Oiça aqui a entrevista a Fernando Kalupeteka.

O Folha 8 calcorreou quilómetros nas matas do Sumi, Longonjo, Cáala, Mbave e outras na província do Huambo para encontrar uma testemunha do maior genocídio do século XXI, praticado pelo regime. Alguém que tivesse visto, presenciado, vivido a matança em série, praticado pela Polícia Nacional e Forças Armadas, a mando de Kundi Pahiama e José Eduardo dos Santos; Titular do Poder Executivo.

Por William Tonet, Theo Cassule e Orlando Castro

O s sobreviventes do massacre (mis de 700 mortos, sobretudo mulheres e crianças) contra os seguidores de Kalupeteka vivem como ratos, fogem até da própria sombra, tendo a água como a principal alimentação, desde o dia 16 de Abril, uma vez não poderem nem acender fogo. “Senão a tropa e as milícias nos localizam e matam. É dura e triste a nossa situação”, denuncia, pela primeira vez, a um órgão de comunicação social, Fernando, o filho do pastor Kalupeteka.

De acordo com o testemunho, mais um recolhido pelo F8, o massacre, o genocídio, a limpeza étnico-religiosa, encetada pelos agentes do regime, sob a ordem directa de Kundi Paihama e José Eduardo dos Santos, Titular do poder Executivo que concentra toda responsabilidade criminal, de acordo com a Constituição, a razão de ser é bem mais profunda do que a apresentada oficialmente e pouco terá a ver, de facto, com a seita “Luz do Mundo”.

Kundi Paihama deslocou-se várias vezes ao Monte Sumi para falar com Kalupeteka. “Ele disse ao meu pai que tinha de deixar de pregar”, conta Fernando, garantindo que as pregações acabaram.

Depois, relata o filho de Kalupeteka, “começaram a chegar notícias de vários locais de que pessoas que acreditavam no que o meu pai dizia sobre os ensinamentos de Cristo estavam a ser presas”.

O que poderiam fazer essas pessoas que acreditavam na mensagem de Cristo, na circunstância transmitia pela voz deste pastor?

“Vamos então para o Sumi onde está o nosso irmão Kalupeteka”, decidiram as pessoas, conta Fernando, acrescentando que “o meu pai não podia deixar as pessoas nas mãos de quem as estava a prender e recebeu todos os que vinham até nós. Eram homens, mulheres e crianças”.

Foi pelo medo que, perante as prisões arbitrárias, centenas de pessoas procuraram a paz junto do pastor Kalupeteka.

“A polícia veio e começou a falar com o meu Pai e tudo ficou calmo. Dias depois mandaram uma notificação para o meu pai comparecer na Caála. O meu pai disse que não ia, até porque já fora preso várias vezes. Sete vezes”, conta Fernando, dizendo que a única acusação que era feita a Kalupeteka era a de “falar a verdade que vem na Bíblia e que não agradava ao governo e sobretudo a Kundi Paihama”.

E nesta senda existe outro cúmplice e responsável pela prisão do seu pai: “os responsáveis da Igreja do Sétimo Dia, por inveja entregaram o meu pai, ao governo e depois, vergonhosamente, na companhia de outras igrejas, realizaram um dia de Acção de Graça, quando mesmo que não nos reconheçam cristãos, tinham de se inteirar do que se passou, ouvir a nossa opinião, se na verdade são homens de Cristo, nessa qualidade, deveriam orar pelos que morreram. Foram muitos cidadãos angolanos inocentes, assassinados mas essas igrejas exaltaram, aqueles que lhes mataram”, lamenta.

“KUNDI PAHIAMA É O GRANDE RESPONSÁVEL QUE NOS MANDOU MATAR”

Os dados mais fiáveis, que contrariam as mentiras, o cinismo e a maldade do regime, até ao momento, confirmando o genocídio contra uma seita religiosa, estão agora aqui retratados, numa voz autorizada.

“Ali no Sumi, mesmo no local, morrerem pelo menos 700 pessoas, Mas no total morreram muitas mais. Muitas pessoas ficaram feridas e fugiram para a mata na tentativa de escapar e acabaram por morrer nas redondezas”, relata Fernando.

Visivelmente exausto e desiludido pelo que fizeram às pessoas, Fernando conta que, “ao outro dia a Polícia veio e começou a fazer patrulhas e a limpar toda a região. Procuraram as pessoas em todos os sítios. Conforme as encontravam, escondidas e a morrer de medo, iam matando todas”.

