O chamado Estado Islâmico continua a executar, com ou sem vídeos, quem os chateia ou, também, quem é útil à sua propaganda. Ao que tudo indica, alguns dos integrantes deste grupo terrorista, pela sua metodologia de “trabalho”, bem poderiam ter “estagiado” em Angola. Seguem a originária metodologia do regime que, embora sem alarde, também “decapita” todos aqueles que pensam de forma diferente. São disso exemplos, entre outros, Alves Kamulingue e Isaías Cassule.

Os jihadistas justificam as decapitações como retaliação aos ataques dos EUA. A comunidade internacional uniu-se para condenar a acção terrorista. E fez bem. Mas onde está essa mesma comunidade quando são os Estados, os governos, a ter comportamentos similares – não à luz do dia mas na escuridão das esquinas da ditadura – contra os seus cidadãos?

Os EUA, por exemplo, sabem que estes e outros jihadistas estiveram em África a receber formação e treino. Alegadamente as autoridades locais terão pensado que estavam a aprimorar o espírito assassino do leão, apenas, claro, para que este se exibisse nos palcos circenses. O resultado está à vista. Mas tudo continua na santa paz dos poderosos que de um lado colocam os bons, os bestiais, e do outro os maus, as bestas.

O Iraque, ou que resta dele, está em guerra e a única lei que por lá se conhece é a da selva onde, como sempre, vigora a razão da força. Isso justifica esta e outras barbáries, cometidas por todas as partes envolvidas? Não. Claro que não! Nunca.

Não justifica mas compreende-se. É tempo de guerra e a estratégia é a do vale tudo. Cada um luta com as armas que têm. Os jihadistas raptam e servem-se das vítimas para fazer chantagem, para amedrontar, para espalhar a anarquia.

Não podemos, contudo, esquecer que também existem Estados, governos, que raptam cidadãos indefesos, por regra apenas revoltados verbalmente contra as injustiças que vivem, e os executam sumariamente. Ao contrário dos jihadista, não fazem alarde disso porque, nesses casos, o silêncio é o segredo para fazer desaparecer, sem deixar rasto, opositores políticos ou sociais.

Ao contrário de James Foley, o primeiro a ser assassinado, Alves Kamulingue e Isaías Cassule, entre ouros, trabalhavam apenas para subsistir no seu país, no país que amavam, e foram assassinados. Não teriam certamente um uniforme cor-de-laranja e não terão sido degolados. Uns quantos tiros foram suficientes.

“Peço aos meus amigos, família e entes queridos que se insurjam contra o meu verdadeiro assassino – o governo dos EUA – porque aquilo que me vai acontecer é apenas o resultado da sua criminalidade complacente”, disse James Foley, terminando com a frase em que diz “não ser cidadão americano”.

Nós não conhecemos as últimas palavras de Alves Kamulingue e Isaías Cassule, mas admitimos que – se isso pudesse significar uma réstia de esperança – poderiam muito bem ter dito: “amamos o nosso regime, o nosso querido líder, o arquitecto da paz, o escolhido de Deus”.

No vídeo, o combatente do grupo radical islâmico – cidadão britânico – dirige-se directamente a José Eduardo dos Santos, perdão, a Barack Obama para afirmar que o ISIS vai responder “com todos os meios” aos ataques da força aérea norte-americana. A declaração é peremptória: “vamos afogar-vos no vosso próprio sangue”.

“Vocês não estão mais a combater um grupo insurgente, nós somos um exército islâmico e um Estado que tem sido aceite por um elevado número de muçulmanos em todo o mundo, por isso qualquer agressão contra o Estado Islâmico é uma agressão contra os muçulmanos que aceitaram o Califado Islâmico. Por isso qualquer tentativa de Obama negar os direitos dos muçulmanos de viverem em segurança debaixo da liderança do Califado irá resultar num derramamento de sangue do vosso povo”, disse o jihadista.

No dia 27 de Maio de 2012, Alves Kamulingue foi raptado por elementos dos Serviços de Informação e Segurança de Angola. Dois dias depois, a 29 de Maio, desapareceu Isaías Cassule.

Só um ano e meio depois, em Novembro de 2013, surgiram à revelia das forças de segurança, novas informações sobre o destino dos dois desaparecidos. Cassule fora espancado até à morte e atirado a um rio, enquanto Kamulingue foi morto a tiro e abandonado numa mata.

O processo de Alves Kamulingue e de Isaías Cassule andou muito tempo fechado e sem que as autoridades se pronunciassem, o que correspondia à estratégia do executor moral. Quanto mais tempo passasse sem se descobrir qualquer indício, e no meio de muita contra-informação oficial, mais remotas eram as possibilidades de se saber de facto o que tinha acontecido.

Isto foi em Angola e não no Iraque. Isto não teve registo vídeo. Mas que diferença existe, afinal, entre os executores de James Foley e os de Kamulingue?

Partilhe este Artigo