Na selva de Luanda andava um macaco que os cultivadores e crentes só em tradições temiam e aplaudiam. Os seus companheiros, devido às poucas capacidades de raciocínio, porque ele era um pouco menos limitado nas ideias e no uso das palavras, escolheram-no para Rei dos macacos.

Por António Kaquarta

R apidamente decidiram percorrer todo o território da selva, muito satisfeitos, publicitando que tinham escolhido para Rei um macaco muito sábio, inteligente e astuto. E ainda acrescentavam que ele fora o criador do sol, das estrelas e da lua, dos rios e dos mares, da terra e do céu, do vento e da chuva, do frio e do calor, e tinha o dom para decidir quando deveriam principiar ou terminar as estações da chuva ou do cacimbo.

O leão, inicialmente contrariado, acabou por aceitar, pacificamente, ser destronado de Rei da selva. Ele era forte e feroz, mas não era muito inteligente e, sobretudo, era pouco corajoso. Bastava que alguém o olhasse de frente, olhos nos olhos, e demonstrasse não ter receio de o enfrentar, para ele se acobardar e deixar de defender os seus ideais e as suas ambições.

O elefante, sempre de trombas, só pretendia que o criador da chuva e os seus seguidores não se zangassem, para que o Rei não obrigasse a vegetação a atravessar longos períodos de seca, o que poderia comprometer a continuidade da sua espécie, sobretudo dos seus descendentes.

A girafa, sempre com a cabeça no ar, não acreditou na propaganda dos tradicionalistas, mas também não estava interessada em pensar criar novas teorias para a organização e gestão da selva. Ela não desejava ocupar um lugar no poder. Caminhava com o seu comportamento habitual, sempre muito calma, e não se misturava muito com os outros animais. A girafa sabia que possuía um coice muito forte, mortífero, se fosse incomodada, mas não queria envolver-se em conflitos.

A hiena, apresentando-se como jurista, politóloga, deputada e constitucionalista, não se cansava de gabar a eloquência e muitas outras falsas virtudes do Rei Macaco. Ela era muito aplaudida pelos companheiros e seguidores do macaco. Vários animais detestavam a sua presença, porque a hiena cheirava muito mal.

Quase todos os outros animais da selva, por comodismo ou conformismo, aceitavam ou não se incomodavam com o despotismo do Rei Macaco.

O Rei Macaco, novo quando foi entronado, foi envelhecendo. Enquanto decorreu esse processo, natural em todos os seres vivos, muitas crianças foram nascendo e crescendo, ouvindo as vozes da tradição que repetiam: o Rei Macaco Velho é muito sábio, inteligente e astuto, ele foi o criador do sol, das estrelas e da lua, dos rios e dos mares, da terra e do céu, do vento e da chuva, do frio e do calor, do petróleo e dos diamantes e tem o dom e o poder para decidir quando devem principiar ou terminar as estações da chuva ou do cacimbo.

Os descendentes do Rei Macaco Velho, de outros macacos e de outras populações da selva foram ensinados a respeitar, a obedecer e, principalmente, a temer o Rei, sem nunca o desafiarem ou contrariarem, e receavam as consequências drásticas que o Macaco Velho poderia decidir, se o afrontassem. Em última instância ele poderia suspender as chuvas e todos morreriam de fome na selva.

Um dia surgiu na selva de Luanda uma palanca, jovem adulta, bastante viajada. Ela visitara outras selvas e percorrera muitas planícies e montanhas, areais e anharas, terras fartas de alimentos e outras desérticas, durante vários ciclos do seu tempo de vida como adulta. A palanca, depois de avisada e intimidada para que respeitasse as normas, leis, crenças e tradições vulgarizadas na selva de Luanda, acerca do Rei Macaco Velho, opinou de que elas não eram verdadeiras e o Macaco Velho, com uma astúcia muito elevada, era desonesto, pouco inteligente e nada sábio.

A palanca informou as restantes populações de que a cultura do medo imposta durante alguns decénios naquela sociedade limitava as potencialidades para o crescimento da capacidade de raciocínio inteligente e construtivo dos diferentes animais da selva, impedindo-os de serem verdadeiramente independentes e adultos.

