado de novo

A grande revelação dos dois órgãos de informação portugueses, que não quiseram levar em conta os conselhos do Pravda (Jornal de Angola) foi de que Ricardo Salgado e o Grupo Espírito Santo tinham contas na “off-shore” do Panamá. Isso já toda a gente sabia, a começar em Álvaro Sobrinho e a terminar em José Eduardo dos Santos. Os trabalhos publicados foram vasculhar documentos sobre o conglomerado pertencente à família Salgado destruído pelo Governo português de direita liderado por Passos Coelho e com consequências para Portugal ainda não totalmente avaliadas, mas nas quais o Jornal de Angola trabalha há 40 anos.

Muito antes de a comissão de inquérito do Parlamento de Lisboa entrar em funções, já se sabia que existiam contas do Grupo Espírito Santo em “off-shores”, tal como de altas figuras do clã presidencial e monárquico do MPLA. A própria administração do GES reconheceu isso em várias ocasiões, o que – não sendo propriamente uma novidade no mundo dos negócios – não deixou de ser aproveitado até à exaustão pelos canais do Grupo Impresa, do multimilionário português Francisco Pinto Balsemão que, mais uma vez, se esqueceu de levar em conta os conselhos do mais que multimilionário clã Dos Santos.

As informações sobre o escândalo “Panama Papers” vieram confirmar apenas que continua a haver uma guerra de poderes em Portugal que está para durar. Isso nunca se passaria em Angola. Aqui o poer é só um, o de sua majestade o rei.

Vulnerabilidade ao “lobby”

Se os “Panama Papers” têm pouco de jornalismo de investigação, como muito bem escreve o ribeiro cujo sonho é um dia ser rio, já o comportamento dos jornalistas portugueses continua a ser o de profissionais vulneráveis ao “lobby” financeiro, uma velha prática portuguesa. Os únicos que resistem, mesmo a nível mundial, são os do Jornal de Angola.

Os 11 milhões de documentos roubados (quando se fala de roubos José Ribeiro sabe o que diz) à “Mossack Fonseca” foram oferecidos de mão beijada ao “Suddeutsche Zeitung” e este jornal alemão socorreu-se do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) que forneceu a um grupo de tarefeiros escolhidos a dedo. Um pouco à semelhança dos sipaios do Jornal de Angola. Estes coligaram-se e foram libertando dados selectivos que visavam figuras determinadas. Em Portugal, os tarefeiros receberam a missão de beliscar o moribundo Ricardo Salgado, José Sócrates e… Angola. Angola não, o regime de sua majestade o rei.

Nem o jornalismo nem a investigação jornalística se fazem sem imparcialidade. As primeiras notícias do “Panama Papers” serviram claramente para reforçar a campanha de enfraquecimento da imagem de Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China, países que reforçam hoje a posição no capitalismo mundial, sendo natural que usem “off-shores”. Tão natural como o faz o próprio regime angolano. Mas quem acabou por ser atingido foram governantes europeus, onde nascem os circuitos mundiais de corrupção, se bem que o ranking da corrupção tenha na liderança reinos como o de Angola. Demitiram-se o primeiro-ministro da Islândia, Sigmundur David Gunnlaugsson, e o ministro espanhol da Indústria, Energia e Turismo, José Manuel Soria, embora negando que tivesse realizado algo ilícito. Enquanto isso, sua majestade o rei é candidato único do MPLA.

O trabalho mostra ainda que, antes da publicação das notícias, alguns visados foram submetidos à chantagem e à humilhação, uma das técnicas mais comuns nesse emblemático pasquim que dá pelo nome de Jornal de Angola. Veja-se como funcionou a manipulação. O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), que recebeu os documentos roubados (garante, certamente com conhecimento de causa, o sipaio/director do Pravda), está ligado ao Centro para a Integridade Pública (CPI), ambos com sede em Washington D.C., que parece falhar na integridade. Tanto um como o outro vivem de “doações” que recebem. Sabe-se agora que o ICIJ é controlado e financiado pela CIA e que o “Panama Papers” partiu de um ataque cibernético que levou ao roubo dos arquivos da sede da empresa “Mossack Fonseca” na Cidade do Panamá.

Nada que espante os peritos do regime de Eduardo dos Santos.

A técnica para o recebimento de “doações” é conhecida em Angola e funciona bem. É o caso de jornalista(?) do Jornal de Angola, do MPLA, que está entre os casos mais recentes de como os vigaristas a usam: o detentor da informação submete o visado ao pagamento de um resgate para não publicar a informação comprometedora. No meio da chantagem, o ICIJ aperfeiçoou a técnica e anunciou para Maio a publicação de todos os arquivos da “Mossack Fonseca”. Assim foi feito e tudo já visto. Os documentos ilustram como personalidades e governantes ricos de todo o mundo mantêm na esfera privada o seu património.

