O secretário do Comité Provincial de Luanda do MPLA para a Área Periférica e Rural, Bento dos Santos ´Kangamba´, acusa UNITA de instrumentalizar os jovens activistas que estão a ser acusados de atentar contra a vida do Presidente da República e de outros membros do Governo.

Por Orlando Castro

O sipaio promovido a general Bento Kangamba, um dos mais heróicos soldados das Forças Armadas de Angola (por parte de Eduardo dos Santos) continua a mostrar – e ainda bem que o faz – como é de facto regime.

Saberão os milhares de leitores que todos os dias nos honram com as sua visitas quem afirmou que “as faculdades estão a ser construídas para os jovens estudarem e não para fazerem política, nem criticarem o governo”, acrescentando que “a política faz-se nos comités e nas zonas urbanas onde estão os partidos”?

Poderia ser Kim Jong-un ou Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Embora a diferença não seja muita, quem disse estas antológicas palavras foi Bento Kangamba, ao discursar num acto político e cultural que decorreu no Largo da Família, em Luanda, em Julho de 2012.

O que Kangamba diz revela, seja em que altura for ou a propósito do que for, apenas um canino culto ao “querido líder”, sem o qual muitos dos kangambas angolanos não conseguiriam ser sequer sipaios.

Mas não se julgue que são só os kangambas que lambem as botas, mesmo recorrendo a frases que envergonham o próprio Eduardo dos Santos. Manuel Nunes Júnior, ex-minitro da Economia e depois Secretário para a Política Económica e Social do MPLA e professor universitário, também segue a mesma linha, embora de forma mais refinada.

Segundo ele, a “visão estratégica” do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, perante a crise económica internacional, foi decisiva para manter a estabilidade macroeconómica e desenvolver acções inseridas no processo de diversificação da economia nacional. Viu-se.

Ou seja, também na economia, tal como em todas as outras vertentes da vida, e da morte, dos angolanos, Deus tem um representante directo (ou será ele próprio?) no país. Sem Eduardo dos Santos seria o fim.

Manuel Nunes Júnior, então ministro, dissertava durante a primeira jornada sócio-comunitária sobre “A visão estratégica de Zedú para a superação dos efeitos da crise económica e financeira mundial, em Angola”, no âmbito das comemorações do seu 67º aniversário natalício.

Cada vez mais, o que só prova o desespero, o MPLA considera que as manifestações pacíficas configuram, não à luz da Constituição mas da lei que está mais acima, a da arbitrariedade do regime, um crime contra a monarquia unipessoal reinante.

A deputada pela bancada parlamentar da UNITA, Mihaela Webba, diz que o actual regime no poder em Angola desde 1975 entra em pânico só de ouvir falar de manifestações. É verdade. Mas também é a única forma que, por enquanto, tem para testar a veia sanguinária das suas forças de segurança.

“O regime quando ouve falar de manifestação utiliza todo aparato policial do Estado para reprimi-la, se tivéssemos a nossa polícia assim todos os dias talvez Angola já não tivesse crimes”, diz Webba, que defende a queda do actual regime no poder, mas de uma forma democrática.

“Todos nós queremos um objectivo: tornar Angola um Estado democrático e para tal se concretize este regime tem de cair, todos lutamos para isso”, afirma a deputada da UNITA que, com estas afirmações, corre o sério risco de adormecer na boca de um jacaré do Bengo.

A mesma linha de pensamento tem a CASA-CE e, em entrevista à VOA, Abel Chivukuvuku considerou só haver uma saída.

“O presidente quase que considera o país como sua propriedade privada, que ele pode dispor com os seus familiares e amigos. Por isso é que os angolanos têm que entender que para que os recursos de Angola sejam de todos angolanos, José Eduardo dos Santos tem que sair do poder, mas de forma positiva, pacífica e ordeira, porque a pobreza e a falta de realização dos cidadãos num país rico com muitas desigualdades são factores de instabilidade”, acusou Chivukuvuku.

Por seu lado, Joaquim Nafoia, dirigente do PRS, emitindo uma opinião pessoal, diz acreditar que “a única forma de se criar ruptura e forçar mudanças a este regime é essa de manifestações que os jovens estão a seguir, eu pessoalmente revejo-me nisso”

Do lado do poder, João Pinto, o sipaio do costume, deitou faladura para considerar um equívoco da oposição pensar assim. Aliás, de acordo com o recado de que foi incumbido de ler, o também deputado do MPLA deveria dizer que só o facto de a Oposição julgar que tem direito a pensar é um equívoco e, é claro, um crime.

“Querem acusar o MPLA de quê? Esses pronunciamentos são próprios de quem quer o poder e querem achincalhar quem detém o poder e se calhar quando lá chegarem vão fazer pior. O próprio Chivukuvuku abandonou a UNITA e criou a sua coligação, são tão democratas que não conseguem aturar a diferença, os mesmos que disseram que as eleições foram fraudulentas tomaram posse, estão no Parlamento, já estamos habituados, o povo angolano sabe quem é quem”, grunhiu João Pinto.

Quanto aos jovens manifestantes o deputado aumentou os decibéis desse grunhido para dizer que “não se pode confundir uma manifestação anárquica de alguém que pretende se manifestar e diz pretende derrubar o Presidente da Republica é crime, assim como não se deve coagir um órgão eleito democraticamente como o Governo eleito a demitir-se”.

E, num último e sonoro grunhido, João Pinto diz que a manifestação “é um crime e a nossa lei de manifestação não prevê isso”. Lei? Pois, a tal lei que está acima da própria Constituição.

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