Se eles fossem capazes de utilizar todas as potencialidades com que a Natureza os havia dotado, seriam muito mais felizes numa vivência em harmonia de complementaridade. Ela disse-lhes também que todos os poderes ou dons que atribuíam ao Macaco Velho não eram dele, eram da Mãe Natureza. A palanca concluiu afirmando: a felicidade não é imposta, dirigida e policiada, é construída com inteligência e muita imaginação e dedicação, promovendo, respeitando e valorizando a simplicidade, não a facilidade e a futilidade.

Os companheiros e seguidores do Macaco Velho, muito enfurecidos, reuniram-se na tentativa de encontrarem estratégias e argumentos para desacreditarem a palanca e condenarem-na por blasfémia. Não conseguiram. Resolveram reconhecer alguma, muito pouca, razão à palanca e contrapuseram:

– Pode ser que sejam verdadeiros alguns dos teus argumentos, palanca. O Rei Macaco Velho está há muitos anos no poder, vai a caminho de quatro décadas. Ele tem muito dinheiro, muita experiência de vida e só ele é que sabe organizar governos e gerir todos os recursos populacionais e naturais existentes na selva de Luanda. Ele é respeitado e temido por muitas populações desta selva e de outros territórios. Quem és tu, palanca, ainda relativamente jovem, para tentares destruir a imagem e enxovalhar o curriculum, com uma grande experiência de vida e, principalmente, de governação, do Rei Macaco Velho? És uma ingénua, doentiamente vaidosa e ambiciosa, com pouca experiência do que é a vida, desde o nascimento até ao envelhecimento. O Rei Macaco Velho pensou e ditou as Leis, que nós escrevemos, para a administração e gestão de todo o território. O Rei Macaco Velho é o único com experiência e sabedoria para decidir o que devem ser as vontades e as necessidades das quatro gerações: crianças, jovens, adultos e adultos de avançada idade.

A palanca respondeu-lhes dizendo que o curriculum do Macaco Velho servia como referência de um mau exemplo, para as gerações actuais e vindouras aprenderem e não repetirem tantos erros e contradições que conduziram a consequências muito nefastas em todo o território. A não repetição desses crimes e atropelos permitiria, às futuras gerações, mais bem formadas e adultas, não temerem os desafios e destruiria muitos sofismas, fobias, preconceitos e tradições, para que a selva de Luanda se transformasse num território de harmonia, com uma diversidade construtiva em complementaridade.

Os companheiros e seguidores do Macaco Velho ficaram muito irritados. Ordenaram aos seus descendentes e seguidores que expulsassem a palanca da selva de Luanda, para um sub-território frequentemente percorrido por caçadores furtivos.

O jaguar, o caçador furtivo mais famoso e temido em todas as selvas da África Austral e arredores, ao ver a palanca só, abandonada, achou-a uma presa de elevado interesse para troféu de caça. Levantou a sua arma, capaz de tirar a vida a um dos dinossauros mais corpulentos e resistentes, fez a pontaria e disparou três tiros, com objectivo de atingir o coração da palanca.

A palanca não morreu. Não chegou a ser trespassada por esses três tiros. Quando as balas lhe tocaram na pele, ela transformou-se na rosa de porcelana mais bela que alguma vez nasceu em toda a África Austral.

Alguns anos mais tarde, depois da morte do Macaco Velho, essa rosa de porcelana foi colhida e acariciada por uma menina de sorriso hialino permanente, a Angola. A menina nascera e crescia numa casa repleta de justiça e amor, com um quintal povoado de muitas flores de inteligência e coragem a desabrocharem continuamente, porque as plantas de onde brotavam eram regadas com carinho e fertilizadas com muita compreensão, atenção e imaginação.

Quando a menina Angola cheirou essa rosa de porcelana, a flor transformou-se na princesa Alegria, que passou a viver no rosto de todas as crianças de África e dos restantes continentes do planeta Terra.

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