Filipe S. Fernandes, autor da biografia de Isabel dos Santos (a rainha santa do clã Eduardo dos Santos) que é lançada hoje, diz que o poder da empresária explica-se pela proximidade em relação ao poder, sobretudo no que diz respeito ao acesso aos negócios.

“O que explica Isabel dos Santos, assim como outras entidades, não só em Angola, é a proximidade do poder para os negócios. Não são precisos meios obscuros, basta o acesso aos negócios”, disse à Lusa o autor do livro “Isabel dos Santos — Segredos e poder do dinheiro”.

Segundo o autor, o livro é sobretudo uma “biografia empresarial” sobre a angolana, nascida em Baku, em 1973, filha do chefe de Estado José Eduardo dos Santos, no poder desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito, e que a revista Forbes aponta como a mulher mais rica do continente africano.

Para Filipe Fernandes, normalmente associa-se a fortuna de Isabel dos Santos aos diamantes que o pai lhe teria dado, mas “há uma hipótese muito mais simples” que pode explicar a fortuna como, por exemplo, a concessão das telecomunicações (UNITEL) nos anos 1990.

Na altura, Angola estava a tentar que houvesse uma empresa internacional a concorrer à licença de concessão de telemóveis e em plena guerra civil ninguém queria arriscar e, “de certo modo”, explica o autor, o negócio teria de ser dado a alguém que tinha de estar próximo do poder. E quem melhor do que a filha do Presidente?

“Só o facto de ter tido aquela concessão pode ter sido uma boa base para uma boa fortuna e basta ver o valor dos dividendos que são pagos pela UNITEL desde que foi criada sendo que teve dividendos desde muito cedo”, explicou.

“Foi em Baku que José Eduardo dos Santos conheceu a mãe de Isabel dos Santos, Tatiana Kukanova, uma russa campeã de xadrez que estudava geologia. O Azerbeijão, então posto avançado russo, acolhia jovens quadros promissores dos movimentos de libertação alinhados com o regime comunista como o MPLA”, refere o autor, sublinhando que o encontro entre os dois não foi promovido pelo KGB, os serviços secretos da ex-URSS.

“Depois do casamento sabe-se muito pouco sobre Tatiana. Sabe-se que trabalhou na SONANGOL quando foi para Angola, que após o divórcio continuou em Angola tendo depois ido viver com a filha para Londres. Fala várias línguas e foi sempre o ‘porto seguro’ da Isabel dos Santos”, diz Filipe Fernandes que refere no livro os poucos dados sobre a actividade empresarial da mãe da empresária.

“Tatiana Kukanova surge nas contas divulgadas pelo denominado SwissLeaks, que se baseia nas listas das contas na filial do HSBC, obtidas por Hervé Falciani, um ex-funcionário, em 2008, e agora divulgadas. Na sua conta estavam, em 2006-2007, mais de 4,5 milhões de euros”, escreve Filipe Fernandes.

O livro baseia-se em fontes abertas como livros e jornais até porque, refere o autor, após ter contactado “com algumas pessoas” chegou à conclusão que muito pouca gente conhece Isabel dos Santos com alguma consistência e fiabilidade.

Além das questões familiares o livro recorda o caso “Angolagate” e os complexos movimentos de Arcadi Gaydamak e Pierre Falcone acusados pela justiça francesa da venda ilegal de armas em Angola durante a guerra civil.

“Em 2011, o tribunal de Paris retira as acusações de tráfico de armas e de influências mas condena-os por fraude fiscal e branqueamento de capitais”, refere o autor.

Na sequência do caso, o livro sublinha ainda o papel de Lev Leviev, negociante de diamantes natural de Uzbequistão e apresentado à cúpula do poder em Angola por Gaydamak e que “afrontou” a companhia diamantífera De Beers conseguindo negociar directamente em Angola e Rússia.

Na sequência destes contactos, recorda a biografia, surge a empresa Africa-Israel Investiments (AFIL) que dá origem a partir da reorganização de 2009 à Ascorp, cujos accionistas eram a Sociedade de Comercialização de Diamantes de Angola e a Trans-African Investment Services (TAIS).

O memorando do acordo assinado em 1999 assegurava à TAIS e à Welox a compra de um mínimo de 150 milhões de dólares em diamantes.

“Esta associação teve mais uma confirmação com a revelação de documentação da filial suíça do HSBC. Isabel dos Santos, por sua vez, deteria 75% da Trans-African Investments Services enquanto a mãe, Tatiana, que entretanto se tornou cidadã britânica, ficava com 25%”, lê-se na biografia que cita a imprensa internacional.

O livro, ainda no capítulo dedicado aos “diamantes e à guerra civil” indica mesmo que, segundo Gaydamak, TAIS é um acrónimo das iniciais Tatiana e Isabel, empresa que entretanto acaba por mudar de nome para Iaxon Limited, registada na colónia britânica de Gibraltar.

O livro dedica ainda capítulos sobre as ligações de Isabel dos Santos ao empresário português Américo Amorim, “a guerra na Galp Energia” e os vários pontos de contacto com Portugal.

“Ela faz estas ligações porque são estratégicas para os negócios em Angola. Ao mesmo tempo por segurança: se alguma coisa acontecer de grave também tem um refúgio e aquilo que é racional com a ligação com Portugal é o sector empresarial, a eficiência e a máxima rentabilidade nos negócios além de assegurar o seu controlo estratégico em Angola”, disse à Lusa o autor da biográfica.

Para Filipe Fernandes, a empresária encontrou alguma consistência nos sectores que escolheu: o financeiro e a articulação que ela tem que ter porque, “apesar de tudo”, os bancos em Angola, têm alguns accionistas portugueses e consequentemente com os meios accionistas internacionais que “sozinha não teria”.

Filipe S. Fernandes, jornalista, é autor de vários livros, entre os quais, “As vítimas do escândalo Espírito Santo”; “António Champalimaud: Construtor de Impérios”.

A biografia “Isabel dos Santos — Segredos e Poder do Dinheiro” (Casa das Letras, 190 páginas) encontra-se nas livrarias a partir de hoje.

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