Margaret Thatcher, que em Maio de 1979 se tornou a primeira mulher a dirigir um governo britânico, proibiu nesse ano o seu enviado especial à então Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe.

Por Orlando Castro

O argumento, repare-se, era o de que “não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros”, segundo arquivos oficiais britânicos desclassificados no dia 30 de Dezembro de 2009.

“Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da ‘Frente Patriótica’. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros”, escreveu – e sublinhou várias vezes – numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será.

Esta posição de Margaret Thatcher recorda-nos que quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs sanções contra a UNITA o fez porque, dizia, os homens de Jonas Savimbi eram os maus da fita, ou seja, terroristas.

Ainda no uso da memória, recorde-se que em 2001 o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, justificou as sanções com os “ataques da UNITA que, nos últimos meses, mataram milhares de civis”. Curiosamente, poucos dias antes, Eduardo dos Santos afirmara que a UNITA só tinha forças residuais e que só um milagre a salvaria.

Nessa altura, como hoje, a ONU mostrou que é apenas o porta-voz dos donos mundo, pelo que em vez de trabalhar para os milhões de angolanos – por exemplo – que têm pouco (ou nada), prefere lamber as botas (tal como faz em relação ao regime de Eduardo dos Santos) aos poucos que têm milhões.

Durante a nossa guerra, e segundo a rapaziada então comandada por Kofi Annan, a UNITA só matava civis e as forças armadas de Luanda só matavam militares. Pelos vistos o MPLA tinha armas que distinguiam os alvos: se fossem militares… acertavam, se não fossem… desviavam.

Nessa altura, numa reunião do Conselho de Segurança sobre Angola, o sub-secretário-geral das Nações Unidas, Ibrahim Gambari, sustentou que o movimento de Jonas Savimbi era o “primeiro responsável pela continuação do conflito” em Angola.

A este propósito importa dizer que se não fosse a determinação de Jonas Savimbi (entre muitos outros, refira-se) e Angola seria, tal como era – e continua a ser – Luanda, um pantanal de políticos corruptos onde impera a ditadura dos senhores todo poderosos do MPLA.

Morreu Savimbi e, como era previsível, o pantanal de políticos corruptos estendeu-se a todo o país enão ficou apenas por cá. Há ramificações, entre outros países, em Portugal.

Ou seja, ontem como hoje e certamente amanhã, a ONU tem dois pesos e duas medidas. Luanda pode fazer o que muito bem entende e, por isso, praticar o terrorismo que melhor se enquadra nos seus objectivos. É o que, com certeza, as Nações Unidas consideram um terrorismo bom.

Já a Oposição política, social, cultural etc. não pode reagir, não pode defender-se. Porquê? Porque, tal como a UNITA, tem o exclusivo do terrorismo mau e por muito que o tenha abandonado terá de transportar sempre essa carga.

Aliás, todos sabem que o MPLA sempre praticou terrorismo bom. O que se passou no 27 de Maio de 1977 é prova disso.

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