O Ministério Público (MP) do regime acusou dez elementos da seita ilegal “A luz do mundo”, inclusive o seu líder, da prática de crimes de homicídio, no caso que em Abril terminou em confrontos mortais de ambos os lados com a polícia, no Huambo.

E m causa está, segundo regime, a acusação deduzida contra os homens com idades entre os 18 e os 54 anos, na qual José Julino Kalupeteka é o principal visado. Está indiciado pela co-autoria material (juntamente com os restantes arguidos) de um crime de homicídio qualificado consumado, um crime de homicídio qualificado frustrado e ainda crimes de desobediência, resistência e posse ilegal de arma de fogo. Só ficou a faltar o crime de rebelião e tentativa de golpe de Estado.

Kalupeteka, nome pelo qual também é conhecida a seita, está detido preventivamente na sequência dos confrontos na Caála, província do Huambo, que levaram à morte, segundo a versão oficial, de nove polícias e 13 fiéis, a 16 de Abril.

Na origem do caso estão os confrontos entre os fiéis e a polícia, cujos agentes tentavam dar cumprimento a um mandado de captura de Kalupeteka, de 46 anos, e outros dirigentes daquela não reconhecida pelo Estado angolano mas que durante anos beneficiou da sua cobertura, e alguns dos seguidores que estavam concentrados no acampamento daquela igreja, no monte Sumi.

No despacho de acusação, o MP do Huambo refere que as mortes dos agentes da polícia decorreram essencialmente de agressões com objectos contundentes, inclusive paus, punhais e catanas, às quais alguns polícias responderam com disparos.

“Enquanto decorriam as agressões, um grupo de senhoras, membros da seita, encorajavam os agressores entoando cânticos que exaltavam a chacina e outro grupo auxiliava os agressores na entrega de mocas, paus e outros objectos, enquanto os dois atiradores, a partir do cume do monte, efectuavam disparos contra o primeiro grupo dos agentes da polícia estacionados no campo de futebol”, lê-se no despacho de acusação.

Os arguidos mantêm-se em prisão preventiva, no Huambo, com o MP a classificar como “inadmissível” a liberdade provisória nesta fase do processo não estando ainda agendado o início do julgamento.

Entre outras conclusões, a acusação refere que a seita em causa, conhecida por,supostamente, advogar o fim do mundo em 2015 e não permitir a alfabetização ou vacinação dos fiéis, foi criada por José Kalupeteka em 2006, depois de este ter sido expulso da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Antes, ter-se-á instalado, em 2005, no monte Sumi, no Huambo, numa zona “conhecida como uma antiga base militar da UNITA, onde começou com a sua actividade religiosa”, sublinha a acusação.

“Nos seus cultos dizia ser servo de Deus, alegava que conversava com Jesus Cristo face a face, que recebia orientações de Deus através de sonhos e dizia ainda que quem quisesse chegar ao céu tinha que ir ao monte Sumi [palco dos confrontos e onde estariam concentrados centenas de fiéis], insinuando também que nenhuma outra Igreja era verdadeira”, lê-se ainda.

O MP diz que Kalupeteka terá travado o registo dos fiéis, “impedindo-os de participarem no ato eleitoral” de 2012 e que no recenseamento da população em Angola, realizado em 2014, “persuadiu os seus seguidores a não fazerem parte do mesmo, alegando que já estavam registados no céu”.

A acusação refere que o líder da seita, a partir de Setembro de 2014, “induziu” os seguidores a abandonarem as áreas de origem, vendendo todos os seus pertences e casas, “para se aglomerarem na montanha do Sumi, vivendo ao ar livre, sem as condições mínimas de habitabilidade, resultando do seu acto o surgimento de várias enfermidades, tendo muitos dos seus seguidores ficado gravemente desnutridos, principalmente as mulheres e crianças”.

Associado a vários alegados conflitos com seguidores da seita noutros pontos do país, nomeadamente um caso que terminou na morte de um agente da polícia em Benguela já em 2015, foram feitos contactos entre as autoridades e Kalupeteka no sentido de desmobilizar os fiéis e terminar com as actividades da seita, mas sem sucesso, refere ainda a acusação.

Para quem estiver interessado em saber mais sobre o processo de branqueamento da actuação das forças policiais e militares neste caso, considerado pela Oposição como um massacre e condenado por diversas organizações internacionais, aconselha-se a ver o programa da televisão portuguesa TVI, transmitido no dia 7 de Setembro.

Tal como a investigação do regime, também o publicitário da TVI, Victor Bandarra, não conseguiu ouvir um só testemunho do lado dos seguidores de Kalupeteca, dos partidos da oposição, ou das organizações não-governamentais, da Igreja Católica, da Amnistia Internacional, da União Europeia ou das Nações Unidas.

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