Fernando, embora tema que vá morrer a qualquer momento – seja pelas dificuldades próprias de quem se esconde na mata, mudando a todo a hora de local – garante que não vai entregar-se às autoridades.

“Não me vou entregar porque o final vai ser o mesmo. Eles vão acabar por me matar. E se tenho de morrer, morro mesmo aqui na mata. Se me entregar, Kundi Paihama, vai mandar-me torturar, sofrer na cadeia como o meu pai e acabo por morrer na mesma”, diz Fernando, desanimado e visivelmente revoltado contra tanta injustiça de um regime que se tornou num dos mais assassinos do mundo.

Vive cada minuto sem saber se acordará, no dia seguinte, face à impiedosa perseguição e, se também, os dois irmãos mais novos conseguirão resistir; “não podemos andar os três, cada um se esconde no seu sítio, para não sermos apanhados, pois a tropa e a polícia continuam a nos matar até agora, por isso ninguém consegue se entregar”, denuncia com as lágrimas escorrendo pela face.

“Nunca imaginei que o José Eduardo e o MPLA fossem assim. Eles sempre aproveitaram o meu pai, que foi das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola – do MPLA), mas por ele não querer mais misturar a política com a palavra de Deus, estamos agora a sofrer e a ser mortos como bichos. Kundi Paiahma é o grande responsável que nos mandou matar e continua a fazer, para que ninguém saiba a verdade, mas Deus está a ver tudo, lá de cima, diz Fernando.

Fernando não acredita que o pai esteja vivo. Convencemo-lo que tudo aponta que esteja, mas cabisbaixo, balbucia: “não sei! Talvez, Deus é que sabe!”

E quando reganha o fôlego garante que o pai não cometeu qualquer crime: “Ele foi preso e torturado, e os seus seguidores mortos, apenas porque falava de Cristo e da sua mensagem. Kalupeteka apenas ensinava as pessoas a seguirem o caminho de Cristo. Afinal qual é o crime que cometemos? Sim, que crime cometemos? O que é que nós estragamos?”

Sobre as propaladas teses de que Kalupetka aconselhava os pais a não levarem as crianças à escola e a não deixarem as crianças ser vacinadas, Fernando diz que “é tudo mentira”.

E acrescenta: “Eu próprio tenho vontade de estudar. Os outros, crianças e jovens também têm essa vontade. Mas como é que nós podemos estudar? Nós não temos condições. Não temos dinheiro. O Governo não nos ajuda. Como é que podemos ir à escola? Só estuda quem tem dinheiro”.

Quanto às vacinas, Fernando garante que “é tudo mentira do governo. Cada um trata os filhos, as crianças, como entende. Kalupeteka defende a saúde das crianças. O problema está em que o governo é que não está interessado em ajudar quem precisa. Não nos ajuda e depois vem culpar-nos”.

Pahiama o carrasco

Fernando garante que os sobreviventes não têm outra solução a não ser fugir, vaguear na mata e tentar sobreviver. Conta, aliás, que “há muitos jovens que, por ordem dos sobas e a mando de Kundi Paihama, nos estão a perseguir e têm ordens para matar quem encontrem na mata. Deram-nos três dias para nos entregarmos. Não o fizemos e a ordem deles é para matar”.

Para o filho de Kalupeteka, o principal responsável pelo genocídio do Sumi é Kundi Paihama. “De certa forma Kundi Paihama preparou tudo para que as pessoas fossem para o Sumi, mostrando até que falava com amizade com o meu pai. Depois, mandou os soldados e polícias matar toda a gente”.

O relato do filho mais velho de José Julino Kalupeteka é aterrador, colocando o regime angolano no patamar dos regimes mais sanguinários do mundo. Ouvir os dirigentes e o Titular do Poder Executivo, José Eduardo dos Santos, falar de democracia, respeito pelos direitos humanos deveria constituir um crime, por desonra a moral e aos bons costumes dos povos autóctones.

Isso seria bastante, para levar os dirigentes do MPLA à contenção verbal, mesmo até quando apontam as queimadas de Jonas Savimbi, na Jamba, pois dos três partidos guerrilheiros da luta de libertação nacional, ninguém matou e continua a fazê-lo, mais que o partido no poder e o seu líder.

Daí que Fernando gostava que o governo, explicasse a razão pela qual 700 pessoas foram barbaramente assassinadas no Sumi. E pergunta: “Será que falar de Cristo é proibido?” Proibido, diz, é ensinar a fumar liamba ou roubar. Ensinar a palavra de Cristo não é proibido”.

