O ministro das Relações Exteriores, Georges Rebelo Pinto Chikoti, considera que a complexidade das relações internacionais exige de Angola uma diplomacia mais actuante, sobretudo para a defesa dos seus interesses nacionais, incluindo no acompanhamento cuidado do surgimento de focos de guerra no mundo.

PAara o ministro Georges Chikoti, em África, por exemplo, nos últimos anos está-se a viver situações de conflito em certas regiões que começaram a pôr em causa a própria noção clássica do Estado, quando se olha aos casos da Líbia, do Egipto, Mali, República Federativa da Nigéria e da Somália.

A recorrência do uso de golpes de estado para impor agendas políticas de fins inconfessos, bem como e as dificuldades provocadas no processo da resolução das crises criadas, relata a Angop, constituem motivos de preocupação, uma vez que estão a desafiar princípios fundamentais de paz e segurança, defendidos pela União Africana e pela Organização das Nações Unidas, às quais grande parte dos estados aderiu.

Georges Chikoti afirma que Angola considera a paz e a segurança premissas fundamentais para que qualquer nação possa realizar plenamente o seu potencial, em termos de desenvolvimento, democracia e promoção dos direitos humanos, acrescentando que a política externa angolana defende relações de boa vizinhança, baseadas em princípios de respeito da soberania, da igualdade, da integridade territorial dos Estados dentro de uma cooperação reciprocamente vantajosos.

A tese de Georges Chikoti, genericamente e do ponto de vista formal correcta, corresponde às regras há muito defendidas, para proveito próprio, pelo Presidente José Eduardo dos Santos que, mau grado o tempo que está no poder e o facto de nunca ter sido nominalmente eleito, entende ter legitimidade para – como fez no dia 1 de Junho de 2012 – dizer ao mundo que “não pode ser tolerado o ressurgimento dos golpes de estado em África”.

As razões pouco interessam. Se pelo voto (quando o há) tudo continua na mesma porque a máquina do poder tritura a oposição e adultera as votações a seu belo prazer, se o povo continua sem comida, casa, saúde, escola, liberdade etc. que forma terá para mudar as coisas?

Eduardo dos Santos tem toda a razão. Aliás, a democraticidade do seu regime e a legitimidade do seu mandato são prova disso.

No dia 1 de Junho de 2012, José Eduardo dos Santos discursou na abertura da cimeira extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da SADC que, em Luanda, analisava a situação política da região e a integração económica regional.

De acordo com o Presidente da República e do MPLA, para além líder do Governo, África necessita de exemplos concretos que confirmem que o Continente pretende “virar firmemente uma página do passado de uma história em comum”, marcado pela existência de “governos autoritários ou autocráticos, para dar lugar a sociedades e instituições democráticas”.

Não. Não é, embora pareça, uma piada de mau gosto. Foi mesmo isso que Eduardo dos Santos disse. Foi ele que, com todas as palavras, criticou os “governos autoritários ou autocráticos”, dizendo defender (está-se a ver, não está?) “sociedades e instituições democráticas”.

Mas a ânsia do regime em querer vender gato por lebre, numa tentativa de lavar a sua imagem e apostar numa suposta metamorfose que o transformará em algo sério, tem outras variantes que os conselheiros, sobretudo mas não só brasileiros e portugueses, entendem como imprescindíveis.

Como se não bastasse obrigar o Povo a pensar com a barriga… vazia, Eduardo dos Santos teima em demonstrar que os angolanos são matumbos e que, a troco de um saco de fuba ou do fantasma da guerra, irá mantê-los amordaçados e escravizados para sempre. Está enganado. Está enganado, senhor Presidente.

Outras das prioridades estabelecidas por José Eduardo dos Santos foi a Saúde, estando este sector certamente à espera que alguém se lembre da pedir aos pobres dos países ricos para dar aos ricos dos países (supostamente) pobres.

Há quem diga, certamente por deficiência de informação, que no país de Eduardo dos Santos (que não é exactamente o dos angolanos) há 70% de pobres. Ninguém acredita nisso.

Vejamos. Segundo o próprio José Eduardo dos Santos, quando ele nasceu já havia muita pobreza na periferia das cidades, nos musseques, e no campo, nas áreas rurais. Citou, e muito bem, os poetas Agostinho Neto e António Jacinto que, nos seus versos, denunciavam a miséria extrema, e a exploração do contratado, cujo pagamento era fuba e peixe seco e porrada quando se refilava, uma realidade imortalizada na canção “Monagambé” de Rui Mingas.

É certo que, segundo o MPLA (e por alguma razão – obviamente democrática – ele está no poder desde 1975), há muitos oportunistas que pretendem promover a confusão no país para provocar a subversão (atentem no pormenor) “da ordem democrática estabelecida na Constituição da República, e derrubar governos eleitos, a favor de interesses estrangeiros”.

“Hoje há uma certa confusão em África e alguns querem trazer essa confusão para Angola”, declarou, declara e declarará, Eduardo dos Santos, adiantando que “devemos estar atentos e desmascarar os oportunistas, os intriguistas e os demagogos que querem enganar aqueles que não têm o conhecimento da verdade”.

Uma coisa que irrita solenemente o Presidente é a perda de controlo sobre o que, num mundo de informação global, se escreve sobre o nosso país e que, assim, desmascara a propaganda dos órgãos oficiais do regime. É por isso que José Eduardo dos Santos apregoa que nas chamadas redes sociais, que são organizadas via Internet e nalguns outros meios de comunicação social, fala-se de revolução, mas não se fala de alternância democrática.

José Eduardo dos Santos esquece-se, mas é um pormenor de somenos importância, que para haver alternância democrática é preciso que antes exista democracia. Não se pode querer tudo, dirá certamente e com razão o Presidente.

“Para essa gente, revolução quer dizer juntar pessoas e fazer manifestações, mesmo as não autorizadas, para insultar, denegrir, provocar distúrbios e confusão, com o propósito de obrigar a polícia a agir e poderem dizer que não há liberdade de expressão e não há respeito pelos direitos”, referiu José Eduardo dos Santos naquela que foi uma, apenas mais uma, das suas citações que passaram a integrar as enciclopédia sobre democracia que figuram, em lugar de destaque, nas estantes dos principais areópagos da política internacional.

José Eduardo dos Santos diz que os opositores querem apenas colocar fantoches no poder, que obedeçam à vontade de potências estrangeiras que querem voltar a pilhar as riquezas e fazer o povo voltar à miséria de que se está a libertar com sacrifício.

Tem razão. Embora o MPLA pilhe as riquezas e o povo desde 1975, sempre tem a seu favor o facto de impor que os estrangeiros só pilhem se for em parceria com o clã Eduardo dos Santos.

O Presidente lamenta também o facto de ninguém se lembrar, o que é grave, de dizer que a pobreza não é recente e que é uma pesada herança do colonialismo, para além de ser uma das causas que levou o MPLA a conduzir a luta pela liberdade, para criar o ambiente político necessário para resolver esse grave problema.

Sem qualquer custo para o MPLA, sugerimos que o regime exclua dos cálculos da pobreza todos os que são… pobres. Se o fizer pode já anunciar o fim da pobreza.

José Eduardo dos Santos afirmou também que apesar de não existir país nenhum no mundo sem corrupção, o Governo está a fazer esforços para combater este mal. Mais uma vez, sem custos adicionais, propomos uma medida radical para acabar com essa enfermidade. O MPLA deve mudar o regime legal. É que se a lei não considerar a corrupção como um crime, o país deixa de ser o local do mundo com mais corruptos por metro quadrado.

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