Angola inicia no primeiro dia do ano de 2015 um mandato de dois anos como membro não-permanente no Conselho de Segurança da ONU. Dentro do galinheiro as raposas festejam.

A presença de Angola, a segunda em 13 anos de paz, representa o reconhecimento do papel do Executivo angolano na estabilidade em África, mas também a sua afirmação internacional. Ou, igualmente, a cegueira daqueles para quem os ditadores amigos são sempre bestiais. A fase em que, como outros, passam a besta ainda vai demorar algum tempo.

O mandato de dois anos que Angola assume naquele órgão em Janeiro segue-se à liderança na Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos em 2014, em que o presidente José Eduardo dos Santos foi mediador, em Luanda, de alguns conflitos regionais.

Segue-se também à constante e reiterada, por exemplo, violação dos direitos humanos e da liberdade de expressão. Mas isso pouco importa, não é?

“Esta postura de promoção da paz e da segurança tem conduzido a um reconhecimento a nível internacional do papel de Angola como um parceiro estratégico para a construção da Paz e a estabilidade em África”, enfatizou, em Outubro, o Presidente Eduardo dos Santos, puxando dos galões que cegam outras realidades.

A intervenção de Angola nos conflitos na República Democrática do Congo e na República Centro-Africana – neste caso com o envio, previsto para Março, de cerca de 2.000 militares para uma força de paz -, decorreu paralelamente com a forte mobilização para a candidatura a membro não permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Suportado no apoio constantemente transmitido pelas grandes potências internacionais a este papel de diplomacia e base da estabilidade na região, através dos EUA ou das fortes relações com a China e a Rússia, José Eduardo dos Santos admitiu a “naturalidade” desta candidatura angolana.

Em simultâneo, permaneceram nos últimos meses as críticas de organizações internacionais (onde não figuram a ONU, a CPLP e a UA) à forma como o Governo limita a liberdade de expressão e de manifestação no país, ou como são aplicados os dinheiros públicos. Para além dos manifestos casos de corrupção.

Contudo, durante todo o ano de 2014, sucederam-se as visitas de chefes de Estado e de Governo a Luanda. Por sua vez, José Eduardo dos Santos visitou França, Brasil e Cuba, além do Vaticano.

Uma intensa agenda internacional que culminou a 16 de Outubro, com a eleição angolana, com 190 votos favoráveis.

Saída em 2002 de uma guerra civil com quase 30 anos, Angola estreou-se como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU no ano seguinte.

Tal como na altura, a reconstrução nacional continua hoje em curso lento e inclinado a favor de uma cleptocracia umbilicalmente ligada ao clã presidencial, suportada pelos dólares do petróleo, produto que garantiu em 2013 cerca de 76% das receitas fiscais e que ainda permite taxas de crescimento da economia perto dos dois dígitos.

Com 23,4 milhões de habitantes e o segundo maior produtor de petróleo da África subsaariana, Angola já realizou duas eleições gerais desde 2002, actos em que até os mortos votaram no… MPLA.

Estas reconduziram José Eduardo dos Santos como Presidente, cargo que ocupa desde 1979 sem nunca ter sido nominalmente eleito, depois de ter liderado durante quatro anos precisamente a diplomacia do Governo angolano que agora volta à ribalta internacional.

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