O filho de Kalupeteka garante que ninguém tinha armas. “Armas para quê?”, pergunta, explicando que “o que é do profeta é do profeta, o que é do rei é do rei”. Ou seja, “os homens do rei têm armas, os do profeta apenas a palavra de Cristo. Eles é que levaram armas, para derrubar a fé de Cristo. Fico triste porque vamos acabar de morrer, nas matas e ninguém nos vai mesmo ajudar, a tal comunidade internacional dizem que o governo do MPLA e o presidente José Eduardo lhes corrompe com petróleo e então não falam, nem mesmo os Estados Unidos”, lamenta.

Sobre a morte dos polícias, Fernando explica que foram vítimas do fogo cruzado entre polícias e militares, pois no meio de tanta confusão todos disparavam contra tudo.

Conta que, perante um massacre indiscriminado, “ao vermos as mulheres e as crianças a serem mortos, nós nos defendemos com o que foi possível; pau, pedras, mas sem armas”.

Questionado como poderia garantir, não terem armas, foi peremptório: “eu estava lá. Eu estava no Sumi. Vi a tropa a massacrar mulheres e homens. Matar crianças. As principais vítimas foram as mulheres porque não conseguiam, ao contrário dos homens e dos jovens, fugir. Tinham os filhos consigo, não podiam fugir”, conta Fernando.

O filho de Kalupeteka conta que as “mulheres, porque não conseguiam fugir, decidiram juntar-se todas num sítio, juntamente com os filhos, e sentaram-se a cantar para ver se os soldados tinham pena. Mas eles não fizeram isso. Quando as encontraram a cantar e a rezar começaram a matar”, acusa.

Fernando relata nunca ter visto nada igual. Foi bárbaro. Foi de assassinos desalmados, conta pois, “muitas mulheres grávidas, os militares e polícias com os sabres das armas abriam-lhes a barriga, matando os fetos e as mães gritando que não poderiam nascer mais Kalupetekas”.

“A nossa esperança é que Deus nos ajude. Se vou morrer aqui na mata? Deus é que sabe. A minha família está na cadeia. Para mim vale a pena ter de morrer, morrer aqui na mata”, diz Fernando, acrescentando que ainda “há muitos homens que fugiram para a mata e por aqui anda, têm medo”.

Este obreiro diz estarem a morrer de fome, muitos dos que estão na mata, por não aguentarem, mas preferirem morrer com a fé, do que se entregarem. “Eles não parecem pessoas humanas. São muito maus”!

Como e até quando vão resistir nessas condições, não sabe. “Estamos nas mãos de Deus”! É a única esperança, o único alimento, mesmo estando a minguar a cada dia que passa.

“Não podemos caçar, não podemos pegar a batata ou o milho, porque as lavras, eles cercaram com tropa e polícia e outras minaram, mesmo, como no tempo da guerra. Só nos resta comer ervas cruas e beber água, que nos vai aguentando, mas a fraqueza está a nos consumir”.

Muitos não têm conseguido resistir e vão ficando pelo caminho, sendo enterrados de qualquer forma, pois vai faltando a força dos que “localizam os outros irmãos, por termos de cavar os buracos com as mãos e paus”, assegurou Fernando.

“Posso garantir, terem sido mortos, para além dos 700 fiéis inocentes, mais 15 obreiros e até ao fim, não sei quantos vamos resistir, na graça de Deus, por isso peço ao senhor jornalista que nos ajude, também, a denunciar a nossa situação, porque afinal o país é de todos nós e não só de José Eduardo e Kundi Pahiama.

Outra questão muito badalada é a acusação de Kalupeteka permitir uma espécie de orgia sexual, semanalmente, em que as mulheres poderiam envolver-se com qualquer homem.

Fernando Kalupeteka quase vomitava. “Isso é mentira! Nós condenamos um homem ter mais de uma mulher na igreja e nem aceitamos a separação, senão pela morte, sob pena de saírem da igreja. Como iríamos aceitar que um homem se envolve-se com uma mulher de outro, na igreja?, indaga

E para rebater as teses dos detratores, questionou. “Se fizéssemos isso como teríamos crescido tanto, sendo as mulheres a maioria dos crentes da nossa congregação? Nós somos cristãos e não permitimos práticas do demónio, por isso é que promovemos a união das famílias”, explicou, desafiando a alguém provar o contrário.

 

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