No final do Fórum Empresarial Angola-Portugal, realizado no passado dia 23 de Junho, no Hotel Epic Sana, em Luanda, foi apresentado o primeiro vinho “made in Angola”, o Serras da Xxila, que – como é tradição – é produzido nas “modestas” propriedades de um… general.

C omo se calcula e elogia, durante a guerra que quase nos destruiu por completo, houve tempo para os generais do regime se especializarem noutras áreas que não as bélicas. Assim, o general Higino Carneiro não só se preparou para ser ministro e governador do Cuando Cubango como, no intervalo das batalhas, amealhou o necessário para, neste caso, ser dono do chamado Rancho de Santa Maria e aí, a partir da casta Muzondo Menga Ixi, produzir o Serras da Xxila.

Com a marca ‘Feito em Angola’, este é um vinho de 2013, com uma acidez de 4.19 e com um teor alcoólico de 15%. Fez o seu estágio em barrica de carvalho francês e americano durante um ano e é frutado com notas de framboesa, amoras e especiarias.

Num pequeno texto escrito no rótulo da garrafa, Francisco Higino Lopes Carneiro reconhece ter sido um sonho, para si e para a sua família, a produção de um vinho de qualidade em Angola. “Espero que tenham tanto prazer em bebê-lo como tivemos em produzi-lo”, escreveu o general.

O Povo agradeceu enquanto, reconhecido, continua a saborear – quando consegue – um apetitoso manjar que dá pelo nome de pirão.

Mas, como em qualquer batalha, a luta continua e o general promete para breve lançar um vinho tinto de reserva 2013, em estágio há três anos, produzido a partir das castas europeias Touriga Nacional, Malvechet, Alicante Bouchet, Pinot Noir e Cavenet Bavignon.

Com um investimento que ronda os 16 milhões de dólares desde 2008, outros produtos vinícolas, produzidos no Rancho de Santa Maria, estão já a ser produzidos e serão apresentados ao mercado em breve. Deles fazem parte um vinho branco de 2014, aguardentes e licores que, para já, serão de laranja, limão, café e maracujá. Está prevista também a curto prazo a plantação de oliveiras com o objectivo de produção azeite.

Higino Carneiro, é um dos generais mais ricos, fruto certamente do seu esforço militar, empresarial e político. Foi, com certeza, recompensado pelo esforço e dedicação à causa do regime, mesmo sabendo-se que esta causa nunca levou em consideração a tese do primeiro Presidente da República, Agostinho Neto, que dizia que o importante era resolver os problemas do povo.

Sempre foi visto como um “buldózer” que, certo das suas convicções, levava tudo à frente. Esta qualidade foi bem visível como militar, onde não olhava a meios para atingir os seus fins, mas também como ministro das Obras Públicas, governador provincial e empresário.

Em 26 de Junho de 2008, por exemplo, prometeu enquanto ministro das Obras Públicas, construir ou reconstruir cerca de mil e quinhentas (1.500 isso mesmo) pontes de médio e grande porte, assim como reabilitar mais de 12 mil quilómetros da rede nacional de estradas até 2012.

Fazendo contas verificamos que do dia 26 de Junho de 2008 até ao dia 31 de Dezembro de 2012 vão 1650 dias (contando feriados e fins de semana). Dividindo as 1500 pontes que o ministro anunciou, dá uma média de 0,9 pontes por dia. Se dividirmos os tais 12.000 quilómetros de estradas pelos 1650 dias dá uma média de 7,27 quilómetros ao dia. Portanto é simples, a cada dez dias o MPLA teria de apresentar 9 novas pontes e 72,7 quilómetros de estradas. Simples.

No mundo empresarial teve, ou tem, negócios com parceiros nacionais, portugueses, brasileiros e outros. Dos seus negócios privados fazem ou fizeram parte 12 hotéis dispersos pelo país, grandes fazendas (a Cabuta é uma delas), bancos (Keve e Sol), uma companhia de aviação dispondo de uma frota de 14 aeronaves, Air Services.

A realidade de Angola demonstra que o sucesso nos negócios privados é inseparável, mais uma vez, do poder dos generais.

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