Em Bolzano, cidade em Itália que fica na fronteira austríaca, refugiados negros são impedidos de embarcar nos comboios que partem em direcção a Innsbruck, na Áustria, e Munique, na Alemanha. A polícia bloqueia as portas dos vagões: se o passageiro for branco, a passagem é permitida, se for negro, pedem passaporte.

Por Janaina Cesar

E m Bolzano, cidade em Itália que fica na fronteira austríaca, refugiados negros são impedidos de embarcar nos comboios que partem em direcção a Innsbruck, na Áustria, e Munique, na Alemanha. A polícia bloqueia as portas dos vagões: se o passageiro for branco, a passagem é permitida, se for negro, pedem passaporte. Como nenhum refugiado possui a documentação, são impedidos de entrar.

As polícias italiana, austríaca e alemã trabalham em estreita colaboração. A força trilateral, como é conhecida, nasceu em 2002 com o objectivo de prevenir assaltos em viagens internacionais, mas hoje impede que refugiados deixem a Itália.

Todos os dias, por volta das 9h da manhã, cerca de cem refugiados chegam à estação de Bolzano, ponto de acesso para ir para a Alemanha e para os países nórdicos. No dia 29 de Junho, uma segunda-feira, 80 desceram do comboio nocturno de Roma. A maioria vem da Eritreia, Sudão e Síria. Fogem da guerra, da fome e da miséria. Para conseguirem chegar a Itália, enfrentaram a morte de perto, atravessando o mar Mediterrâneo, que todos os anos faz centenas de vítimas.

Aisha, uma jovem mãe eritreia que viaja com a filha de 2 anos, conta que escapou do seu país por causa da perseguição religiosa. Ela quer ir para Munique, diz ter amigos lá. “Não quero ficar em Itália. Tenho amigos na Alemanha que me esperam e me vão ajudar quando eu chegar”, conta.

Para quem está há cinco meses a viajar, os 280 quilómetros que separam Bolzano de Munique representam pouco — mas são intermináveis. Durante os dez minutos em que o comboio permanece parado para o embarque dos passageiros, Aisha e outros observam os “brancos” a entrarem sem problemas e entreolham-se tentando entender o que está a acontecer. Mesmo mostrando a passagem de 69 euros de Bolzano a Munique, os policiais não os deixam entrar. Até aquele momento ninguém lhes explicou nada. Os polícias, aqueles que se dão ao trabalho de responder, gastam somente uma palavra: “passaporte”. Sem mais.

Pele negra

Segundo declarou um polícia italiano que pediu para ficar no anonimato, a cor da pele identifica quem são os refugiados sem documentos. “Se for negro, não entra. E se já está dentro [do comboio] deve ser controlado porque é quase certo que não tem documentos”, diz o agente, relatando qual foi a ordem recebida pelos superiores. “Sei que não é correto, mas é o modo mais fácil de identificá-los. Sabemos que nenhum deles possui visto ou passaporte e por isso não os deixamos entrar no comboio internacional.”

O polícia italiano diz ainda que nos comboios regionais que partem do sul em direcção à fronteira austríaca, o controlo não é realizado. “Se o sistema de controlo funcionasse, eles [os refugiados] nem partiriam do sul [onde ficam os centros de acolhimento]. Nós da polícia de Bolzano temos que enfrentar esse problema sozinhos”, afirma.

Ainda que seja vedado esse tipo de auxílio pela legislação italiana — segundo a Lei nº 189, de 2002, ajudar um cidadão a entrar ou sair ilegalmente do país constitui crime de favorecimento à ‘imigração clandestina’ — alguns cidadãos sensíveis à situação dos refugiados, informam e até desenham atrás de passagens não usadas, o percurso que devem fazer para chegar até Munique. Praticamente, devem ir até Brennero, outra cidade italiana da fronteira, pegar o comboio regional austríaco até Innsbruck e, chegando lá, pegar o regional alemão para Munique. Tudo isso torcendo para que a polícia local não os peguem e mandem de volta à Itália.

Só em 2014, a Áustria devolveu cerca de 5.000 refugiados aos italianos. Isso, pois o Tratado de Dublin obriga que o pedido de asilo seja feito no primeiro país onde a pessoa é identificada. No entanto, das 6.000 identificações realizadas no ano passado pelo polícia de Bolzano, ninguém regressou para formalizar o pedido de asilo.

Voluntários

Segundo Manoel, um dos voluntários que ajuda no acolhimento dos refugiados na estação de Bolzano, “alguns deles chegam aqui a pensar que já estão na Alemanha, não sabem que precisam de documento e visto para entrar naquele país”. É fácil enganar-se, porque em Bolzano tudo é bilíngue (italiano-alemão), da placa na estação aos anúncios nos alto-falantes.

“Explicamos que sem documento não podem ir no comboio internacional e orientamo-los para o comboio regional para Brennero, uma cidade que fica na fronteira com a Áustria”, diz.

“Na medida do possível, nós orientamo-los, mas às vezes a comunicação é muito difícil”, diz Luca de Marchi, também voluntário. “Quando chegam aqui, nós levamo-los para uma sala que colocaram [na estação de Bolzano] à nossa disposição, fornecemos sacos com alimentos, além de roupas e sapatos e assistência humanitária. Queremos que essas pessoas, nas poucas horas em que estão aqui, se sintam um pouquinho em casa. Já enfrentaram uma viagem alucinante e queremos oferecer um pouco de tranquilidade e serenidade.”

De Marchi confirma que o problema da discriminação existe, mas, segundo ele, é uma coisa pessoal. “Não se pode generalizar e dizer que a polícia é racista, nós temos um óptimo relacionamento com a força de ordem. Não acho que a questão principal seja a cor da pele. O problema realmente é a falta de documentos”, diz. Para ele, a melhor forma para contrastar a questão dos refugiados, “é trabalhar em silêncio, sem criar atritos”.

Rumo à Áustria

Aisha e um grupo de 60 refugiados decidiram seguir os conselhos de quem se arriscou com a lei italiana e resolveram embarcar para Brennero. Os outros preferiram ficar em Bolzano, para tentar embarcar no próximo comboio internacional directo à Innsbruck e Munique — e tentar a sorte de encontrar com um policia que faça de conta que não os viu a embarcar. Segundo Marco, isso já aconteceu, mas é coisa rara.

Uma hora e meia de viagem até Brennero com o comboio regional italiano. Mais 13,50 euros de passagem. A bordo reina o silêncio. Alguns aproveitam para dormir, enquanto, no fundo do comboio, uma mãe amamenta o seu filho. O comboio pára. Ponto de chegada. Da estação de Brennero vê-se a fronteira com a Áustria. A estação está vazia. Nada de polícia italiana, alemã ou austríaca. Quando os polícias estão nas imediações, alguns atravessam a fronteira a pé, pelos trilhos paralelos à estrada principal. Mas desta vez não.

Esta brecha dá tempo para pedir informação a um jovem que chegou à estação. O comboio regional austríaco está ali parado e eles não podem perder a ocasião. O jovem, na maior paciência, ajuda-os a comprar as passagens, uma a uma. Às 15h, parte o comboio e em meia hora chegam a Innsbruck. Aisha está feliz e deixa escapar um sorriso.

Artigo publicado em Opera Mundi.

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