No Lubango, como temos estado a acompanhar desde ontem, houve por mais de 38 horas uma manifestação dos kupapatas (mototaxistas), devido a uma determinação, considerada discriminatória, do governo provincial da Huíla, liderado pelo governador, João Marcelino Typinge, membro do comité central do MPLA, proibindo-os de trabalhar na cidade.

Por Walter Tchipoya
no Lubango/Huíla

“O s candongueiros (taxistas de Van), são autorizados a operara na cidade e daqui, levar os passageiros, até à entrada dos bairros, cabendo aos kupapatas, levá-los para o seu interior. Ficam desde já, todos os kupapatas, proibidos de exercer a sua actividade na cidade”, lê-se num documento oficial.

Caricatamente, esta medida contraria o discurso do governador, aquando da sua tomada de posse, quando dizia: “ Nós, os Huilanos, temos uma rica tradição de sermos promotores da paz e da reconciliação; somos, por esse facto, um povo acolhedor e trabalhador que, de mãos dadas e com as mangas arregaçadas, se empenha, de uma forma abnegada, na luta pela transformação da nossa província num espaço territorial de referência, não só devido aos progressos, nos domínios económico, social e cultural, mas também devido à nossa capacidade de saber viver e conviver na diferença, o que transforma os Huilanos em construtores da unidade na diversidade”.

Este é o pensamento discursivo, bonito, para inglês ver, mas distante da brutal, feia e cega gestão contra os mais carenciados, precisamente, aqueles que fazem parte da diversidade referida e que fazem parte da sua política.

As marcas de intolerância, incapacidade, discriminação deste governador provincial, estão cunhadas em todos os sectores representativos da Huíla, numa clara demonstração de impotência em conviver na adversidade com os problemas mais candentes das famílias em particular, e das populações em geral.

“Nós cidadãos da Huíla, infelizmente, temos um governador talhado em criar conflitos, com os sectores representativos, como os professores do SINPROF, os enfermeiros, os vendedores ambulantes e, agora, foi a vez dos kupapatas, proibindo-os de exercer a sua actividade no casco urbano da cidade capital”, disse ao “F8 Online”, o catequista Zacarias Tchiwale.

O que esteve na origem da revolta foi a demora na concessão das licenças de condução, “pois dos cerca de 1500 kupapatas existentes, numa cidade onde não existem transportes públicos, até agora a Direcção Provincial da Huíla só licenciou 25, mas mesmo estes têm limitações de circulação”, disse o político Mariano António, para quem, “mesmo havendo razões por parte do Governo, quanto à falta de habilitações de uma grande maioria, medidas radicais que vão do 8 aos 800, sempre despoletam situações imprevisíveis, como as ocorrida no Lubango, agora com os kupapatas”.

O trabalho é uma garantia constitucional, logo, a proliferação de kupapatas, maioritariamente jovens, pudessem ser a demonstração da incapacidade do Governo promover empregos, para este segmento populacional, “mas também a falta de escolas e professores, fazem com que muitos jovens dos municípios cresçam sem possibilidade de ir à escola. E como no campo não existe perspectiva, eles vêm para as grandes cidades à procura de oportunidades, mas encontram as portas barradas, pelo que só lhes resta ser kupapatas”, esclarece o sociólogo Manuel Pedro Joaquim, para aconselhar o “Governo a não tentar acabar com uma realidade, com medidas paliativas e administrativas. O emprego é uma questão social, uma questão de Estado, pois muitos trabalhos, que poderiam ser destes jovens angolanos, como abrir valas e buracos para drenagem e estradas são dados aos chineses”.

A manifestação e os incidentes ocorridos deveram-se, afinal, a situações que um Estado responsável deveria tentar contornar; o trabalho e medidas capazes de impedir que milhares possam ficar no desemprego e outros tantos seus dependentes com fome.

Nos próximos trabalhos traremos a versão do delegado provincial da AMOTRANG (Associação dos Mototaxistas de Angola), Enoque Victor e do Comando Provincial da Polícia Nacional.

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