Especialistas angolanos em arte e arquitectura defendem a preservação dos mais de 70 espaços culturais, na sua maioria cinemas, edifícios do património moderno existentes em Angola, readaptando-os aos novos tempos.

O tema é abordado no livro “Angola Cinemas – Uma ficção da Liberdade”, editada este ano e que coloca em cima da mesa a necessidade da preservação do património arquitectónico angolano, construído no tempo colonial.

Para Miguel Hurst, editor da obra, reabilitar os espaços apenas para cinemas não seria a melhor aposta, mas antes mantendo o traço arquitectónico e transformando-os em espaços multiusos.

Em declarações à agência Lusa, Miguel Hurst, que durante seis anos esteve à frente do Instituto Angolano de Cinema, Audiovisual e Multimédia (IACAM), disse que o livro, uma obra de fotografias, foi lançado em Abril deste ano e retrata as várias épocas de construção de espaços culturais, com o objecto teatro e cinema.

“Temos três épocas, os anos 30, 40 e 50, esta última do modernismo. A lista inicial apontava para 54 salas, mas ultrapassou as 70 e nem todas foram fotografadas por falta de autorização, mas no caminho e nas estradas fomos vendo cinemas que não estavam na lista e achamos este facto curioso, porque há mais do que se pensa”, explicou Miguel Hurst.

Este tema foi igualmente discutido numa mesa redonda, promovida no final de Setembro pelo Centro Cultural português e o alemão Goethe Institut.

Segundo Miguel Hurst, o livro pretende mostrar a qualidade dos espaços culturais feitos na época, e trazer à reflexão a necessidade de preservação, mas também que utilidade dar àquelas “pérolas arquitectónicas”.

Sobre a preservação desses espaços, também o bastonário da Ordem dos Arquitectos de Angola, Vítor Miguel, defendeu a “reinvenção” das salas de cinema, que à época cumpriram o seu papel de socialização, mas que hoje só terão valor se tiverem utilidade.

“Se não dermos utilidade a um edifício com valor patrimonial, reabilitar por reabilitar é um cavalo de corrida que está a enfeitar a nossa sala, não faz sentido nenhum, tem que ter utilidade. Normalmente a reabilitação de um edifício com valor patrimonial é cara e então se ela não tiver função nenhuma não faz sentido”, opinou o bastonário.

Vítor Miguel disse ainda que em termos arquitectónicos, Angola possui exemplares “interessantíssimos de arquitectura moderna, que é estudada em todo o mundo, por isso o valor da sua preservação é dobrado.

“Se tivermos bem preservados esses edifícios, se mantivermos os traços que caracterizou a construção desses edifícios, nós estaremos provavelmente no roteiro das cidades ou dos países que são visitados para quem se interessa pelo estudo da arquitectura moderna. Os exemplares que vemos cá, muitos deles não encontrámos em parte nenhuma”, frisou.

Por sua vez, a arquitecta e docente universitária Ângela Mingas apontou a necessidade de uma reflexão sobre o futuro desses edifícios “de grande escala e que ocupam quarteirões inteiros e que hoje já não se adequam aos novos modelos de cinema e teatro”.

“Estamos a falar de edifícios que têm quase cem anos e que cumpriram o seu papel na época, mas hoje já não é bem assim”, disse Ângela Mingas, que sugeriu também a parceria público-privada para a funcionalidade dessas salas.

“Permitir que o investidor chegue com uma ideia – e pode aparecer alguém do Japão, do Namibe, do Brasil, de Cuba, com uma ideia brilhante – para recuperar o edifício e reintroduzi-lo na sociedade, hoje século XXI”, exemplificou.

Do ponto de vista arquitectónico, a docente universitária defendeu todo o interesse do estudo desses edifícios, do movimento moderno, como são os casos dos cinemas Atlântico e Karl Marx, em Luanda.

“Precisamos de conhecer aquilo que temos no nosso país e da mesma forma como se estudam as palancas também se deve estudar arquitectura”, sublinhou.

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