O Presidente de Angola considerou hoje a seita “A Luz do Mundo”, que na quinta-feira matou nove polícias na província do Huambo, como “uma ameaça à Paz e à unidade nacional”, numa mensagem ao povo angolano.

Por Orlando Castro

C omo é que uma seita como a “Kalupeteca”, que terá no máximo quatro mil seguidores numa população superior a 21 milhões, é uma “ameaça à Paz e à unidade nacional”? Vejamos a tese do presidente da República, nunca nominalmente eleito e no cargo desde 1979.

José Eduardo dos Santos referiu que a reacção violenta do líder da seita e dos seus colaboradores mais próximos demonstra que são indivíduos perigosos e que “devem ser todos rapidamente capturados e entregues à Justiça”. Até aqui tudo bem. São perigosos e devem ser julgados.

Segundo o chefe de Estado, a acção dos órgãos de Defesa, Segurança e Ordem Interna vai continuar a trabalhar para desmantelar completamente a seita, havendo necessidade do apoio e colaboração de toda a população. Sendo de uma forma geral e quase total uma população pacífica, essa colaboração não faltará.

Considerando a morte dos policiais, que tentavam dar cumprimento a um mandado de captura do líder da seita, como “um triste acontecimento”, José Eduardo dos Santos afirmou que a doutrina adoptada pela mesma “fomenta a desintegração da sociedade e a separação das famílias, estimula o pecado e é contra os valores, os princípios morais e cívicos e os usos e costumes do povo angolano”.

É verdade mas, repita-se, são quatro mil seguidores numa população superior a 21 milhões. Potenciar a relevância religiosa e social desta seita pode ser, é quase sempre, contraproducente. A não ser que vise, como advoga o partido do Presidente (o MPLA) encetar uma caça às bruxas, muito para lá da seita em questão.

“Os seus mentores dizem que o mundo vai acabar em 2015 para assustar as pessoas, porque a Bíblia sagrada não fixou nenhuma data para o mundo acabar. Dizem que as famílias devem vender os seus bens, em particular as suas casas, abandonar as aldeias e vilas e viver as montanhas e florestas”, descreve a mensagem.

Um regresso inaceitável à vida primitiva, uma violação dos direitos dos cidadãos estabelecidos na Constituição e uma perturbação da ordem social é o que considera o Presidente angolano sobre as práticas da seita também conhecida por “Kalupeteca”, o nome do seu líder.

Novamente José Eduardo dos Santos, a coberto de uma sã preocupação, confunde a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras. Chamar a Constituição para este cenário é grave pois, como se sabe, o Presidente é o primeiro a violar e a deixar violar essa mesma Constituição.

O chefe de Estado apelou a uma “profunda homenagem” aos agentes mortos e a sua promoção ao grau imediatamente superior e a título póstumo, bem como todo o apoio necessários às suas famílias. Todos estamos de acordo.

Por outro lado, Eduardo dos Santos aponta também a necessidade de o Governo promover, com o apoio da sociedade civil e das igrejas, uma ampla campanha de educação para a ressocialização e integração de todos os cidadãos “que foram enganados em outras vilas e aldeias ou nas suas terras de origem”.

Desde que não seja do tipo da (re)educação patriótica, da lavagem de cérebro a favor do MPLA, da doutrina de culto canino a favor de quem manda, todos estaremos de acordo.

O incidente aconteceu na tarde de quinta-feira, em Serra Sumé, a 25 quilómetros da Caála, tendo os agentes, segundo a versão policial, sido surpreendidos por elementos da igreja “Sétimo Dia a Luz do Mundo”, conhecida por queimar livros, travar a escolarização e vacinação dos fiéis, concentrando-os em acampamentos sem condições e reunindo centenas de pessoas.

Os agentes foram mortos quando tentavam na altura capturar o líder daquela seita religiosa, entretanto já detido, também após confrontos na província de Benguela, que terminaram na morte de outro agente da Polícia Nacional.

No local da concentração desta seita, em são Pedro Sumé, estariam mais de mais de 2.000 fiéis, segundo relatos locais, que apontam igualmente para mortos entre os seguidores, na sequência da intervenção da troca de tiros, mas a informação não é confirmada pela polícia.

Além do Huambo e do Bié, a seita tem actividades conhecidas – ilegais por não estar reconhecida – nas províncias do Cuanza Sul, Cuando Cubango e Benguela, multiplicando-se nos últimos dias os confrontos com as autoridades e com a população.

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