O processo de bajulação ao regime do “querido líder”, Eduardo dos Santos, continua a alta velocidade. O MPLA está para a TPA (Televisão Pública de Angola) como a mandioca está para os angolanos de segunda, essa subespécie humana que habita as terras dos senhores feudais.

Por Orlando Castro

Não há membro da TPA, comentador do regime, convidado do MPLA, que se preze que não inclua o beija-mão, servil e sabujo, no seu estratégico roteiro de sobrevivência. Não poderia ser de outra forma. A TPA (tal como o Jornal de Angola, por exemplo) podia (se é que podia) viver sem o MPLA, mas não era a mesma coisa.

A TPA, que certamente ainda não reparou que o presidente de Angola está no poder há 36 anos sem nunca ter sido nominalmente eleito, continua a ser aquilo para que foi criada. Trabalhar para os poucos que têm milhões, esquecendo os milhões que têm pouco ou nada.

Todo aquele político, ou simples sipaio, que almeje pertencer à casta superior do regime, não pode passar sem uma prova pública, na TPA, de fidelidade canina ao “escolhido de Deus”. Isso mesmo nos provaram João Pinto, António Luvualo de Carvalho, Adelino de Almeida, Norberto Garcia, Luís Neto Kiambata e Alexandre Cose.

A não bajulação pública é, aliás, uma grave lacuna no curriculum de qualquer sipaio que vê, como o regime, na Coreia do Norte um exemplo de democracia de elevado nível de pureza. E, além disso, eles entendem que bajular é sinónimo de democracia. Portanto…

Todos eles, com a perspicácia típica e uniforme de quem para contar até 12 tem de se descalçar, mostram que se não fosse o MPLA Angola ainda estaria no Século XIX, e África não constaria do mapa. E contra estes “factos” não há argumentos.

Alegam este autómatos que o relatório aprovado pelo Parlamento Europeu (550 votos a favor, 14 contra e 60 abstenções) revela “pouca honestidade” da eurodeputada portuguesa Ana Gomes (o complexo de inferioridade até os levou a dizer que nem sabiam o nome da eurodeputada).

A mando de Eduardo dos Santos, os sipaios de serviço na TPA, reagiram raivosamente contra o relatório, acusando de conivência os únicos representantes (eram seis contra dois) da Oposição, Adalberto da Costa Júnior (UNITA) e Leonel Gomes (CASA-CE). Estiveram bem. Desempenharam a contento o papel para o qual foram contratados.

Todos esses especialistas de elevado potencial, distintos discípulos de Eduardo dos Santos e de Kundi Paihama, mostraram que os eurodeputados que por acaso, só por acaso, até foram eleitos, ainda têm muito a aprender com os democratas do MPLA, de modo a não fazerem um conjunto de afirmações gratuitas e não confirmadas.

Ficou evidente que a eurodeputada socialista (da mesma família política do MPLA) fez um conjunto de declarações, muitas delas gratuitas, de que é exemplo a insistência nas centenas de mortos nos incidentes com a seita Kalupeteca no Monte Sumi. Como se sabe, citando a irmã siamesa da TPA, a portuguesa TVI, nem sequer terá havido mortos entre os seguidores de Kalupeteca.

Ao admitir que o relatório aponta situações e críticas ao Governo de Angola, algumas que são de ter em conta e “em relação a elas o Governo tem estado já a trabalhar”, o ministro Bornito de Sousa mostrou que está a necessitar de umas aulas de reeducação patriótica. Ao contrário, é claro, de João Pinto, António Luvualo de Carvalho, Adelino de Almeida, Norberto Garcia, Luís Neto Kiambata e Alexandre Cose.

O titular da pasta da Administração do Território de Angola disse, entretanto, que o Governo angolano conhece o carácter da eurodeputada Ana Gomes, que respeitam, mas em alguns casos tem criado dificuldades.

“Nós sabemos que a senhora deputada Ana Gomes insistiu durante muito tempo quando era primeiro-ministro, o seu secretário-geral também, o José Sócrates, com os supostos voos da CIA numa das bases dos Açores [Portugal], isso não ficou provado”, citou Bornito de Sousa, exemplificando uma das dificuldades.

“A senhora deputada Ana Gomes uma vez foi uma das observadoras em eleições da Etiópia, e por ter feito uma declaração antes mesmo da produção dos resultados eleitorais provocou um incidente gravíssimo que desestabilizou gravemente a situação naquele país”, acrescentou.

O ministro esqueceu-se, como é conveniente, do que Ana Gomes também disse sobre as eleições em Angola. Nem tudo lembra, não é senhor ministro? Esqueceu-se ele como se esqueceram João Pinto, António Luvualo de Carvalho, Adelino de Almeida, Norberto Garcia, Luís Neto Kiambata e Alexandre Cose.

Mas nós lembramos. Ana Gomes, que integrou a missão da União europeia, disse que eram “legítimas as dúvidas que foram levantadas por partidos políticos e organizações da sociedade civil sobre a votação em Luanda”, ou que “posso apenas dizer que a desorganização foi bem organizada”.

Mas Ana Gomes foi mais longe: “À última da hora, foram credenciados 500 observadores por organizações que se sabe serem muito próximas do MPLA e parece que alguém não quis que as eleições fossem observadas por pessoas independentes”.

Ou, “as eleições em Luanda decorreram sem a presença de cadernos eleitorais nas assembleias de voto e isso não pode ser apenas desorganização…”

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