A Sonae vai internacionalizar a insígnia Continente para os Emirados Árabes Unidos, em regime de franquia com um grupo local, e admite abrir o primeiro hipermercado até final de 2016. Quanto a Angola, “continuamos à espera de uma clarificação da posição do nosso parceiro”.

A Sonae estabeleceu uma parceria com o grupo Fathima, dos Emirados Árabes Unidos, “muito forte e já com presença na distribuição, na logística e na restauração no Médio Oriente”, assumindo-se os Emirados Árabes Unidos como a base para uma futura expansão da marca para o Médio Oriente, revelou uma fonte da Sonae.

“A internacionalização do retalho alimentar é sempre mais difícil e depende de região para região. Ele é especialmente difícil no Médio Oriente, onde tem que ser com um parceiro local que vai fazer o investimento, mas chegámos a acordo com o grupo Fathima para uma expansão que terá como base os Emirados Árabes Unidos, mas que será para toda aquela região”, revelou.

Conforme adiantou a mesma fonte, esta primeira internacionalização da marca Continente será concretizada em regime de franquia, cabendo à Sonae “exportar serviços a nível da concepção da loja e desenho da gama”, o que implica levar consigo alguns dos seus fornecedores de equipamento e de soluções tecnológicas em Portugal.

Por outro lado, os produtos de marca própria Continente serão comercializados nos hipermercados da insígnia no Médio Oriente, o que “irá ser importante” para as vendas futuras do grupo.

“Claro que o impacto sobre as vendas será muito reduzido nos próximos anos, iremos começar com uma ou duas lojas, mas é o simbolismo de começar [a internacionalização]”, afirmou.

Revelando que a intenção é abrir primeiro um grupo reduzido (um par) de lojas piloto e, em função da ‘performance’ inicial dessas lojas, avaliar a extensão do conceito aquela região”, a fonte admitiu que “ainda será possível abrir uma loja antes do final do próximo ano”.

“O Médio Oriente é um mercado muito interessante, com bastante potencial e onde achamos que o nosso formato tem muita capacidade para competir”, considerou, recordando que o grupo Sonae está já presente na região com a insígnia de moda infantil Zippy.

Relativamente à sucessivamente adiada internacionalização do Continente para Angola, prevista desde 2013 para acontecer em parceria com a empresária angolana Isabel dos Santos, a fonte disse que o processo está “exactamente como estava”: “Continuamos à espera de uma clarificação da posição do nosso parceiro”, afirmou.

Em causa está o alegado mau estar criado desde inícios do ano na parceria para a construção de uma rede de hipermercados Continente em Angola, na sequência da saída de dois quadros de topo da empresa portuguesa para alegadamente trabalharem num grupo de retalho angolano daquela empresária.

Um continente de dúvidas e traições

A possibilidade, que em grande parte era uma realidade, da entrada dos hipermercados Continente em Angola parece ter a certidão de óbito assinada. A Sonae e a Condis vão divorciar-se. Só falta mesmo oficializar o desenlace.

A equipa de Paulo Azevedo (Sonae) diz que que rainha santa Isabel (dos Santos) – dona do país em parceria com o seu pai e restante clã – a apunhalou pelas costas ao contratar dois quadros de topo da área de retalho da Sonae e que trabalhavam nesta parceria, Miguel Osório e João Seara.

A dona da Condis parece pouco preocupada. É para o lado que dorme melhor. Com os milhões que tem, a que junta os milhões que precisar, Isabel dos Santos não dá ponto sem nó.

Chegou a falar-se que o Continente estaria de portas abertas no nosso país no Verão de 2015. A Sonae apostou forte. Constituiu uma equipa para acompanhar a abertura dos hipermercados mas, é claro, primeiro foi necessário engolir uns tantos sapos, o que fez esgotar os stocks de “alka seltzer” das próprias lojas. Depois seguiram-se doses industriais de hóstias para tirar o pecado de negociar com um dos regimes mais corruptos do mundo.

O projecto que marcaria a entrada do maior empregador privado português no território angolano seria fruto de uma parceria estabelecida entre o grupo e, como não poderia deixar de ser e corresponde à Lei da Probidade do nosso país, a empresária e não se sabe quantas vezes milionária Isabel dos Santos que, para quem não saiba, é filha do presidente José Eduardo dos Santos.

