José Eduardo dos Santos exonerou o governador provincial de Luanda, Bento Francisco Bento, e mais dois dos três vice-governadores da capital. Em linguagem popular, mudou as moscas mas deixou a boiar a matéria putrefacta que as alimenta. Que as coisas na capital não estão bem, todos sabem. Mas não estão há muitos, muitos anos. Remendando aqui, esburacando ali, Luanda precisa sobretudo de uma governação competente e não, como acontece, de uma gestão casuística que potencia interesses individuais e marginaliza o colectivo.

Mais uma vez, Eduardo dos Santos avança com a emblemática criação de uma Comissão de Reestruturação do Governo da Província de Luanda. O que é que isso significa? Tão somente a manutenção de tudo o que está, embora com novas personalidades da sua inteira confiança a quem, necessariamente, era necessário dar protagonismo e rendimentos.

Copiando, sem pagar direitos de autor, o que acontece em outras capitais do mundo, incumbiu essa nova Comissão de implementar, após um estudo que se calcula demorado e caro, a desconcentração administrativa e a adopção de um modelo de administração local diferenciado das restantes províncias do país.

Pela aragem não é preciso grande sabedoria para se concluir que as mudanças, no embrulho, vão apenas ocultar a fraca qualidade do produto. Para pôr a capital em ordem, o que é diferente de impor ordem na capital, seria necessário alterar o modo e o modelo de governação e não apenas os seus executores. Para isso teria o Presidente de escolher especialistas competentes, não confundindo a subserviência partidária com competência. Mas Eduardo dos Santos avalia a competência pela concordância com as suas teses. Para estar sempre de acordo com a sua visão bastaria a própria sombra. Na impossibilidade de nomear a sombra para governador, escolhe os que mais se aproximam dela.

Não faltam exemplos, muitos deles de elevada eficiência, de como se governam as grandes metrópoles. Mesmo sem sair do espaço da lusofonia, não falta matéria para adaptar, experiências para partilhar. Brasil, Moçambique ou Portugal estão aí à mão de semear. Mas não parece ser isso que Eduardo dos Santos quer.

A suposta reestruturação de Luanda afigura-se como um mega centro de emprego para os amigos. Aliás, daqui a uns anos se verá que o novo governador afinal fez o mesmo que Bento Bento, mantendo tudo como estava, eventualmente utilizando uma medicação paliativa diferente. Ou seja, tal como no poder central, mudam-se algumas pessoas para que tudo continue na mesma.

A isso acresce que por “ocupar” a mesma cidade, o poder central acha-se no direito de querer uma capital à sua imagem e semelhança, pelo que se calhar faria mais sentido Luanda não ter governador e a administração da província ser feita directamente pelo Presidente da República. Um pouco à imagem do que faz, embora de forma indirecta, com as restantes províncias do país. Colocar-se-ia certamente a questão dos tachos para a rapaziada do costume. Mas isso não seria problema. O Governo poderia criar para eles um ministério da reestruturação territorial, ou das infra-estruturas basilares etc..

E, convenhamos, se o Governo do país está em Luanda, é chato não ter ainda uma cidade feita à imagem e semelhança do Presidente. E com todos os malefícios herdados do colonialismo, será inexequível dar à capital, tal como está, uma estrutura organizativa que sensibilize o Presidente a dar-lhe um novo nome. Mesmo assim, com uns tantos retoques, e graças à sua reconhecida modéstia, certamente que aceitaria que Luanda se passasse a chamar Cidade Eduardo dos Santos.

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