Há pouco mais de um ano, um pregador sul-africano, inspirado pelas profecias que lhe terão chegado provavelmente montadas em camelos, pediu aos seus paroquianos para comerem o capim que rodeava o templo. Garantiu a todos, legitimado pela ligação directa que mantinha com o além, que a erva iria ajudá-los a aproximarem-se de Deus e a serem curados das suas doenças. Os súbditos gritaram em uníssono: ámen.

Por Orlando Castro

E m Garankuva, localidade perto de Pretória, as ovelhas, carneiros e similares corresponderam de imediato ao apelo divino do pastor Lesega Daniel Christian Center, e vai de comer o capim sem necessidade, por uma questão de purificação santíssima, de qualquer condimento. O que é natural faz melhor, terá comentado o pastor.

“Sim, nós comemos capim, e temos orgulho disso, porque mostra que, com a ajuda de Deus, nós podemos fazer tudo “, contou Rosemary Phetha, uma das caprinas que se deleitou com tão eclesiástico manjar. Embora Deus garanta que não deu essa indicação, o certo é que a fé é que salva. E se um terreno, “escolhido de Deus”, sugeriu tal ementa lá terá as suas razões materiais, para além das espirituais.

E, como sempre acontece nas sociedades em que há uns tantos seres superiores que comandam o rebanho ou a manada, não faltam testemunhos abonatórios quanto às capacidades curativas do capim ou de qualquer outra coisa, como a bosta de boi ou o farelo. O capim é, aliás, uma planta usada na medicina popular que, garantem, tem propriedades febrífugas, sudoríficas, analgésicas, calmantes, anti-depressivas, diuréticas e expectorantes, além de ser bactericida, hepatoprotectora, antiespasmódica, estimulante da circulação periférica, estomacal e da lactação.

Embora noutro contexto, já Mao Tsé-Tung dizia que a bosta de boi é mais útil do que os dogmas porque serve para fazer estrume, tal como o general Kundy Paihama diz que os pobres devem comer farelo porque os porcos também comem e não morrem. Admite-se até que este general, alto quadro do nosso regime, possa agora formar a sua própria religião (ou será seita?) já que não faltam seguidores, ou sejam os milhões de angolanos que passam fome e que entre o capim e o farelo deverão preferir o segundo.

No caso sul-africano, uma estudante de Direito (provavelmente na variante vegetal), disse que sofria de uma dor de garganta há mais de um ano e que ficou curada depois de comer o milagroso capim. Embora por uma questão de marketing o profeta diga que as capacidades milagrosas são exclusivas da erva local, parece haver dúvidas, pois o que mais há por esse mundo é carneirada a comer capim… sem dores de garganta.

Doreen Kgeytl de Garankuvy contou que sofrera um derrame há dois anos: “Eu não podia andar, mas logo depois que comi o capim comecei a ganhar impulso e uma hora depois, era capaz de andar”.

A comunidade científica, tal como a Polícia, está a seguir atentamente a evolução deste fanatismo herbívoro, não porque os cidadãos não tenham o direito de comer o que quiserem (no nosso caso isso até está consagrado na Constituição), mas porque o produto poderá ser uma mais-valia nas exportações dos países produtores. Crê-se, aliás, que a balança comercial dos países pobres pode dar um imenso salto, admitindo-se que o capim passe a ser considerado o petróleo das sociedades mais pobres.

Perante a necessidade quase imediata de os comensais usarem as instalações sanitárias, o pastor explicou que isso faz parte da purificação estomacal das ovelhas, e também dos carneiros, etapa necessária para que se tornem lídimos seguidores do culto do capim.

Por cá, segundo a insuspeita Rádio Vaticano, ficou a saber-se que se está a trabalhar, a par da institucionalização do farelo como património do país, na criação de um catecismo nacional que deverá ter em conta as experiências locais relacionadas com a cultura tradicional dos povos de Angola.

Embora não estejamos habilitados, por falta de experiência, a corroborar os nutrientes do capim ou de qualquer outra bosta que quem manda nos queira impingir, desde há muito tempo que o Folha 8 previne os cidadãos para não irem na cantiga dessas curas prometidas por “Igrejas” falsas, onde os milagres também são falsos, pois a esmagadora maioria dessas seitas e falsas igrejas nada mais são que ninhos de pançudos, vigaristas e “prestipalradores” muito perigosos.

Aliás, enquanto os desgraçados comem capim ou farelo, os pastores contemplam o rebanho comendo do bom e do melhor, sorrindo ao som de bons vinhos e dançando num orgasmo provocado pelas eleitas sacerdotisas do sexo.

Essas “Igrejas” parecem-se com “banha da cobra”, curam tudo e mais alguma coisa, evidentemente contra o pagamento de “um pequeno dízimo”, obviamente sonante e que nada tem a ver com farelo ou capim.

Por cá ainda está bem visível a actividade da IURD, mau grado as acções do MPLA para pôr todas as religiões no mesmo saco, obrigando o justo a pagar pelo pecador. Recorde-se que do galarim das obras emblemáticas da dita Igreja Universal do Reino de Deus, figuram sobretudo acções ditas humanitária desenvolvidas em especial nos países africanos.

Com uma sofisticação diferente, nos antípodas do capim e do farelo, a IURD foi alvo de sistemáticas acusações e o seu líder espiritual, também ele “escolhido de Deus”, Edir Macedo, chegou a ser detido em Maio de 1992, acusado de charlatanismo, estelionato e curandeirismo. Embora tenha sido solto onze dias depois, por falta de provas, continuou a juntar ao seu vasto currículo de vigarices acusações de lavagem de dinheiro.

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