O Jornal de Angola não tem a certeza, mas lá vai escrevendo que os EUA são “considerados a maior democracia do mundo”. E faz bem em não ter essa certeza. Comparativamente, todos sabemos que o país de Barack Obama não chega à democracia que é praticada em Angola ou na Coreia do Norte.

Por Orlando Castro

M as o que importa para um jornal partidário, embora sustentado pelo erário público, é que o Presidente Barack Obama elogiou o seu homólogo José Eduardo dos Santos “pelas suas políticas no plano interno e internacional”, nomeadamente pelas “conquistas democráticas do Povo Angolano”.

A admiração, quase reverencial de Obama, justifica-se. O Presidente dos EUA tem limite de mandatos, é nominalmente eleito, e dificilmente conseguirá – como faz Eduardo dos Santos – pôr os mortos a votar em si. A isso acresce que os norte-americanos nunca conseguiram em 238 anos de independência ter, como em Angola em apenas 39 anos, o mesmo presidente durante 35 anos.

Diz o MPLA, num texto publicado no Jornal de Angola sob a forma de Editorial, que “é sintomático que um Chefe de Estado estrangeiro, de outro continente, que está tão longe, veja claramente aquilo que alguns sectores da Oposição recusam ver.”

É verdade. Consta, aliás, que o 44º Presidente dos EUA vai propor ao Congresso a aprovação de uma lei que permita colocar no Capitólio, ou noutro lugar com igual dignidade, uma foto de José Eduardo dos Santos.

«Obama sabe o que custou aos angolanos a paz e estabilidade. Conhece o nosso passado recente, marcado dolorosamente pelas agressões externas. Com todos os dados à sua disposição, só podia constatar o que está à vista: “Nesta última década, Angola não apenas recuperou da guerra civil devastadora, como igualmente desenvolveu uma economia que se posiciona entre as maiores do continente africano”. Nesta frase está toda a verdade sobre Angola», escreve o MPLA no referido Editorial.

Poucas horas depois da publicação deste texto em Luanda, já a Administração Obama estava a fazer a sua tradução para inglês, admitindo-se que o mesmo, acompanhado por uma foto de Eduardo dos Santos, venha a figurar no “Hollywood Walk of Fame” (Passeio da Fama).

Diz o MPLA, que o “Presidente dos EUA, melhor do que ninguém sabe quanto nos custou a guerra devastadora e quanto custa, hoje, manter a estabilidade política e social, pôr a economia em marcha, levar a prosperidade onde até 2002 só existia fome, desolação e morte.” É verdade. Sabe, aliás, que para tornar ainda mais celestial o paraíso na terra que dá pelo nome de Angola, o regime só precisa de estar no poder mais uns 30 anos.

Aproveitando a distracção do comissário político do MPLA que ditou o texto, o director do Jornal de Angola aproveitou para – com o seu habitual resgo de originalidade – acrescentar: “Esperamos que os líderes dos partidos da Oposição não venham acusá-lo daquilo que acusam o nosso jornal: falta de isenção, subserviência, manipulação.”

De facto, acusar o Jornal do MPLA de “falta de isenção, subserviência, manipulação” é um crime de lesa jornalismo. Por alguma razão os jornais The Washington Post e The New York Times já solicitaram ao Presidente Eduardo dos Santos que autorize o Director José Ribeiro, acompanhado pela sua equipa de elite, a fazer algumas palestras nos EUA sobre jornalismo.

Diz o MPLA que “Obama elogia e reconhece quem lidera com inteligência, quem constrói a nova Angola sobre os escombros da guerra de agressão que durante décadas enfrentámos”. Também reconhecia iguais qualidades Hosni Mubarak, Muammar Kadafi, Saddam Hussein, etc. etc.. Mas isso é agora irrelevante.

Refere também o MPLA que “alguns políticos da Oposição pensam que reconstruir um país, dotá-lo das infra-estruturas que durante décadas foram sabotadas, matar a fome aos que tudo perderam na guerra, curar as feridas, levar o progresso onde só existem escombros, é tão fácil como fazer promessas insensatas, bolsar mentiras e calúnias sobre os que ganharam as eleições com maioria qualificada. Estão enganados. Reconstruir uma pequena parcela de Angola demora muitos anos e exige avultados recursos financeiros. Destruir, reconhecemos, foi muito mais fácil. Bastou carregar no gatilho ou provocar as explosões.”.

Em cheio. Só faltou explicar aos matumbos dos angolanos, Oposição incluída, que “carregar no gatilho ou provocar explosões” foram características exclusivas da UNITA já que, recorde-se, as armas das FAPLA eram inteligentes e nada destruíam.

“Aqueles que em 2002 estavam prestes a perecer, sem forças para respirar, foram alimentados e tratados nos hospitais nacionais. Em poucos dias estavam como novos. Pensam que recuperar dos anos perdidos, levar o progresso a todo o país, refazer os circuitos de produção e distribuição, construir escolas, centros de saúde e hospitais, pôr os comboios nos carris, recuperar os aeroportos que eles destruíram, refazer as barragens ou as linhas de alta tensão que sabotaram, se faz com a mesma velocidade com que foram resgatados da morte por inacção. Há coisas que se eliminam num ápice. As feridas nos angolanos e no solo sagrado da Pátria levam muito mais tempo a sarar”, escreve o MPLA com todo aquele conhecido espírito de reconciliação que até Obama reconheceu quando, de forma implícita, sugeriu – pressupõe-se – Eduardo dos Santos para o próximo Nobel da Paz.

Diz o editorialista do MPLA que, por tudo isto (e o mais que ele sabe mas não diz) “o Presidente Obama, que não está cego com a tomada do poder a todo o custo, que não presta vassalagem aos colonialistas que ainda mexem em Lisboa, fez esta afirmação simples mas muito reveladora: “Há sinais claros de crescimento e engajamento de Angola na arena internacional, o que promove um futuro brilhante, seguro e próspero para todos os angolanos”.

Veremos, um dia destes, se Obama ou qualquer um dos seus sucessores, não mudará de ideias. É que a diferença entre bestial e besta é muito ténue.

Mas continuemos com o Editorial do Comité Central do MPLA: “O Presidente dos EUA tem razão. O futuro de todos os angolanos é risonho. Mesmo para aqueles que vão a Lisboa pedir aos antigos amos que ponham a máquina do tempo a andar para trás. Mas o futuro dá ainda muito trabalho no presente. Quem se exclui de construir a Angola de hoje está a cometer um erro capital, porque aqueles que votam, os cidadãos que de cinco em cinco anos vão escolher os deputados e o Presidente, podem apontar muitos erros aos que ganharam as últimas eleições. Até podem estar desiludidos com alguns aspectos da governação. Podem até reclamar por promessas não cumpridas”.

Promessas não cumpridas? De quem? Pois. “Dos que vão a Lisboa pedir aos antigos amos que ponham a máquina do tempo a andar para trás”.

“A verdadeira reconciliação nacional faz-se na construção quotidiana da nossa casa comum: Angola livre e democrática. O “futuro brilhante, seguro e próspero para todos os angolanos” de que fala o Presidente Barack Obama, está a ser desbravado sob a liderança do Presidente José Eduardo dos Santos, pelo partido que ganhou as eleições e pelos angolanos que amam o seu país. Se a Oposição se obstina em não apanhar o comboio que avança inexoravelmente rumo a esse futuro brilhante, só pode continuar entre os derrotados e falhados”, conclui o MPLA em mais um Editorial que vai engrossar o dramático anedotário nacional.

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