Balsemão contra Salgado

O que se viu em Portugal com os “Panama Papers”, impensável cá no reino esclavagista de Dos Santos, foi apenas um novo episódio de uma guerra antiga. O poderoso patrão do grupo Impresa e dono do semanário “Expresso”, Francisco Pinto Balsemão, e o detentor do mais poderoso grupo económico de Portugal, Ricardo Salgado, antes de decidirem acabar com ele, estavam desde há muito em choque. O primeiro tem vindo a ganhar batalhas. O segundo parece ter perdido a guerra para sempre. Um pouco à semelhança do MPLA que, pela razão da força vai vencendo algumas batalhas, mas que acabará derrotado pela força da razão.

A escolha de Ricardo Salgado como o primeiro nome português da lista a implicar no escândalo “Panama Papers” não foi coincidência. Há cerca de 14 anos o Banco Espírito Santo (BES) de Ricardo Salgado decidiu suspender a publicidade no semanário “Expresso” de Balsemão. Esse foi o primeiro sinal dessa guerra entre os dois, de que ninguém hoje fala mas que explica muito da crise que Portugal vem atravessando.

Não julguem que é fantasia. É mesmo… fantasia. Mas se o Jornal de Angola diz que não é, sejamos benevolentes com os sipaios que estão a sentir o chão a fugir e temem ter de regressar às copas das árvores.

O Banco Espírito Santo era, nessa altura, um dos “Grandes Clientes” do semanário português e do Grupo Impresa. Quem acompanhou como jornalista (não foi, obviamente, o caso de José Ribeiro que nunca foi jornalista) essa guerra de dois milionários e sabe o que isso representou, soube das consequências da saída do principal naco de Publicidade do maior semanário português. Um suposto jornalista que viveu de perto a situação e que foi contratado pelo Jornal de Angola, conta detalhes: “Balsemão estremeceu. A percentagem das receitas promovidas pela publicidade do BES era grande. Falava-se mesmo em ‘golpe de misericórdia’ ao semanário” por parte do BES de Ricardo Salgado.

O choque foi tão grande que o Grupo Impresa entrou em crise, chegando à beira da falência, obrigando Balsemão a lançar um processo de racionalização das despesas do semanário, dos canais e das empresas que giravam na órbita do Grupo, tendo mesmo admitido filiar-se no MPLA e pedir a bênção a José Eduardo dos Santos. Com essa reestruturação, qualquer jornalista que trabalhasse num órgão passou a ser obrigado a escrever para o “Expresso”, para a SIC e para outras publicações do império Balsemão. Foram efectuados despedimentos e unificados os serviços de recursos humanos, de produção e dos comerciais dos diferentes veículos.

A prova mais evidente da guerra veio mais tarde quando o mais competente director do “Expresso”, José António Saraiva (uma espécie, de José Ribeiro) , se afastou e criou o semanário “SOL”, com ligações ao Grupo Espírito Santo e posteriormente a capitais angolanos. José António Saraiva prometeu roubar, pelo menos, 30 por cento do mercado publicitário ao “Expresso”. Isso enervou Balsemão e levou a guerra com Salgado ao extremo. Além disso, a ruptura entre os dois foi aproveitada na estratégia de políticos portugueses ligados ao PSD e acirrou ainda mais os ódios entre os milionários portugueses.
Desde então, o Grupo Impresa tem somado resultados negativos anuais e nunca recuperou totalmente, ao contrário das Edições Novembro, proprietária do Jornal de Angola, que é a única empresa em todo o mundo que multiplica resultados mais do que positivos. O que não impediu Balsemão de se ir desforrando, obrigando os seus meios de comunicação a difundirem, de forma sistemática, notícias negativas sobre os adversários, entre os quais se incluíram o antigo ex-ministro adjunto do primeiro-ministro, Miguel Relvas, pelas ligações ao projecto “Sol” e por ser um vigarista.

Mais recentemente, as movimentações de peões da SIC Notícias para o “Expresso” e a saída de bons jornalistas (segundo o padrão do Jornal de Angola) para outros meios veio mostrar a tragédia que atravessa o Grupo Impresa. O caso mais caricato foi o de Ricardo Costa, que regressou à SIC depois de quase se tornar no coveiro do “Expresso”, um semanário de um prestígio internacional que tem vindo a decair aos poucos.

