O Governo aprovou um crédito de 48 milhões de euros para pagamento de contratos com a empresa cubana Antex, quando se avolumam preocupações com a saída de profissionais de Angola devido a atrasos nos recebimentos. Pudera. O que seria do regime do MPLA sem Cuba?

A abertura deste “crédito adicional”, no montante de 6.679.490.366 kwanzas, consta de um despacho de 17 de Agosto, assinado pelo Presidente José Eduardo dos Santos, visando “o pagamento de despesas relacionadas com o pagamento de contratos assinados com a Empresa Antex”.

Na mesma informação não são disponibilizados dados sobre os sectores que abrangem estes pagamentos ou prazos para a sua concretização, numa altura em que surgem relatos do abandono de profissionais cubanos das áreas da saúde e da educação, por alegados atrasos nos recebimentos.

Em Julho foi noticiado que a permanência de médicos e professores cubanos em Angola podia estar em causa devido a atrasos nos pagamentos no âmbito da contratação destes profissionais.

Em causa está o atraso no pagamento do Estado à Antex – Antillas Exportadora, empresa cubana que assegura o recrutamento e pagamento de médicos, professores e engenheiros de construção civil que trabalham em Angola.

Sem receber do Estado angolano, tem sido Cuba a assegurar o pagamento à Antex, para manter estes trabalhadores em Angola.

Segundo o Governo angolano 42% dos médicos e 70% dos profissionais de saúde no país são cubanos.

A crise económica provocada pela quebra nas receitas com a exportação de petróleo terá agravado as dificuldades de Angola para assumir estes pagamentos, segundo o mesmo relato.

Os atrasos serão superiores as seis meses e ameaçam a actividade desenvolvida por cerca de 4.000 profissionais cubanos em Angola, apesar de a própria Antex negar que esteja previsto um “intempestivo regresso” destes trabalhadores.

As relações entre Angola e Cuba são tratadas ao mais alto nível, tendo em conta as relações históricas entre os dois regimes, desde a luta pela independência do poder colonial português, passando pela guerra contra a UNITA.

No último ano, o Presidente e o vice-Presidente angolanos, José Eduardo dos Santos e Manuel Vicente, visitaram Havana, enquanto de Cuba viajaram para Luanda vários altos representantes do Executivo cubano.

O caso Rafael Moracen Limonta

Recorde-se, a propósito da subserviência do regime de Eduardo dos Santos a Cuba, que o general cubano Rafael Moracén Limonta, que participou na luta armada pela independência de Angola e posteriormente na guerra civil, com nacionalidade angolana desde 2014, foi promovido ao grau militar de tenente-general pelo Presidente, nunca nominalmente eleito e no poder desde 1979, José Eduardo dos Santos.

A informação consta de uma ordem do Comandante-Em-Chefe e Presidente da República e chefe do Governo, de 3 de Março de 2015, e que determina a promoção do general cubano, depois de ouvido o Conselho de Segurança Nacional.

Num outro despacho, do mesmo dia, José Eduardo dos Santos autoriza a passagem à reforma do agora tenente-general do Exército Rafael Moracén Limonta, de 75 anos, “por limite de idade”.

Considerado herói da revolução nacional em Cuba, o general Rafael Moracén Limonta partiu de Cuba para o Congo em 1965, para apoiar os guerrilheiros do MPLA na guerra contra o colonialismo português.

De acordo com uma resolução da Assembleia Nacional angolana, foi concedida a nacionalidade angolana ao mesmo oficial cubano – que nos últimos anos desempenhou o cargo de adido militar na embaixada de Cuba em Luanda -, invocando os “serviços relevantes prestados ao país”.

Com a independência, em 1975, Moracén foi chamado pelo primeiro Presidente angolano, Agostinho Neto (MPLA), para o cargo de coordenador da segurança presidencial, entre outras funções.

A decisão de conceder a nacionalidade angolana, questionada pela oposição, resultou de uma proposta apresentada por um grupo de dez deputados do MPLA ao presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, em carta de 22 de Janeiro de 2014.

A concessão da nacionalidade ao general cubano foi também justificada pela maioria parlamentar com a “luta pela independência nacional” de Angola e os “esforços para a preservação da paz, integridade territorial e soberana nacional”, que envolveram Moracén Limonta.

Moracén Limonta, que ajudou a matar muitos angolanos, obteve assim a nacionalidade e uma promoção militar. É uma atitude que, no mais puro espírito de reconciliação nacional, invocou “serviços relevantes prestados ao país”.

Pela mesma razão, matar angolanos, deveria ser atribuída a nacionalidade e um grau militar aos jacarés do Bengo.

O general Rafael Moracen Limonta assumiu, numa entrevista concedida em 2007, a sua participação activa no desfecho dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em que foram assassinados milhares (muitos milhares) de angolanos.

De acordo com a entrevista (www.granmacubaweb.cu), o general cubano, que ao tempo era o responsável pela segurança do presidente Agostinho Neto, dirigiu pessoalmente as acções que culminaram com a tomada da Rádio Nacional de Angola então em poder dos insurgentes.

