O insigne embaixador António Luvualu de Carvalho emitiu um comunicado através do jornal português Expresso, no passado dia 27 de Agosto.

Por Rui Verde (*)

Lemos e temos de reagir. Desta vez não aparecem os helicópteros da NATO a invadir a baía de Luanda. Luvualu abandonou a ficção infra-literária e dedicou-se à matemática, mas o brilhantismo a que já nos habituou continua igual. Apresentando uma salada mista de números e dados estatísticos, quis comprovar que o poder político angolano sempre se preocupou com o povo, tendo melhorado a sua vida ao longo destes anos. Na sua perspectiva, o regime faz portanto jus ao mote do VII Congresso do MPLA: “O MPLA deve governar como povo!”.

O primeiro grande dado que Luvualu nos fornece é que no Índice de Desenvolvimento Humano (índice adoptado pelas Nações Unidas que mede a realização média em três dimensões básicas do desenvolvimento humano — saúde e longevidade de vida, níveis de conhecimento e dignidade de vida digno, — e que é objecto de um relatório anual detalhado), Angola passou, entre 2002 e 2014, do 161.º lugar para o 149.º lugar, com uma pontuação de 0,39 e 0,53, respectivamente.

Não diz Luvualu, mas todos o sabem, que em 2002 Angola era um país em guerra (a guerra terminou oficialmente a 4 de Abril de 2002). Luvualu compara assim o incomparável: guerra e paz, duas realidades tão distintas, que condicionam absolutamente o modo como devemos aferir a evolução do país. Por outro lado, na escala do desenvolvimento humano, em 2002 Angola encontrava-se próxima do Malawi, da Costa do Marfim, da Guiné, da Gâmbia e do Ruanda, sendo considerada um país com desenvolvimento humano baixo. Em 2014, Angola continuava na cauda da classificação mundial de desenvolvimento humano, tendo como vizinhos a Suazilândia, a Birmânia, o Ruanda, abaixo do Quénia. Na realidade, houve pouca evolução.

O que surpreende é que, 12 anos passados sobre a guerra — e mesmo beneficiando de um brutal crescimento económico em anos como os de 2004-2008 (dos maiores do mundo), rondando os 17 por cento de subida anual do PIB — Angola se mantenha na cauda do desenvolvimento humano.

É sabido que o crescimento da economia no período pós-guerra (isto é, pós-2002) foi induzido pelo petróleo. Estudos dos bancos controlados por Isabel dos Santos referem que cerca de 85 por cento desse crescimento dependeu do petróleo e 5 por cento dos diamantes. Por outro lado, é do conhecimento público que nesses anos os preços do petróleo se mantiveram elevados.

Portanto, facilmente se deduz que a melhoria muito ligeira dos números de desenvolvimento humano em Angola não é fruto de qualquer política governamental, mas sim daquilo que em física se chama inércia. Um objecto que esteja em movimento rectilíneo uniforme não mudará a sua velocidade a não ser que uma força aja sobre ele.

Assim, a paz e o aumento do preço do petróleo — factores que geraram o crescimento económico — implicaram automaticamente uma pequena melhoria das condições de desenvolvimento humano. Contudo, essa melhoria não foi minimamente proporcional ao crescimento da economia, mas apenas residual. A economia triplicou, enquanto o IDH nem sequer duplicou, o que demonstra que o crescimento económico de Angola não foi para todos.

Um segundo critério invocado pelo diligente embaixador foi a esperança média de vida. Sobre este tema, Luvualu recorreu a uma amálgama de fontes. Segundo ele, entre 2002 e 2014, a esperança média de vida aumentou de 45 para 60 anos. Ora, os indicadores do IDH são de 45 anos em 2002 e 51 em 2014, bem longe dos 60 anos! Note-se que este indicador se refere aos padrões de mortalidade vigentes em cada um dos anos. É fácil perceber que os padrões de mortalidade num país em permanente guerra civil, com toda a tragédia que daí advém, serão bem mais elevados do que num país em paz.

Há ainda outras alusões estatísticas de Luvualu que também estão erradas ou mal interpretadas. Por exemplo, escreve o diplomata itinerante: “No domínio da saúde, têm-se registado igualmente avanços importantes no que respeita à redução da mortalidade infantil.” A mente ofuscada do embaixador estará a ler os números do avesso. Para o desmentir, basta atentar ao mais recente e credível relatório sobre este assunto, aquele que a OMS (Organização Mundial de Saúde) divulgou a 19 de Maio de 2016: “Angola registou a mais alta taxa de mortalidade do mundo em 2015 e a segunda pior taxa de esperança de vida à nascença. Em 2015, 156,9 crianças até cinco anos morreram por cada 1.000 nascidas vivas, enquanto por cada 100 mil nados vivos morreram 477 mães.”

A realidade é literalmente oposta àquilo que Luvualu vergonhosamente apregoa.

Em Angola, os números sociais são desastrosos. Depois de anos de enriquecimento, o povo vive mal, na cauda do mundo. Se isto é o MPLA com o povo, talvez seja de experimentar o povo sem o MPLA.

Quanto a Luvualu, ele que trate de estudar como deve ser as matérias acerca das quais de vez em quando decide ilustrar-nos. Assim evitaria divulgar números falaciosos, quando não pura e simplesmente falsos.

(*) in Maka Angola

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