Tal como nas eleições em Moçambique, certamente que, fazendo uso dos seus poderes divinos, José Eduardo dos Santos terá felicitado Dilma Rousseff pela vitória mesmo antes da votação de ontem. Nada de anormal, portanto.

Omesmo terá feito a “nossa” santa padroeira, próxima embaixadora da ONU para os carenciados, e também a mulher mais rica de África, Isabel dos Santos, por sinal filha do presidente de Angola desde 1979. Por alguma razão ela convidou meia dúzia de “necessitados” para a cerimónia de abertura do Mundial de Futebol, no Brasil. Não foi bem meia dúzia, por uma questão de economia, mas cerca de 600…

Apesar do perigo de ter memória, importa recordar que a informação foi avançada por uma das revistas mais influentes do Brasil, a Veja, mas outros meios de comunicação social presentes também estiveram prestes a divulgar esta filantrópica iniciativa de Isabel dos Santos. Só o não terão feito porque os seus serviços de assessoria, nomeadamente da nossa embaixada, tudo fizerem para que o caso passasse ao lado. Tudo por uma questão de modéstia da filha do Presidente.

A revista Veja, uma das mais influentes do Brasil, publicou uma fotografia de Isabel dos Santos no estádio de Itaqueirão, em São Paulo, durante a cerimónia de abertura do Mundial de Futebol. Tudo normal, desde logo porque a acção também fazia parte do apoio à candidatura de Angola a membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU.

A publicação contou que a mulher mais rica de África, e filha do Presidente de Angola José Eduardo dos Santos, presidente nunca nominalmente eleito mas chefe do segundo maior produtor de petróleo de África subsaariana (em breve será o primeiro), convidou ao todo 600 pessoas, “um mix de homens de dinheiro e gente de fama, acomodados nos dois camarotes de luxo que bancou em cada uma das principais cidades-sede, São Paulo, Rio e Belo Horizonte”.

Explicava a revista que Isabel dos Santos “tem uma fortuna estimada em quatro mil milhões de dólares” e citava a própria quando esta dizia: “a minha base é a matemática, sou formada em engenharia”. Mas, acrescentava a publicação, “por uma incrível coincidência, também é filha do Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, e da russa Tatiana Kukanova”.

Apesar de não ter acompanhado até ao fim o jogo inaugural entre o anfitrião Brasil e a Croácia porque “ocupadíssima”, sublinhava a Veja, tinha “negócios que a chamavam de volta a Luanda. Mas deixou os seus convidados, como a amiga Ana Paula Junqueira, bem instalados e a aura de verdadeira rainha do camarote”.

Perante uma dupla comitiva, noutra frente liderada pelo próprio Eduardo dos Santos, o Brasil ficou a perceber o simbolismo, e o lucro, de ter no seu espaço o mais alto Produto Interno Bruto angolano por metro quadrado.

Não admira, por isso, que a Presidente brasileira, Dilma Rousseff, tenha sido célere a anunciar, entre o que é passível de conhecimento público, o apoio do Brasil à candidatura de Angola a membro não permanente no Conselho de Segurança da ONU. Dilma explicou o apoio com o “olhar atento” que Angola poderá representar naquele órgão.

“Estou certa de que Angola poderá oferecer um olhar atento e alternativas equilibradas aos actuais desafios à paz e à segurança internacionais”, afirmou, em Brasília, Dilma Rousseff, após uma reunião de negócios e processos afins no Palácio do Planalto com o homologo angolano, José Eduardo dos Santos.

“Concordamos que Brasil e Angola são actores importantes no processo de democratização das relações internacionais”, disse Dilma Rousseff, no discurso de encerramento da multimilionária visita do clã presidencial de Angola. A referência à democratização foi uma mera figura de estilo, protocolar, para embelezar e dar alguma seriedade à visita.

“A África e a América Latina precisam de estar melhor representadas nos processos decisórios globais, que necessitam de mais legitimidade. Por isso, é com especial satisfação que anunciei ao presidente dos Santos o apoio brasileiro à candidatura de Angola ao Conselho de Segurança da ONU para o próximo biénio”, afirmou a Presidente brasileira. E, bem poderia ter acrescentado Dilma Rousseff, legitimidade é coisa que não falta a quem está no poder desde 1979, a quem lidera um partido que está também no poder desde a independência, em 1975.

“Nós sabemos que é intenção do Brasil candidatar-se à conferência internacional dos Direitos Humanos. E Angola apoia essa candidatura do Brasil firmemente”, disse José Eduardo dos Santos.

O amor é bonito. Tu apoias-me, eu apoio-te. Em conjunto, ambos continuaremos a lixar o Povo, trabalhando arduamente para os (nossos) poucos que têm milhões, deixando que os milhões que têm pouco continuem a sua senda no sentido de terem cada vez menos.

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