Lavar mais branco compensa. O novo canal generalista, criado de raiz pela portuguesa TVI para Angola e Moçambique, está no ar a partir de hoje. Chama-se TVI África.

Por Orlando Castro

S egundo a própria TVI, “é a primeira vez que uma televisão portuguesa constrói, de raiz, um canal generalista, feito propositadamente para um operador de um mercado que não o português”.

E acrescenta: “Na grelha da TVI África estarão conteúdos exclusivos e a melhor oferta premium da TVI. Reality shows como “A Quinta”, novelas com emissão simultânea em Portugal, como “Santa Bárbara”, grandes formatos de entretenimento e informação são apostas do novo canal”.

Em Portugal, e não é um exclusivo da TVI, tudo serve para lavar a imagem do regime de José Eduardo dos Santos, um presidente que está no poder há 36 anos sem nunca ter sido nominalmente eleito. Mas há alguns que têm lixívia perfumada, o que sempre dá um ar mais agradável à porcaria. E, claramente, a TVI é a que mais se destaca.

E numa das fotos de promoção desta lavandaria lá está José Alberto Carvalho. E está bem. Citemos o Jornal de Angola a propósito: “A TVI é a voz oficial de José Alberto Carvalho, que a jornalista Manuela Moura Guedes tratou por Zé Beto e apodou de burro”.

Certamente, como é seu apanágio, a TVI vai contar com o apoio de alguns dos maiores especialistas angolanos, quase se diria mundiais, como José Ribeiro e Artur Queiroz. Sim, que nesta fase do campeonato os sipaios portugueses não se atreverão a cuspir no prato do chefe do posto.

Em Outubro de 2013, o Pravda de Luanda (“Jornal de Angola”, segundo o MPLA), órgão de referência para os candidatos da TVI ao Prémio Pulitzer, com Victor Bandarra à cabeça, e para os sabujos que lhe dão cobertura, atacou forte e feio a TVI, acusando os seus jornalistas de serem analfabetos, virando todas as baterias para José Alberto Carvalho (então director de informação) e Judite Sousa (directora-adjunta], tratando-a como a “segunda dama de Seara”.

Foi remédio santo. Os dois ficaram domesticados. Os dois e todos os outros. Sentam, saltam e rebolam sempre que qualquer sipaio de Luanda lhes dá indicação para isso. Alguns fazem tudo isso sem sequer precisar de receber ordens. Tal é a habituação.

Nesse texto sobre a “fuga dos escriturários”, o nosso Pravda (que não se inibiu, antes pelo contrário, de contratar Victor Bandarra para palestrar em Luanda sobre – imaginem! – jornalismo) é dito que a “TVI apresentou num dos seus noticiários o Jornal de Angola como ‘a voz oficial do regime angolano’”. Mostrando ser um paradigma do que de mais nobre, puro e honorável existe no jornalismo moderno, o jornal de José Ribeiro, Artur Queiroz e companhia, escreveu que “a TVI é a voz oficial da dona Rosita (Rosa Cullell, administradora delegada da Media Capital, dona da TVI) dos espanhóis” ou, em alternativa, “voz do conde Pais do Amaral, então presidente do Conselho de Administração da Media Capital“.

Mas há mais. “A TVI é a voz oficial de José Alberto Carvalho, que a jornalista Manuela Moura Guedes tratou por Zé Beto e apodou de burro”; “o canal de televisão é a voz oficial da segunda dama de Seara, inesperadamente apeada de primeira-dama de Sintra”.

Com este cenário, com a reacção do órgão oficial do regime, o que é o mesmo que dizer regime, sendo o nosso país um mercado apetitoso pelo dinheiro marginal que tem, pelos caixotes diplomáticos cheios de dólares que aterram em Lisboa, pelos avultados investimentos que faz nas lavandarias portuguesas, a TVI do – citemos o Jornal de Angola – “escriturário” José Alberto Carvalho e da “ex-primeira-dama de Sintra”, tinha de fazer alguma coisa, engrossando a sabujice lusa.

E fez. Para além de avulsas “reportagens” sobre o que mais interessava ao regime vender ao exterior, avançam agora para a dita TVI África. Dessa forma ficam sanadas as divergências entre os “escriturários” de Queluz de Baixo e os donos de Angola.

No referido artigo do “Jornal de Angola” sobre a TVI e em que coloca José Alberto Carvalho e Judite de Sousa ao nível da escumalha, diz-se que “Pedro da Paixão Franco, o príncipe dos jornalistas angolanos, dizia que era muito difícil fazer progredir o jornalismo da época, porque da “metrópole” chegavam carradas de analfabetos que mal passavam o Equador eram logo transformados em jornalistas.”

E como é que a TVI respondeu a esses insultos? À boa maneira portuguesa: pondo-se de cócoras e “dando o cu e três tostões” aos que a achincalharam sem apelo nem agravo.

“E em Portugal surgiu um fenómeno notável e que merecia um estudo profundo. Depois do 25 de Abril de 1974 o analfabetismo foi sendo banido, de uma forma galopante. Até há pouco, ninguém conhecia o segredo de tão simpático sucesso. Só agora se compreende o que aconteceu. Os analfabetos foram todos a correr para o jornalismo. E como eles dão nas vistas!”, escrevia o “Jornal de Angola” a propósito da TVI.

“Um dia destes, a TVI apresentou num dos seus noticiários o Jornal de Angola como “a voz oficial do regime angolano”. Os analfabetos têm o seu quê de inimputáveis. Mas fica mal a profissionais do mesmo ofício entrarem por terrenos tão pantanosos. O Jornal de Angola é a voz dos seus leitores. E dos jornalistas que livremente escrevem nas suas páginas. Nada mais do que isso. Aqui não há vozes do dono nem propagandistas. Há jornalistas honrados que todos os dias tentam dar o melhor que podem e sabem para fazer chegar aos leitores os acontecimentos do dia”, dizia o articulista do Pravda numa enciclopédica e, como agora se constata, bem sucedida lição de jornalismo endereçada aos profissionais da TVI.

“O Jornal de Angola tem um estatuto editorial que é seguido com rigor e sem hesitações. Se todos fizessem o mesmo, não assistíamos aos espectáculos deploráveis que vemos na TVI e noutros órgãos de comunicação social portugueses. Se o jornalismo português não estivesse atolado em fretes, se não fosse servido por analfabetos de pai e mãe, provavelmente hoje Portugal não estava a ser destruído pela Troika. E os portugueses não viviam angustiados por desconhecerem o dia de amanhã”, lia-se no artigo que ajudou decisivamente a colocar a TVI no rumo certo, ou seja, o da subserviência perante aqueles que põe qualquer coisa na mão (ou noutro sítio qualquer) dos portugueses para os satisfazer.

A cedência da TVI perante estes emblemáticos ataques envergonha todos os seus jornalistas e deveria levar à demissão de alguns. Isto se é que a TVI tem jornalistas. Se não tem… as nossas desculpas.

Mas tal não acontece. Superiores interesses financeiros e de mercado levam a que a TVI coma e cale.

Partilhe este Artigo