Otelo Saraiva de Carvalho, um dos mais determinantes amigalhaços do regime angolano do MPLA, no poder desde 1975, diz que o atraso de Portugal a reconhecer independência de Angola foi “muito grave”. A reconhecer o governo do MPLA, quer ele dizer.

“N ão há dúvidas de que o reconhecimento tardio da independência de Angola levou a que nem sempre as relações com Portugal sejam boas. Há coisas que deixam marcas para sempre”, salientou.

O “capitão de Abril” Otelo Saraiva de Carvalho considerou “muito grave” que Portugal tenha sido o 83º país a reconhecer a independência de Angola, algo que considera ainda interferir nas relações entre os dois Estados. Sobretudo porque, acrescente-se, os militares portugueses já tinham dado o poder a quem queriam, ou seja ao MPLA, em detrimento dos acordos estabelecidos que o colocavam em pé de igualdade com a FNLA e a UNITA.

A posição de Otelo Saraiva de Carvalho foi defendida em entrevista à agência noticiosa oficial do regime, Angop, em Lisboa, a propósito dos 40 anos de independência de Angola, que se assinalam a 11 de Novembro deste ano. Nela o ex-líder das FP-25 (Forças Populares 25 de Abril foram uma organização armada clandestina de extrema-esquerda que operou em Portugal entre 1980 e 1987) assumiu que “tardou demais” o reconhecimento, não havendo dúvidas de se ter tratado de um “tremendo erro” de Portugal.

“Não há dúvidas de que o reconhecimento tardio da independência de Angola levou a que nem sempre, ainda hoje, as relações com Portugal sejam boas. Há coisas que deixam marcas para sempre. Isso tudo custou caro para as relações entre Angola e Portugal”, sublinhou Otelo Saraiva de Carvalho.

O antigo militar adiantou, numa tentativa de reescrever a história, que foi “tentada uma plataforma mínima de acordo entre os três movimentos de libertação”. Trata-se de uma mentira pois essa plataforma só seria implementada se acaso o MPLA não tivesse – com a ajuda militar de Cuba – tomado o poder em Luanda.

“Tínhamos mais preferência pelo MPLA, porque era o único movimento, por razões ideológicas e capacidade de gestão política, do qual tínhamos contacto e diálogo”, reconheceu também o líder das FP-25, uma organização terrorista portuguesa responsável por 13 mortes – às quais acrescem ainda as mortes de 4 dos seus operacionais – dezenas de atentados a tiro e com explosivos e de assaltos a bancos, viaturas de transporte de valores, tesourarias da fazenda pública e empresas.

Otelo Saraiva de Carvalho disse ainda que António Spínola, político conservador, tinha uma ideia completamente diferente de autodeterminação e de independência.

“Spínola tinha uma ideia de criar uma ‘Commonwealth’ à portuguesa, em que ele seria o Presidente da República e de todas as províncias ultramarinas. A perspectiva dele era gizar uma cultura ultramarina que conduzisse à paz e mais nada. Isso era completamente ridículo”, disse.

Segundo Otelo Saraiva de Carvalho, a visão do Movimento das Forças Armadas (MFA) passava por medidas para elevar o nível económico, cultural e social do povo português, sobretudo das classes sociais mais desfavorecidas.

“Para nós, o Governo saído do da revolução de 25 de Abril deveria, imediatamente, também, reconhecer o direito dos povos à autodeterminação, com todas as consequências que daí adviriam, mesmo a independência”, frisou.

Numa mensagem a propósito dos 40 anos de independência que os PALOP comemoram este ano, Otelo Saraiva de Carvalho considerou “extremamente aliciante (re)construir um país”.

“É satisfatório sentirmos, eu e os meus camaradas, o sonho dos nacionalistas africanos em tornar rapidamente possível o alcance da liberdade, da dignidade e da soberania dos seus países”, destacou.

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