Para a eventualidade de algum leitor só agora ter chegado a este mundo, recorde-se que José Eduardo dos Santos é, para além de chefe do Governo, o presidente de Angola desde 1979, sem nunca ter sido nominalmente eleito, bem como do MPLA (partido que está no poder desde a independência).

Hipermercados, supermercados, lojas de conveniência, lojas de proximidade, restauração, para-farmácias, livrarias, vestuário, desporto, electrónica, centros comerciais, administração de imóveis, investimentos financeiros, telecomunicações, software e sistemas de informação e media são as áreas do império fundado por Belmiro de Azevedo, a Sonae.

Mas como tudo na vida, Belmiro de Azevedo é muito diferente do seu sucessor dinástico, o filho Paulo Azevedo. O pai, que nem ao domingo descansava, dizia a mesma coisa em qualquer dia de semana. Hoje a estratégia é diferente. O filho diz às segundas, quartas e sextas uma coisa, às terças quintas e sábados outra coisa. E ao domingo vai à missa.

O acordo com a Condis – detida maioritariamente, como também não poderia deixar de ser e sempre respeitando espírito e a letra da tal Lei da probidade, por Isabel dos Santos – aconteceu ainda em 2011, sendo que o projecto previa a abertura de uma rede de hipermercados Continente nosso país.

João Seara era o homem forte do grupo para este projecto, sendo que deveria ocupar o cargo de director executivo. A empresa nunca adiantou grandes pormenores, dizendo apenas que “não estava definida nenhuma data em concreto, mas tanto a Sonae como a Condis estão a envidar todos os esforços para proceder à abertura da primeira unidade o mais breve possível”.

Neste típico ziguezaguear chegou-se a uma previsão que parecia ter fundamento: Verão de 2015. No terceiro trimestre do ano passado já se falava de equipas mandatadas para começar a definir as gamas de produtos que seriam enviados para Luanda e que se juntariam a outros aqui produzidos. A própria Condis tinha em marcha a construção de uma infra-estrutura que acolherá as instalações do hipermercado.

A entrada da Sonae em Angola sofreu alguns contratempos, explicando-se assim a relutância do grupo português em avançar com uma data concreta. A internacionalização da empresa para o nosso país está em gestação desde 2012, ano em que a Sonae e a ANIP assinaram um contrato de investimento no valor de 100 milhões de dólares, com vista à abertura de cinco hipermercados.

Todos os atrasos poderão ter a ver com o facto de, durante algum tempo, a Sonae ter tido dificuldades em engolir as regras da corrupção angolana. Daí as coisas não terem corrido tão bem como o inicialmente previsto, isto porque Paulo Azevedo anunciara a 17 de Março de 2011 que a entrada da empresa no mercado angolano poderia acontecer já nesse ano.

Fernando Ulrich, presidente do BPI, banco presente em Angola desde 1996, poderá ter tido um papel importante ao garantir a pés juntos que em Angola não há corrupção. Ao ouvi-lo dizer que “o BPI nunca pagou nada a ninguém para obter nada em troca como nem nunca ninguém nos pediu nada para fazer o que quer que fosse em troca”, Paulo Azevedo (Belmiro não foi nessa) sorriu e mandou avançar as suas tropas.

Em abono da tese de Fernando Ulrich, recorde-se que o procurador português que em tempos investigava o caso “BES Angola” ingressou no Banco Internacional de Crédito (BIC), presidido pelo cavaquista Luís Mira Amaral, uma instituição de capitais luso-angolanos que, mais uma vez, é dominada pela tal impoluta cidadã Isabel dos Santos, que é filha do não menos impoluto cidadão José Eduardo dos Santos.

Paulo Azevedo reeditou a velha teoria de rapidamente e em força para… Angola. Falhou na rota.

É pena. Como muitos angolanos (muitos mesmo) vivem na miséria e raramente sabem o que é uma refeição, estavam à espera de fazer incursões ao Continente, ou melhor, aos caixotes do lixo do Continente, e lá encontrar restos quase novos de comida.

A Sonae assumiu que não é uma empresa filantrópica e, por isso, negoceia com os donos do poder e, no caso de Angola, do país. E, como sempre, é muito mais fácil negociar com dirigentes vitalícios do que com os que resultam de uma vida democrática. Aliás, a família Azevedo gosta muito de viver em democracia. Já se os outros vivem em ditadura, o problema é deles. O que importa é haver gente com muitos dólares. E o regime tem fartura dessa espécie.

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