“Em nosso poder, a rádio não deixou de transmitir. Fui, arrebatei o microfone do locutor e o obriguei a dizer “Viva Neto”, conta o agora angolano Rafael Moracen Limonta, acrescentando: “Depois pronunciei umas palavras fortes e comuniquei à população que a rádio estava nas mãos da revolução”.

Antes de chegar a esta situação, segundo declarações suas, os 200 militares cubanos que se faziam transportar em veículos de combate BTR executaram os mesmos movimentos que os militares insurgentes, ou fraccionistas, faziam em volta das instalações da RNA.

“Em determinado momento confundo os meus soldados com os da contra-revolução, todos estávamos vestidos iguais, mas um dos militares leais é reconhecido e começou um tremendo tiroteio”, recordou o general cubano, agora também angolano.

A rádio foi assim tomada por quinze militares fiéis ao presidente Agostinho Neto, entre cubanos e angolanos, juntando-se depois cerca de 20 outros que se faziam transportar nos veículos BTR e outros camiões militares.

Depois da tomada da rádio, Rafael Moracen Limonta diz ter telefonado para o chefe da Missão Militar Cubana, o general Abelardo Colomé Ibarra, a solicitar a sua companhia de tanques que havia sido enviada para o Palácio do Povo e com a qual tinha dificuldades de comunicação.

O militar cubano revelou igualmente que já havia um conhecimento prévio da situação, tentativa de suposto golpe de Estado, mas que Agostinho Neto sempre minimizou.

Entretanto, os cubanos disseram ao presidente angolano que não estivesse no Palácio, mas apesar de tudo “disse que para ir a outro lugar tinha de certificar-se que o Palácio não seria tomado”.

Para garantir o que Neto queria, o general Rafael Moracen Limonta retirou da sua unidade duas companhias para reforçar a guarda presidencial.

“Ao chegar ao Palácio, deparei-me com uma manifestação que avançava com os militares golpistas com o objectivo de tomar a presidência. Dei ordem de que eles não podiam apoderar-se do palácio. Dei instruções à unidade para que, formada em coluna, estivesse pronta para sair até Luanda”, lembrou o general cubano.

Na verdade, esta unidade de tanques encontrava-se na área da Vidrul, arredores de Luanda, e a sua movimentação para a capital tinha sido objecto de um pedido do Presidente Agostinho Neto, tendo sido levada à capital pelo próprio general Rafael Moracen Limonta.

Numa outra entrevista, o general Abelardo Colomé Ibarra “Furry”, admite ter falado com Agostinho Neto sobre o golpe e a disposição dos militares cubanos de entrarem em acção e “o presidente pediu que actuássemos”.

Furry diz ter havido um desconhecimento da composição das forças e meios com que contavam os sublevados e por esta razão procurou o contacto com o então ministro da Defesa, Iko Carreira, que lhe pareceu frio para a gravidade da situação.

“Ofereci-me para o ajudar no que estimava que fosse conveniente. Estava com uma grande passividade, como que esperando que o fossem buscar para ser fuzilado”, disse Abelardo Colomé Ibarra.

Apesar de terem ficado sem os batalhões de tanques para a efectivação do contra-ataque, os cubanos ainda assim socorreram-se de tanques destinados à instrução e marcharam para a nona brigada que foi tomada sem problemas.

As relações de amizade entre Angola e Cuba foram forjadas com laços de sangue e são indestrutíveis uma vez que nesta terra cidadãos de ambos os países deram a sua vida na luta pela preservação da integridade territorial. Este pronunciamento foi feito pelo adido de defesa da Embaixada de Cuba em Angola, general Rafael Moracen Limonta, quando intervinha no acto político alusivo ao 55º aniversário do desembarque de Granma.

De acordo com general cubano, agora também angolano, não se pode deixar de frisar que os internacionalistas cubanos contribuíram na luta pela preservação da integridade territorial de Angola durante 15 anos, tendo fortalecido os laços de irmandade com o sangue de cidadãos dos dois países que foi vertido nessa acção.

“Quando falamos das forças armadas revolucionárias de Cuba, não podemos deixar de fazer uma incursão histórica da luta pela independência desta ilha, a qual durou mais de cem anos e contou com a colaboração de cidadãos oriundos de outros países, o que fez com que tivéssemos uma divida para com a África, a qual foi paga em Angola durante 15 anos”, referiu.

Rafael Moracen Limonta realçou que os internacionalistas cubanos fizeram jus às palavras de ordem do primeiro presidente de Angola, António Agostinho Neto, quando afirmou que “Angola era a trincheira firme da revolução em África”, uma vez que colaboraram para a independência do Zimbabué, Namíbia e o fim do apartheid na África do Sul.

Destacou o estado das relações de cooperação bilateral existente actualmente, tendo referido que actualmente ambos os países as quais tem maior enfoque nos domínios da educação, saúde, agricultura e energia.

Agradeceu na ocasião o apoio que Angola tem prestado a Cuba na luta contra o bloqueio económico de que é alvo há mais de meio século e pela libertação dos cinco cidadãos cubanos que se encontram detidos nos EUA.

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