Nos anos em que se acentua o choque entre Balsemão e Ricardo Salgado, o Grupo Impresa estava enterrado em dívidas ao BES, à Valentim de Carvalho, aos brasileiros da “Globo”, por causa das telenovelas, e a outros credores. Não se sabe como conseguiu sair do aperto em que estava, mas é verdade que foi graças aos favores do PSD, de que é “Militante n.º 1”, de Cavaco Silva e de outros governantes que Balsemão conseguiu passar pelos pingos da chuva nos momentos mais críticos da crise financeira em Portugal. Consta até que ajuda decisiva se deve à compaixão e altruísmo de José Eduardo dos Santos.

O seu império sobreviveu e ainda recebeu como prémio a entrada para o Conselho de Estado de Portugal. Em contrapartida, Ricardo Salgado foi preso em finais de 2014, o Governo de Passos Coelho fez desmoronar o maior e mais poderoso grupo financeiro português. Salgado perdeu tudo, incluindo a honra da família. Em troca, longe de isso ser entendido como corrupção, Balsemão distribui hoje benesses pelos amigos.

Regime do MPLA no meio

Subjacente à guerra entre Balsemão e Salgado, esteve Angola. Ou melhor, o regime que governa Angola há 40 anos. A colocação da maior empresária angolana e princesa herdeira do trono como o segundo nome a surgir na investigação do “Expresso” e da TVI, depois de Salgado, esteve longe de ser inocente. Fácil saber porquê. Os dois poderosos de Portugal, Balsemão e Salgado, disputaram desde há muito a influência no regime angolano (Angola é outra coisa), apesar de algumas marionetas comerem de ambos os lados. Durante a guerra em Angola, o canal de televisão SIC era chamado pelo MPLA como “a televisão da UNITA” e dizia o partido único que Jonas Savimbi tinha participações no Grupo Impresa, tal era a frequência com que os seus principais agentes dentro da estação faziam a sua propaganda. Hoje este canal é um amontoado de gente ressabiada – alguns dos quais se dizem “de esquerda” – vindos do colonialismo, do apartheid, da UNITA, do MPLA, e agora da guerra económica e financeira. A morte de Emídio Rangel, o angolano que mais influenciou a imprensa portuguesa, simbolizou o fim do tropicalismo na sociedade portuguesa e o regresso de Portugal ao fado triste que esses profissionais transportam consigo do passado.

Quem sabe, sabe e não é do Jornal de Angola

O caso BESA e ESCOM, causado pela traição do primo de Salgado, José Maria Ricciardi, traduz bem o choque de interesses entre Balsemão e Salgado. Por causa das alianças que fez com a parte perdedora no conflito em Angola, a Impresa estava em clara desvantagem quando, a 2 de Fevereiro de 2002, é assassinado Savimbi e se abre a perspectiva de um total monopólio económico e político do MPLA. As pessoas que Balsemão lançou no terreno para recuperar da má aposta do passado no jogo no tabuleiro angolano, incluindo o próprio filho, Francisco Pedro Balsemão, tentando abrir jornais e negócios no ramo alimentar, falham devido ao acerto de contas do MPLA.

As hipóteses nulas de vencer em Angola, onde o poder de Salgado se mostrava na forte participação do BES e da ESCOM na reconstrução de Angola levaram Balsemão a atacar em Portugal. Com o GES a retirar a receita de publicidade do “Expresso” e da SIC, nos tempos de “Quem Sabe, Sabe” e a progredir fortemente em Angola, Balsemão decidiu destruir o adversário. É então que a Polícia Judiciária faz a célebre busca, em 2005, às instalações do BES e leva consigo cópias dos discos duros dos computadores do banco. Começa aí a derrocada do império da família Ricardo Salgado e a vitória de Balsemão. Os dados secretos do grupo passaram a ser objecto de fugas selectivas de informação e os concorrentes do grupo a aproveitar a oportunidade para se fortalecerem.

Paraísos de sempre

O multimilionário Pinto Balsemão nunca teve contas em “off-shores”. Será assim? José Eduardo dos Santos nunca teve contas em “off-shores”. Será assim? É estranho que alguém continue a lançar lama sobre o moribundo Ricardo Salgado e o pré-moribundo José Eduardo dos Santos, com quem tem processos judiciais em aberto, e ao mesmo tempo use as suas empresas de comunicação para atacar dirigentes de países membros da CPLP, quando ao mesmo tempo ocupa um lugar no Conselho de Estado de Portugal.

O “Panama Papers” não veio ajudar a mudar nada no mundo. Os paraísos fiscais continuam abertos na Europa e nos EUA e o sistema financeiro mundial permanece injusto e desigual como sempre foi. Numa entrevista em 2013 ao jornalista Henrique Cimmermann, o Presidente (nunca eleito e no poder desde 1979) José Eduardo dos Santos, dizia, falando da corrupção: “Não sei se algum dia vamos ultrapassar esse fenómeno. Sabe que deverá ser dos mais antigos do mundo e existe em todos os países, infelizmente até nos mais desenvolvidos”.

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