Estamos tristes. Não é caso para menos. Isabel dos Santos é a única representante de Angola na lista da Forbes, mas a fortuna pessoal da filha do “nosso” monarca vitalício desceu de 3,7 para 3,3 mil milhões de dólares, levando à saída do “top-500”. Em 2014, ocupava a posição 408. Este ano, desceu para o lugar 534.

A fortuna de Isabel dos Santos advém de, legitimamente segundo o regime do seu pai, ficar com uma fatia d empresas que queiram estabelecer-se em Angola ou de uma assinatura presidencial do pai (nunca nominalmente eleito e no poder desde 1979), referiu a revista norte-americana Forbes.

“Tanto quanto podemos investigar, todos os grandes investimentos angolanos detidos por Isabel dos Santos vêm ou de ficar com uma parte de uma empresa que quer fazer negócios no país ou de um assinatura presidencial que a inclui na acção”, escreveu a revista, considerando que a história da filha do presidente de Angola “é uma janela rara para a mesma e trágica narrativa cleptocrática que estrangula os países ricos em recursos em todo o mundo”.

O artigo de então, assinado pelo nosso colega Rafael Marques e por Kerry A. Dolan, uma das coordenadoras da lista anual dos bilionários, concede que já fora notícia o facto de Isabel dos Santos ser a primeira mulher bilionária em África, mas – importa recordar – “a verdadeira história é como ela adquiriu a riqueza”.

Assegurando ter falado com “dezenas de pessoas no terreno” e consultado documentos públicos e privados, o artigo da Forbes, que tem o título “A menina do papá: como uma princesa africana encaixou 3 mil milhões num país que vive com 2 dólares por dia”, passa em revista a infância e juventude da filha mais velha do presidente José Eduardo dos Santos e concentra-se na sua primeira empresa.

O dono do conhecido restaurante e bar Miami Beach, em Luanda, Rui Barata, resolveu propor sociedade a Isabel dos Santos com o intuito – mais do que oportuno – de afastar os inspectores e fiscais governamentais que assediavam o local.

O resultado? “Dezasseis anos depois o restaurante ainda é um local badalado ao fim-de-semana”, e a lição foi aprendida: é possível comprar a prosperidade, desde que se tenha o apelido certo.

Passado o episódio inicial, a revista dedicou-se a explicar como é que Isabel dos Santos tinha 24,5% da Endiama, a empresa concessionária da exploração mineira no norte do país, criada por decreto presidencial, e daí avançando para a criação da Ascorp, a empresa que resultou da parceria com israelitas para a venda de diamantes, mas que tinha, diz a Forbes citando documentos judiciais britânicos, na sombra, o negociante de armas Arkady Gaydamak, um antigo conselheiro do… presidente angolano durante a guerra civil de 1992 a 2002.

O escrutínio internacional dedicado aos ‘diamantes de sangue’, explicava a revista, aconteceu no mesmo período em que Isabel dos Santos transferia a sua parte do negócio, que a Forbes classifica como “um poço de dinheiro”, para a mãe, uma cidadã britânica, através de uma empresa com sede em Gibraltar.

Além dos diamantes, também a posse de 25% da Unitel, a primeira operadora de telecomunicações privada em Angola, partiu de um decreto presidencial directamente para a filha mais velha. “Um porta-voz de Isabel dos Santos disse que ela contribuiu com capital pela sua parte da Unitel, mas não especificou a quantia; um ano depois, a Portugal Telecom pagou 12,6 milhões de dólares por outra fatia de 25%”, escreveu a revista.

A quota-parte de 25% da Unitel detida por Isabel dos Santos foi avaliada por analistas que seguem a actividade da PT, e que foram ouvidos pela Forbes, em mil milhões de euros.

Para além da parceria com Américo Amorim, que abarcava as áreas financeira, através do banco BIC, e petrolífera, através da Galp e da Sonangol, a revista lembrava o investimento de 500 milhões na portuguesa ZON e explicava também como Isabel dos Santos acabou por ficar à frente da cimenteira angolana Nova Cimangola.

O artigo terminava citando o que foi escrito no estatal Jornal de Angola, quando foi divulgada a lista dos bilionários da Forbes:

“Damos o nosso melhor por uma Angola sem pobreza, mas estamos deliciados pelo facto da empresária Isabel dos Santos se ter tornado uma referência no mundo da finança. Isto é bom para Angola e enche os angolanos de orgulho”, cita a revista, concluindo, na última frase do artigo: “os angolanos deviam estar humilhados, não orgulhosos”.

Partilhe este Artigo