Em Angola, a tendência do pseudo-governo aparentemente tutelado pelo MPLA, partido que detém as rédeas do poder desde o dia da proclamação da independência a 11 de Novembro de 1975, é de construir tudo em grande.

Por António Setas

D epois de obtida a paz pela força das armas em detrimento do partido rival, UNITA, o país desenvolveu-se em todas as áreas de actividade de forma muito acelerada, a pontos de vir a ser considerado um dos que tinha maior crescimento económico no mundo.

Os partidos da oposição não gostaram do aproveitamento político feito sobre um progresso e um tal crescimento, considerado por eles balofo e sem expressão na realidade angolana, face a uma aflitiva impotência governamental na resolução dos mais preocupantes problemas do povo angolense – falta de água, de energia eléctrica, de esgotos, de poder de compra, numa palavras, falta de bem-estar.

O “pseudo-governo” angolano (o poder político em Angola não é propriamente um governo, é um homem que manda só) pagou ao longo de mais de 12 anos de paz, reduzida ao calar das armas, muitos biliões de dólares, repetimos, muitos biliões de dólares no imobiliário de luxo, nomeadamente na construção de raiz de um palácio para o Parlamento de Angola que custou mais de 180 milhões de dólares e na organização de “factos” desportivos monumentais a nível mundial, como a CAN de futebol de 2010, o Afro-basquete, o campeonato do mundo de hóquei em patins, sem contar outras loucuras orçamentais tais como a Centralidade do Kilamba, um projecto urbanístico mal parido destinado a acolher um universo de 500 mil habitantes, mas que, dois anos depois da sua inauguração em Julho de 2012, ainda tem apartamentos que não foram vendidos e outros que depois de terem sido ocupados foram abandonados pelos seus compradores, por causa de “falta de condições, isto é, água e luz, qualidade de acesso, etc….

Enquanto tudo isto ia acontecendo, foi desenvolvido um projecto de reabilitação de aeroportos regionais e internacionais, entre os quais se registaram algumas mais-valias inegáveis e dois “elefantes brancos”, expressão designando os aeroportos sem movimento aeronáutico, como é o caso do de Ndalatando, capital da província do Kwanza-Norte, construído em 2012 e praticamente sem nenhum movimento de aviões a assinalar.

Custou 50 milhões de dólares aos cofres do Estado, sem contar as despesas de manutenção da sua inactividade insana. Agora temos mais um, no Luau.

O “Corredor do Lobito”

Depois de quase quarenta anos de inactividade, o comboio partiu do Lobito e apitou de novo à sua chegada a Luau, depois de mais de 1.300 quilómetros de trajecto através da floresta angolana. O presidente dos Santos estava lá, presente na inauguração não só da linha ferroviária do Caminho-de-Ferro de Benguela, mas sobretudo para anunciar aos angolanos e ao mundo a abertura do “Corredor do Lobito”.

O “Corredor” é constituído por um conjunto de infra-estruturas que inclui o porto marítimo do Lobito (um dos maiores de África), o Caminho-de-Ferro de Benguela, que sai da cidade do Lobito e do seu porto mineraleiro até à vila de Luau, aglomeração situada na linha fronteiriça que separa Angola do Congo, ao que se junta uma via rodoviária de má qualidade e quatro aeroportos, o internacional da Catumbela, nos arredores de Benguela, e três outros, em Saurimo, no Moxico e este último, no Luau.

Este importante empreendimento do pseudo-governo angolano, à parte ser uma via comercial interna no país é também o mais importante eixo de escoamento na África Austral da produção mineira da República Democrática do Congo e da Zâmbia.

É claro que ninguém contesta a pertinência do investimento, salvo em dois aspectos: por um lado, a astronómica factura final, a rondar os 5 mil milhões de dólares (outros dizem 3,5 mil milhões o que remete tais cálculos para uma brincadeira humilhante para o povo de Angola numa altura em que se fazem sentir múltiplas carências no seio das populações de média e baixa renda, por outro, o facto de se ter gasto algumas dezenas de milhões de dólares na construção de um aeroporto destinado a ser internacional quando um simples aeródromo dava conta do recado.

Dá que pensar.

Entrementes, enquanto se multiplicam os comentários jocosos ou indignados sobre um tão grande esbanjamento de dinheiro, esse aeroporto de Luau já tem a sua etiqueta de “Elefante Branco”, juntando-se assim ao de Ndalatandu.

Mas os argumentos dos “cientistas” do regime têm o seu quê de pertinência, pecando apenas por serem altamente arriscados e cheios daquele optimismo que a vaidade e o orgulho engendram: «Geoestratégia, visão/clarividência, antecipação…estes conceitos não fazem parte do vosso vocabulário?… Ponto de convergência, escala, abundância de recursos naturais que por ali há, vocês sabem quanta riqueza podem trazer a Angola?»…

E a oposição diz: «Visão que nada, vão-se gastar somas avultadas na manutenção duma infra-estrutura que só terá utilidade daqui a uns vinte anos. E o pior é que quando precisarmos realmente dela, já estará degradada. Estamos a inverter as prioridades».

Isto é Angola e em Angola governar é engrandecer-se, agigantar a pequenez, mostrar a fachada e esconder a capoeira…

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