Há uns tempos, em entrevista à Lusa, o padre Raul Tati, antigo vigário-geral de Cabinda, analisou – entre muitas outras coisas – o comportamento do agora arcebispo metropolitano de Luanda relativamente a Cabinda.

Por Orlando Castro

R aul Tati mantém a combatividade que no passado o levou várias vezes para a prisão por defender a independência de Cabinda. Foi para manter viva a memória dessa luta que lançou um livro sobre o papel da Igreja Católica naquele conflito.

Ao longo de 400 páginas, em “Cabinda – Percurso histórico de uma igreja entre Deus e César – de 1975 a 2012”, o padre Raul Tati apresenta pontos de vista, documentos e testemunhos do envolvimento de religiosos e leigos na luta pela autonomia do enclave.

“O pretexto para este livro tem a ver com a história. Todos os povos têm a sua história e a Igreja tem também a sua história que tem que ser escrita, e eu achei que devia, tendo em conta o papel que desempenhei nesta igreja, durante cerca 20 anos, que devia pôr por escrito vários factos que foram acontecendo durante esse período de tempo”, diz Raul Tati.

Raul Tati quis ainda, com o livro, homenagear o primeiro bispo da Diocese de Cabinda, Paulino Madeka, e a geração de sacerdotes subscritores do documento “Não podemos deixar de falar”, publicado a 10 de Fevereiro de 1975, em que pediam aos bispos de Angola e à Santa Sé “especial atenção” a Cabinda.

Questionado se agora ainda faz sentido falar em autonomia para Cabinda, o padre Raul Tati responde que “isso é o mínimo” que se pode reivindicar.

“No mínimo uma administração autónoma em Cabinda. É o mínimo. Sublinho bem este aspecto, porque a vontade de independência está generalizada”, afirmou Raul Tati dando, mais uma vez e como diz o padre Jorge Casimiro Congo, alma à tese de que os cabindas estarão de joelhos perante Deus mas sempre de pé perante os homens.

Quanto à alegada divisão dos cabindas nesta luta, o padre Raul Tati considera-a uma “mistificação”: “É verdade que nós temos também alguns problemas no seio dos cabindas relativamente às várias tendências políticas e até a vários interesses em jogo. Todavia, havendo vontade séria da parte do Governo de Angola, não há qualquer entrave, qualquer obstáculo para se conseguir um entendimento com cabindas. Não há”.

Para Raul Tati, o que está em causa é a “falta de vontade” de Luanda em encontrar soluções, frisando que “entre os documentos que coloquei neste livro tem a ver com a estratégia gizada pelo MPLA para impedir que todas essas iniciativas de diálogo e de entendimento entre os cabindas aconteçam. Nesse caso, eu sempre digo que a questão da união entre os cabindas é um problema que importa desmistificar”.

O problema, alega, “está na vontade política das autoridades de Angola em resolver definitivamente o diferendo de Cabinda”. E quanto à via para o conseguir, Raul Tati afirma-se “pacifista”: “Eu nesse sentido sempre fui claro. Sou um pacifista. Não sou pela via armada para resolver as questões”.

A via armada foi “um instrumento”, porque, salientou, “os cabindas tiveram que se organizar para resistir”, em 1975, ao que classifica como “invasão de tropas do MPLA aliadas aos cubanos”.

“A resistência armada, no contexto da luta de libertação de Cabinda, de alguma maneira teve a sua expressão e marcou a história. Agora é preciso procurar outras vias que nos possam levar ao diálogo frutífero em relação à questão de Cabinda”, conclui o padre Raul Tati.

Periodicamente e forma oficial a Igreja Católica diz que está preocupada com a pacificação de Cabinda, mas não pretende (ou entraria em colisão com o regime do MPLA) assumir um protagonismo na facilitação do diálogo entre os cabindas que querem uma solução definitiva e o Governo angolano.

Aliás, o bispo da diocese de Cabinda desdramatiza igualmente a latente e muitas vezes visível crise reinante na Igreja Católica de Cabinda desde a sua nomeação como bispo diocesano.

Filomeno Viera Dias considera que a Igreja de Cabinda não está dividida, embora – a muito custo, é certo – reconheça a existência de um grupo de fiéis afastados de uma comunhão plena com o bispo e com o Papa e que, por isso, vivem à margem das paróquias e da eucaristia.

De facto, muitos anos após a sua nomeação o ainda bispo de Cabinda, continua a ser rejeitado por um vasto grupo de cristãos. Filomeno Vieira Dias considerou que se trata de um falso problema porque “as decisões do Papa são soberanas”. São as do Papa tal como são as dos donos do regime angolano, ou seja, o MPLA.

Apesar do esforço que supostamente terão sido feitos para a reconciliação dos fiéis, a crise agudizou-se com a expulsão de três grandes figuras do clero de Cabinda. O afastamento dos padres Raul Tati, Jorge Casimiro Congo e Alexandre Pambo mostrou – entre outras coisas – que o rei (da Igreja Católica em Cabinda) vai nu e que está submisso ao regime do MPLA.

Contrariando os seus mais basilares princípios, a Igreja Católica está claramente “vendida” ao regime angolano, sendo conivente nas acções de dominação, de prepotência, de desrespeito pelos direitos humanos. Aliás, a tese da libertação foi há muito – mas sobretudo nos últimos anos – manda às malvas pela hierarquia católica.

Ainda estão bem patentes na memória de alguns as informações de que, em 2011, foi celebrado um acordo entre o MPLA e a Igreja Católica para que esta o apoiasse na campanha eleitoral de 2012.

“Da parte do partido no poder agenciou o acordo Manuel Vicente, na condição de PCA da Sonangol a mando de Eduardo dos Santos, ao passo que da parte da Igreja estiveram alguns bispos do regime, Dom Damião Franklim e a Filomeno Vieira Dias de Cabinda, com orientações do militante cardeal Alexandre do Nascimento, escreveu na altura o Club K.

Que a hierarquia da Igreja Católica de Angola continua a querer agradar a Deus (José Eduardo dos Santos) e ao Diabo (José Eduardo dos Santos), aviltando os seus mais sublimes fundamentos de luta pela verdade e do espírito de missão, que deveria ser o de dar voz a quem a não tem, não é novidade.

Ao que parece, a enorme violação dos direitos humanos em Cabinda, a forma execrável como as autoridades de Angola tratam impolutos cidadãos de Cabinda, pouco interessa à Igreja Católica. Isto porque, de facto, o regime compra a sua cobardia dando-lhe as mordomias que a leva a estar de joelhos perante o MPLA.

Dom Filomeno Vieira Dias sabe que em Cabinda, como em Angola, há cada vez mais gente a ser tratada de forma ignóbil pelo regime do MPLA. No entanto, desde que a Igreja não perca os seus privilégios vai fazendo o jogo dos poucos que têm milhões, estando-se nas tintas para os milhões que têm pouco ou nada.

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