Cento e cinquenta mil (150 mil) crianças que morrem todos os anos em Angola. Angola é o país do mundo onde morrem mais crianças com menos de cinco anos. E um dos mais corruptos. A reportagem é de um dos mais prestigiados jornalistas do “The New York Times”.

U m tweet do secretário de Estado dos EUA John Kerry bastaria para salvar o jornalista angolano Rafael Marques? E um almoço público com o embaixador norte-americano no país? “Vamos exercer influência em vez de permanecermos cúmplices“, escreve Nicholas Kristof, um dos mais prestigiados jornalistas do “The New York Times”, para mostrar por que é preciso intervir naquele que é o país dos diamantes e do petróleo – aquele em que uma em cada seis crianças morre antes de completar cinco anos.

O jornalista do “The New York Times” não quis ficar indiferente ao que viu em Angola, o país onde morrem mais crianças no mundo – muitas delas subnutridas -, de acordo com dados recolhidos pela Unicef, Nações Unidas, Banco Mundial e Organização Mundial de Saúde. Escreveu e filmou o que se passa nos hospitais angolanos – para que o mundo conhecesse as histórias de quem não se habitua à dor de perder um filho – mesmo que já tenha perdido três ou quatro.

Às vezes, os ocidentais pensam que as pessoas nos países pobres se habituam à perda, que têm os corações calejados e a dor entorpecida. Mas ninguém que visse aquela mãe à beira da cama do seu filho morto poderia pensar isso”, escreve numa das quatro reportagens onde faz um retrato do país.

Em Angola, morrem 150 mil crianças todos os anos. Uma em cada 35 mulheres (dados das Nações Unidas) corre o risco de morrer durante o trabalho de parto e apenas 40% a 50% da população tem acesso aos cuidados de saúde, disse o pediatra da Unicef, Samson Agbo, ao jornalista. E as crianças morrem porque não há medicação, explicou Alfred Nambua, chefe de uma aldeia perto da cidade de Malanje. Foi Nambua quem disse a Nicholas Kristof que vivia melhor antes de Angola ser independente (o processo da descolonização portuguesa aconteceu em 1974 e a guerra civil devastou o país entre 1975 – ano da independência – e 2002) do que agora.

“No período colonial, quando estava doente, eles tinham medo que eu morresse e cuidavam de mim. Agora, quando estou doente, ninguém se importa”, disse.

A par da denúncia da mortalidade infantil, a denúncia da corrupção. Nicholas Kristof encontrou medicamentos da Novartis à venda em mercados de rua – medicamentos que tinham sido disponibilizados aos hospitais e cuja venda não era permitida. Conta que demorou cinco anos a obter um visto que lhe permitisse visitar o país e diz ter consciência de que depois deste relato alguma vez possa voltar a pisar o chão de Angola – pelo menos — diz ele — enquanto o “regime actual estiver no poder”.

“Um líder tem muitas formas de matar as suas pessoas e, apesar de José Eduardo dos Santos não estar a cometer genocídio, está a negligenciar o seu povo“, escreveu o jornalista do “The New York Times”, que recupera os dados revelados pelo jornalista e activista Rafael Marques: cerca de 58 milhões de dólares que estavam destinados à renovação de um hospital particular desapareceram.

Rafael Marques foi condenado a seis meses de prisão com pena suspensa no âmbito de um processo por “difamação e denúncia caluniosa”, apesar de ter chegado a acordo com os generais e as empresas de exploração diamantífera. Em causa está o livro “Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola”, que foi retirado de circulação. Nicholas Kristof diz que se sente honrado por ter a mesma profissão de Rafael Marques.

Notas. Este texto é da autoria da jornalista Ana Pimentel e foi publicado no jornal on-line português Observador. Tudo isto tem sido escrito no Folha 8 ao longo dos últimos 19 anos.

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