Sob o título “Divórcio litigioso, por mútuo acordo ou (re)conciliação?”, o Folha 8 escrevia no dia 26 de Abril de 2015: “A possibilidade, que em grande parte era uma realidade, da entrada dos hipermercados Continente em Angola parece ter a certidão de óbito assinada. A Sonae e a Condis vão divorciar-se. Por mútuo acordo? Talvez não.”

Por Orlando Castro

N ão mesmo. Isabel dos Santos, bem ao estilo democrático do seu pai, só acredita na reconciliação desde que a outra parte faça o que ela quer. Simples.

Para avançar com o projecto, uma cópia fiel do Continente e que foi surripiada à Sonae, nomeadamente através da contratação de dois pesos-pesados (Miguel Osório e João Seara) da equipa de Paulo Azevedo, Isabel dos Santos criou a empresa Contidis.

Contidis? Exactamente. A anterior, a que fora constituída em 2011 em parceria com a Sonae, chamava-se Condis.

De há muito que a Sonae sabia que, a qualquer momento, Isabel dos Santos iria dar o golpe fatal à parceria. Acreditava, contudo, que o faria de forma ortodoxa. Estava enganada. Nos negócios, a filha do presidente vitalício de Angola, não olha a meios para atingir os (seus) fins. É ela nos negócios e o pai na domínio do país.

Até mesmo quando, em Março passado, viu dois dos seus quadros de topo zarpar para Luanda, Paulo Azevedo ainda alimentou a esperança (já ténue) de que Isabel dos Santos explicasse o que se passava. Esperou sentado.

A equipa de Paulo Azevedo verificou que que rainha santa Isabel (dos Santos) – dona de Angola (e de parte de Portugal) em parceria com o seu pai – apunhalou a Sonae pelas costas ao contratar esses dois quadros de topo da área de retalho que trabalhavam nesta parceria, Miguel Osório e João Seara.

A dona da Condis nunca se preocupou com isso. É para o lado que dorme melhor. Aprendeu isso no berço. Com os milhões que tem, a que junta os milhões que precisar, Isabel dos Santos não dá ponto sem nó.

Chegou a falar-se que o Continente estaria de portas abertas no nosso país no Verão de 2015. A Sonae apostou forte. Constituiu uma equipa para acompanhar a abertura dos hipermercados mas, é claro, primeiro foi necessário engolir uns tantos sapos, o que fez esgotar os stocks de “alka seltzer” das próprias lojas. Depois seguiram-se doses industriais de hóstias para tirar o pecado de negociar com um dos regimes mais corruptos do mundo.

Nada resultou. A estratégia de Isabel dos Santos foi seguida com todo o rigor. O dinheiro compra tudo. E então quando o dinheiro não custou a ganhar…

O projecto que marcaria a entrada do maior empregador privado português no território angolano seria fruto de uma parceria estabelecida entre o grupo e, como não poderia deixar de ser e corresponde à Lei da Probidade do nosso país, a empresária e não se sabe quantas vezes milionária Isabel dos Santos.

A Sonae não pode alegar ignorância. Melhor do que ninguém, Paulo Azevedo sabia que quem sai aos seus não degenera. José Eduardo dos Santos é, para além de chefe do Governo, o presidente de Angola desde 1979, sem nunca ter sido nominalmente eleito, bem como do MPLA (partido que está no poder desde a independência).

Hipermercados, supermercados, lojas de conveniência, lojas de proximidade, restauração, para-farmácias, livrarias, vestuário, desporto, electrónica, centros comerciais, administração de imóveis, investimentos financeiros, telecomunicações, software e sistemas de informação e media são as áreas do império fundado por Belmiro de Azevedo, a Sonae.

Mas como tudo na vida, Belmiro de Azevedo é muito diferente do seu sucessor dinástico, o filho Paulo Azevedo. O pai, que nem ao domingo descansava, dizia a mesma coisa em qualquer dia de semana. Hoje a estratégia é diferente. O filho diz às segundas, quartas e sextas uma coisa, às terças quintas e sábados outra coisa. E ao domingo vai à missa.

O acordo com a Condis – detida maioritariamente, como também não poderia deixar de ser e sempre respeitando o espírito e a letra da tal Lei da probidade, por Isabel dos Santos – aconteceu ainda em 2011, sendo que o projecto previa a abertura de uma rede de hipermercados Continente nosso país.

João Seara era o homem forte do grupo para este projecto, sendo que deveria ocupar o cargo de director executivo. A empresa nunca adiantou grandes pormenores, dizendo apenas que “não estava definida nenhuma data em concreto, mas tanto a Sonae como a Condis estão a envidar todos os esforços para proceder à abertura da primeira unidade o mais breve possível”.

Neste típico ziguezaguear chegou-se a uma previsão que parecia ter fundamento: Verão de 2015. No terceiro trimestre do ano passado já se falava de equipas mandatadas para começar a definir as gamas de produtos que seriam enviados para Luanda e que se juntariam a outros aqui produzidos. A própria Condis tinha em marcha a construção de uma infra-estrutura que acolheria as instalações do hipermercado.

A entrada da Sonae em Angola sofreu alguns contratempos, explicando-se assim a relutância do grupo português em avançar com uma data concreta. A internacionalização da empresa para o nosso país está em desenvolvimento desde 2012, ano em que a Sonae e a ANIP assinaram um contrato de investimento no valor de 100 milhões de dólares, com vista à abertura de cinco hipermercados.

Todos os atrasos poderiam ter a ver com o facto de, durante algum tempo, a Sonae ter tido dificuldades em engolir as regras da corrupção angolana. Daí as coisas não terem corrido tão bem como o inicialmente previsto, isto porque Paulo Azevedo anunciara a 17 de Março de 2011 que a entrada da empresa no mercado angolano poderia acontecer já nesse ano.

Fernando Ulrich, presidente do BPI, banco presente em Angola desde 1996, poderá ter tido um papel importante ao garantir a pés juntos que em Angola não há corrupção. Ao ouvi-lo dizer que “o BPI nunca pagou nada a ninguém para obter nada em troca como nem nunca ninguém nos pediu nada para fazer o que quer que fosse em troca”, Paulo Azevedo (Belmiro não foi nessa) sorriu e mandou avançar as suas tropas.

Em abono da tese de Fernando Ulrich, recorde-se que o procurador português que em tempos investigava o caso “BES Angola” ingressou no Banco Internacional de Crédito (BIC), presidido pelo cavaquista Luís Mira Amaral, uma instituição de capitais luso-angolanos que, mais uma vez, é dominada pela tal impoluta cidadã Isabel dos Santos, que é filha do não menos impoluto cidadão José Eduardo dos Santos.

Paulo Azevedo reeditou a velha teoria de rapidamente e em força para… Angola. Falhou na rota.

É pena. Como muitos angolanos (muitos mesmo) vivem na miséria e raramente sabem o que é uma refeição, estavam à espera de fazer incursões ao Continente, ou melhor, aos caixotes do lixo do Continente, e lá encontrar restos quase novos de comida.

A Sonae assumiu que não é uma empresa filantrópica e, por isso, negoceia com os donos do poder e, no caso de Angola, do país. E, como sempre, é muito mais fácil negociar com dirigentes vitalícios do que com os que resultam de uma vida democrática. Aliás, a família Azevedo gosta muito de viver em democracia. Já se os outros vivem em ditadura, o problema é deles. O que importa é haver gente com muitos dólares. E o regime tem fartura dessa espécie.

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