Há alguns, não muitos, anos, numa escala de trânsito no aeroporto internacional de Newark, para uma viagem intercontinental, encontrámos um dos Burrocratas do Reigime de Angola. Ele fazia-se notar pela lenga-lenga de propaganda, tentando vender banha da cobra, numa gabarolice pacóvia.

Por Domingos Kambunji

Em pleno Verão, com o calor húmido de New Jersey, os outros passageiros trajavam roupas leves, informais, práticas e adequadas para quem iria estar fechado no interior de um avião, num voo demorado. O Burrocrata estava fardado de fato escuro, camisa branca e gravata muito vermelha, como quem ia à centésima nonagésima nona cerimónia oficial da tomada de posse do Zédu como Presidente da Reipublica de Angola. Ele gabava-se de ser uma pessoa bem formada e informada porque pertencia aos serviços de segurança e espionagem.

No meio de um população de passageiros maioritariamente lusófona, na sala de espera, o Burrocrata esganiçava-se para tentar demonstrar que a Reipublica de Angola caminhava aceleradamente para tornar-se o país mais moderno e desenvolvido de todo o mundo e arredores. Que as estradas de Angola eram as melhores do planeta. Que o país estava a construir os hospitais mais modernos e mais bem equipados do mundo. Que o país estava a “avançar para a frente” na construção das melhores escolas elementares, secundárias e universitárias. Que o sistema de ensino era dos melhores e mais avançados da nossa civilização… Que e que e que…

Quando o auditório estava quase convencido de tantos “ques”, o Burrocrata decidiu virar-se para o nosso lado, iniciando o diálogo, por sentir-se pressionado pelo nosso silêncio e espírito de observação atenta. Foi nessa ocasião que ele nos confidenciou que ia regressar a Angola depois de ter vindo aos EUA matricular um filho num sistema de ensino secundário, em regime de internato. A sua fartura de kumbu permitia-lhe pagar cerca de trezentos salários mínimos de Angola, por ano, para poder ter o filho a estudar, no ensino secundário, nos EUA. Os tais “ques” sobre a qualidade das escolas e do ensino em Angola caiam assim por terra.

Nesse instante resolvemos retorquir e desmentir o angolano fardado com traje de gala, informando-o de que tínhamos conhecimento das estatísticas internacionais sobre a qualidade de vida dos angolanos em geral. Nesse mesmo momento relembrámos o senhor dos “ques” do facto de o país ser presidido por um homem com o “prestigio” internacional de ser um dos dirigentes mais corruptos do planeta. O Burrocrata não sentiu a pancada e retorquiu de imediato:

– O Presidentê tem que receber uma boa pêrcentage nos negócios do país, por isso é que ele é presidentê.

Nós já sabíamos disso. Ficámos assim ainda mais esclarecidos de que a ética putinesca de geração acelerada de milionários e bilionários encontrou em Angola um terreno fértil para implantação e vulgarização. A vigarice é aceite e respeitada com o maior conformismo. A grande ambição de alguns angolanos é poderem vir a ser “presidentês” de uma coisa qualquer, para também poderem vir e ter “pêrcentagens” milionárias e bilionárias nos negócios do país.

É esse o mesmo “Presidentê” que recentemente, enquanto se encontrava em Barcelona, foi homenageado com a dedicatória do prémio atribuído às edições 27 de Maio, que alguns teimam em designá-las por edições Novembro. Essa empresa recebeu um prémio, em França, pela capacidade demonstrada na inovação, excelência e liderança. Nós, que não nascemos ontem e estamos ligados à comunicação social há várias dezenas de anos, conhecemos muito bem esse tipo de prémios. Eles são atribuídos, por muitas agências mundiais, em troca de avultadas quantias em dinheiro. Se as edições 27 de Maio estiver interessada em receber um prémio desses diariamente, só tem que aparecer com o kumbu. Há muitíssimas agências interessadas em atribuir muitos prémios de Liderança, Excelência e Inovação nos quatro cantos do mundo…

A inovação revelada pelas edições 27 de Maio, abusivamente designadas por edições Novembro, mete dó, comparada com as grandes editoras do Brasil, Estados Unidos da América, Canadá, França, Inglaterra, etc. As edições 27 de Maio talvez conseguissem passar no controle de qualidade na Idade da Pedra ou na Idade do Ferro. Na Idade do Bronze já seria mais complicado.

A excelência demonstrada pelas Edições 27 de Maio é demasiado confrangedora e um atentado muito sério à inteligência e criatividade. Temos que concordar que as Edições 27 de Maio são excelentes, apenas para matumbos.
A Liderança das Edições 27 de Maio dá vontade de ir às lágrimas. Subserviência fanática não é liderança, é seguidismo pacóvio limitador do sentido crítico necessário para o avanço construtivo das culturas e das civilizações.

Recentemente, o Kin Jan-Un mandou fuzilar dez oficiais das forças armadas da Coreia do Norte só porque estes eram espectadores de telenovelas da Coreia do Sul. Estas modas propagam-se com grande facilidade e impunidade em Angola.

Não será de admirar que, em breve, as Edições 27 de Maio, abusivamente designadas por edições Novembro, venham fazer a apologia de que os angolanos que não se alimentem, diária e exclusivamente, da informação da TPA, da RNA e do Jornal de Angola devam sofrer o mesmo tipo de punição que foi decidida para esses Oficiais da Coreia do Norte, só porque são leitores, telespectadores e/ou radio-ouvintes de outros órgãos de informação nacionais/ou estrangeiros.

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