O novo livro de Kalaf Epalanga aborda as tensões e as relações entre Portugal e Angola. Mas é também uma “declaração de amor à cidade de Lisboa”, onde o músico dos Buraka Som Sistema se descobriu angolano.

A editora Caminho acaba de lançar nas livrarias portuguesas o livro “O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço)”, uma colectânea das crónicas que o escritor e músico Kalaf Epalanga publicou nos últimos três anos no jornal português Público e no portal Rede Angola.

A obra, com apresentação pública marcada para o próximo dia 13, em Lisboa, evoca também a angolanidade e miscigenação cultural, assim como o espaço que os investimentos empresariais ganharam nos últimos anos nos dois sentidos.

Kalaf Epalanga, como agora assina, fala do seu novo produto literário com vaidade, como um bom observador e crítico social. O segundo livro de crónicas do escritor, natural de Benguela, é fruto da sua visão sobre a actualidade.

“Pode soar estranho, mas esse título é uma declaração de amor à cidade de Lisboa”, disse à DW África o autor, a viver na Europa há quase 20 anos. “Achei por bem fazer uma retrospectiva, olhar para trás e ver exactamente quais são as coisas que me fizeram ficar e o que me atraiu nesta cidade onde me descobri angolano.”

O título, diz Kalaf, também podia ser “O Angolano que seduziu Lisboa”, onde o músico vive e onde se afirmou como artista nos últimos dez anos. Algumas das 55 crónicas transportam-nos para as afinidades que alimentam as relações entre Portugal e Angola.

Nos últimos anos, tais relações foram invertidas com a entrada e o aumento do fluxo de capitais angolanos em empresas portuguesas vítimas da crise económica e financeira.

“Quando cá cheguei essa questão não se colocava. Eu vi e acompanhei a evolução das relações Angola-Portugal desde 1994. E reparei que o mais importante nessa relação, independentemente dos negócios que se façam e da relação comercial e política que existe, há a relação das pessoas”, conta o autor.

Além disso, acrescenta, a forma como lidam umas com as outras está intacta: “Temos uma afinidade e proximidade com essa cultura única. A História ligou-nos e não há forma de dar a volta a isso.”

A propósito de vaidade angolana transformada em “monumento de fama internacional”, Kalaf relata no livro que, no final de um almoço, terá sido abordado por um proprietário português a propor-lhe negócio na compra do restaurante, com todo o recheio, licenças, cozinheiros e empregados de mesa incluídos. Proposta à qual respondeu com vaidade “quanto é que custa?”, apesar da crise financeira em Portugal.

Não menos importante que a crise em Portugal, as tensões cíclicas nas relações políticas luso-angolanas aparecem implícitas nos textos, de tal forma que, a dado momento, o escritor lança uma espécie de provocação ao propor a criação em Lisboa de um Museu da Kizomba, como forma para aliviar tais tensões.

“Acho importante que se pense e se reflicta sobre as ideias e os projectos. Os grandes investimentos dão trabalho e ajudam a economia, mas o homem não é feito só de matéria, também é emoção e sentimento”, explica.

Por inércia deste fenómeno, Kalaf, um dos mentores do projecto Buraka Som Sistema, até gostaria de ver a Kizomba – dança actualmente muito em voga em vários países fora de África -, ser um dia património imaterial da Humanidade.

E admite, também por força desse movimento cultural, que houve uma inversão (positiva) nas relações entre os dois países. “Acho que essa relação não é unilateral. É ampla e aberta e é uma troca, um diálogo.”

Diálogo no plano cultural, mas também aquilo a que chama de “pingue-pongue político e económico”, que tem vindo a observar há cerca de duas décadas: “Tenho observado esse pingue-pongue cultural que está quase numa linha paralela. E há pontos muito interessantes, como a relação com a música, com as artes plásticas e com a literatura.”

Neste âmbito, a capital portuguesa, Lisboa, o centro de atenção do seu livro, oferece muitas oportunidades. Daí viver essencialmente da economia cultural desta cidade que diz pertencer-lhe também.

De acordo com a editora Caminho, José Eduardo Agualusa e Ferreira Fernandes apresentarão a obra no sábado da próxima semana e no decorrer do lançamento haverá um leilão de obras de Yonamine, Vhils, Miguel Januário e Nástio Mosquito.

Fonte: João Carlos – DW África

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