Eusébio da Silva Ferreira. Pai angolano (Laurindo António da Silva Ferreira, de Malange) e mãe moçambicana (Elisa Anissabeni). Portugal país de adopção. Futebolista de profissão. Símbolo eterno do Sport Lisboa e Benfica e da Selecção portuguesa. Cidadão do mundo. Figura maior da Lusofonia. Património da humanidade. Morreu aos 71 anos.

P ouco mais de um ano após a sua morte os deputados de todos os grupos parlamentares portugueses aprovaram por unanimidade, a 20 de Fevereiro, o projecto de resolução a conceder honras de Panteão Nacional aos restos mortais de Eusébio, o primeiro desportista a merecê-las.

A Assembleia da República salientou então “o símbolo nacional, o homem solidário, o futebolista e o desportista excepcional, evocando o seu estatuto de verdadeiro marco na divulgação e na globalização da imagem e da importância de Portugal no Mundo”.

Hoje, o cortejo fúnebre terá início às 15:15, com a saída da urna do antigo internacional português do cemitério do Lumiar em direcção ao Seminário da Luz, onde vai decorrer uma missa privada.

Estádio da Luz, Campo Grande, praça Marquês de Pombal e alto do Parque Eduardo VII são os pontos seguintes antes de passagens pela sede da Federação Portuguesa de Futebol, Assembleia da República e, finalmente, a chegada ao Panteão Nacional, na Graça, previsivelmente pelas 19:00.

Dulce Pontes vai cantar “A Portuguesa” e o também antigo jogador de Benfica e da selecção portuguesa António Simões fará um elogio fúnebre. A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, e o Presidente da República, Cavaco Silva, também vão discursar, seguindo-se duas canções interpretadas por Rui Veloso.

Cavaco Silva, Assunção Esteves e o primeiro-ministro, Passos Coelho, irão depois assinar o “termo de sepultura”, por volta das 20:00, ouvindo-se novamente o hino nacional, executado pela banda da Guarda Nacional Republicana.

No Panteão Nacional figuram os restos mortais de importantes personalidades do país, entre outros os escritores Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Sophia de Mello Breyner Andresen, os políticos Manuel de Arriaga ou Sidónio Pais, ou a fadista Amália Rodrigues.

Para muitos o melhor futebolista português de sempre, campeão nacional pelo Benfica 11 vezes e vencedor da Taça dos Campeões em 1962, Eusébio da Silva Ferreira morreu na madrugada de 05 de Janeiro de 2014, aos 71 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória.

Também carinhosamente tratado por ‘King’, ganhou em 1965 a Bola de Ouro, que então distinguia o melhor futebolista europeu a jogar na Europa, e conquistou duas vezes a Bota de Ouro (1967/68 e 1972/73), prémio para o melhor marcador dos campeonatos nacionais europeus.

No Mundial de 1966, disputado em Inglaterra, foi um dos mais destacados jogadores da competição e o melhor marcador, contribuindo com nove golos para o terceiro lugar de Portugal.

E enquanto Portugal reivindica, legitimamente, a posse física de alguém que é património da humanidade, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e, sobretudo, Angola e Moçambique permanecem silenciosos quanto à necessidade de um Panteão Lusófono onde, com igual legitimidade, deveria figurar Eusébio da Silva Ferreira, um cidadão que – apesar de ser de todo o mundo – é angolano, moçambicano e português.

A lei portuguesa prevê que as “honras do Panteão destinam-se a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”.

No dia 9 de Julho de 2004, o então presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia (Portugal) defendeu a criação de um Ministério para a Lusofonia, independente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e a “naturalização de todos aqueles que queiram ser portugueses”.

“Espero que o próximo primeiro-ministro tenha a atitude de criar um Ministério para a Lusofonia. Qualquer cidadão que viva em Portugal e fale português é português, pelo que devemos assumir a grandeza da Lusofonia”, afirmou Luís Filipe Menezes.

A afirmação, demagógica e populista segundo muitos, adiantada no tempo segundo outros, foi feita durante a cerimónia de inauguração de um novo complexo habitacional, na freguesia de Serzedo.

E sabem como se chama esse bairro, inaugurado nessa altura? Chama-se Eusébio da Silva Ferreira e contou com a presença do “Pantera Negra”.

Em Portugal ninguém ficou indiferente à morte de Eusébio. Para além da dor sincera do Povo anónimo, esse mesmo que durante décadas viveu enclausurado nos três efes da ditadura (Fado, Fátima e Futebol), todo o mundo, sobretudo do desporto e da política, mostrou o seu pesar. No entanto, a mais visível sintonia foi protagonizada pelos políticos que, num raro consenso, estiveram na primeira linha dos elogios.

Nas principais cerimónias lá estiveram todos. Ocuparam as primeiras filas para serem vistos. O Povo, esse que idolatrava com sublime sinceridade o ídolo que era seu, permaneceu nas últimas filas não para ser visto mas apenas para ver. O Povo do Eusébio era mesmo isso. Anónimo mas sincero. Chorou e aplaudiu aquele que, por todo o mundo, era sinónimo de Portugal, sem nunca renegar as suas origens.

Dos muitos milhares que sofreram com a morte de Eusébio, poucos conhecem a sua história. Mas isso pouco importa. Já vai longe o tempo em que António de Oliveira Salazar decretara que o “Pantera Negra” era invendável. Como vai distante a época em que Eusébio mostrava a razão de ser imortal: amor à camisola e ao Povo.

Povo que em Mafalala, bairro onde nasceu Eusébio, exigiu a construção de uma estátua do Rei. Apesar de ter sido nesse aglomerado pobre que viveram também Samora Machel e Joaquim Chissano, o antigo primeiro-ministro Pascoal Mocumbi, o poeta José Craveirinha, músicos e outros artistas como Wazimbo, o poder político da FRELIMO (partido também financiado por Eusébio) também se esqueceu de honrar um dos seus mais ilustres filhos, hoje merecidamente considerado património da humanidade.

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