O BE e o deputado socialista Pedro Delgado Alves ficaram hoje sozinhos, no Parlamento português, na condenação da “repressão política em Angola” e no apelo ao fim da detenção de um grupo de jovens opositores do regime. Não admira. A bajulação lusa não permite que seja diferente.

Por Orlando Castro

E ste voto de condenação pela “repressão em Angola” teve a oposição do PSD, PS, CDS, PCP e Partido Ecologista “Os Verdes”, o que motivou reacções de indignação por parte dos deputados bloquistas.

O Bloco de Esquerda pretendeu obter uma condenação pela Assembleia da República da detenção pelo regime angolano de “13 jovens activistas cívicos durante uma reunião em que se discutiam formas de desobediência pacífica face à ditadura de José Eduardo dos Santos”.

“Depois de detidos, a polícia revistou as suas casas sem apresentar qualquer mandato de busca. Apreendeu essencialmente livros e manuscritos como prova de que os jovens estariam envolvidos em actos preparatórios para o cometimento de uma rebelião”, referia o texto do Bloco de Esquerda.

Perante estas alegadas circunstâncias, o Bloco de Esquerda pedia ao Parlamento português para solicitar a “libertação dos jovens abusivamente detidos em Angola”.

“É também um voto na luta pela liberdade e democracia naquele país”, acrescentava o diploma dos bloquistas.

A bajulação portuguesa ao regime de Eduardo dos Santos, um presidente que está no poder desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito, vem de longe e a habituação é tal que os políticos lusos nem sequer precisam de vaselina.

Um exemplo. No dia 8 de Setembro de 2008, o primeiro-ministro das ocidentais praias lusitanas a norte de Marrocos, José Sócrates, afirmou-se “profundamente satisfeito” com a forma “transparente, livre e democrática” como decorreram as eleições legislativas em Angola, e saudou as autoridades de Luanda pela conclusão deste processo em “paz” e “liberdade”.

E , de bajulação em bajulação, lá foi o governo de Portugal combatendo o défice. A ajuda do MPLA (via Sonangol, Isabel dos Santos e similares) foi vital para que os portugueses sobrevivessem e José Sócrates vivesse filosoficamente como um abastado parisiense.

“As eleições são da maior importância para o prestígio internacional de Angola, para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e também para Portugal na sua relação com este país. Por isso, quero felicitar desde logo o povo angolano, já que sei bem o que estas eleições representam enquanto instrumento de institucionalização da vontade popular nas decisões do seu país”, disse na altura o bestial camarada de Eduardo dos Santos, hoje mais um que passou de bestial a besta enclausurada na prisão de Évora.

José Sócrates gozou à grande e à francesa com a chipala dos portugueses e dos angolanos, mormente com a daqueles 68% que passam fome? Ou será que esses não são angolanos? Se calhar é isso. Adiante.

“Estas eleições representam a passagem de Angola para o conjunto dos países democráticos, que resolvem os seus problemas com eleições. Como disseram os observadores europeus, estas eleições foram feitas com transparência, foram um passo no sentido da democracia e da paz e os eleitores votaram com total liberdade”, salientou o então chefe do Governo português.

Sabe-se que todos os políticos portugueses receberam de Luanda um manual do MPLA autografado pelo seu presidente. Sabe-se, por isso, que nenhum deles ouviu ou leu o que disse na altura o também observador da União Europeia, Richard Howitt.

Não ouviu, nem leu, aquela parte em que Richard Howitt disse: “Após uma tortuosa jornada, encontrámos uma situação estranha, onde havia tendas, macas, camas e comida ao desbarato para cerca de 1500 pessoas. Cinco pessoas que entrevistámos apresentaram provas de que tudo tinha sido financiado pelo governo”.

Também não ouviu, nem leu, Richard Howitt dizer: “Vi representantes do partido do poder não só à frente das assembleias, mas junto às mesas onde as pessoas estavam a votar”.

“Estas eleições foram livres, justas, tiveram problemas organizativos naturalmente, mas que serão corrigidos certamente nos próximos actos eleitorais”, corroborou José Sócrates.

José Sócrates não enviou a Angola alguns dos seus principais assessores para aprenderem com o MPLA a fórmula para se ganhar eleições, obviamente democráticas e livres, com mais de 80% dos votos. Lamentável para ele.

Entretanto, para o camarada Eduardo dos Santos a chegada de Passos Coelho revelou-se um verdadeiro achado.

“Quero que o Governo de Angola saiba que temos confiança no povo angolano, que temos confiança em Angola, temos confiança no Governo angolano e no trabalho que tem desenvolvido”, sublinhava assiduamente José Sócrates, só faltando ajoelhar-se e beijar os sapatos de design italiano de Eduardo dos Santos. Só faltava… se é que faltou.

Depois de Sócrates passaram a ser Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva e António Costa a dizer que esse trabalho tem “permitido que Angola tenha hoje um prestígio internacional, que tenha subido na consciência internacional e que seja hoje um dos países mais falados e mais reputados”.

Pouco importou se estes elogios foram feitos horas depois de duas organizações não governamentais apresentaram uma queixa ao Ministério Público de Paris, contra vários chefes de Estado africanos, entre os quais o de Angola, acusados de corrupção e desvios de fundos públicos, dos quais uma boa parte “é reciclada” em França.

Tal como ontem, hoje os deputados portugueses (com excepção dos do Bloco de Esquerda) consideram que “cada vez que Angola progride, evolui e melhora, isso enche de orgulho qualquer português”.

Espera-se agora que José Eduardo dos Santos, ou não fosse o mais lídimo, impoluto e honorável representante de Deus na terra, tenha compaixão destes acéfalos, invertebrados e castrados deputados que desonram não só quem os elegeu e Portugal como os milhões de angolanos que são gerados com fome, nascem com forme e morrem pouco depois com… fome.

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