De acordo com os que enxergam a árvore mas não vêem a floresta, o Conselho de Segurança da ONU, o envio de militares para a República Centro-Africana ou a conferência internacional sobre a pirataria no golfo do Guiné colocam Angola no centro da diplomacia africana em 2015.

Por Orlando Castro

D o ponto de vista oficial do regime, a eleição para membro não permanente do Conselho de Segurança, cujo mandato arranca em Janeiro, levou o chefe da Diplomacia angolana a assumir que esta é a “nova imagem de Angola”, que se afirma ao fim de doze anos de paz.

Com o Governo liderado por José Eduardo dos Santos a apresentar-se internacionalmente como garante da paz e da estabilidade na região, o ministro George Chikoti antevê para este mandato de dois anos no órgão máximo das Nações Unidas um “novo período” para a história de Angola.

“É um novo início e uma nova imagem que Angola dá ao mundo”, garante o ministro das Relações Exteriores, sublinhando a aposta angolana na resolução dos conflitos “pela via do diálogo”.

Conhecido por passar o tempo entre Angola e o estrangeiro, quase em partes iguais, Chikoti será o rosto angolano no palco internacional. Garante que “o desafio é muito grande”, mas acredita que há “uma equipa boa preparada”.

A defesa da paz e segurança, prevenção e resolução de conflitos e realização de missões de manutenção e de consolidação de paz e missões humanitárias, são três pilares do mandato angolano.

Nesse sentido, o primeiro teste será já em Março, com a mobilização de uma força militar angolana, estimada em cerca de 2.000 homens, para integrar os Capacetes Azuis que tentam conter a violência inter-religiosa na República Centro-Africana (RCA).

A missão angolana integrará um batalhão de infantaria motorizada, com o armamento técnico, uma companhia de forças especiais e um hospital de campanha, marcando o regresso das Forças Armadas Angolanas aos cenários operacionais internacionais.

Depois de iniciar a Presidência da Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos (CIRGL) em Janeiro de 2014, ano em que Luanda foi palco da mediação dos conflitos na República Democrática do Congo e na RCA, o horizonte angolano deverá alagar-se já nas primeiras semanas de 2015.

É que o país será palco, desta vez, de uma conferência internacional sobre a pirataria no Golfo da Guiné, contando para tal com o apoio do aliado norte-americano, nomeadamente através do Comando dos Estados Unidos para África (AFRICOM), cujo comandante, David Rodriguez, reuniu em Luanda no final de Setembro.

Apesar desta forte visibilidade internacional que se antevê para 2015, Angola enfrenta no plano interno um orçamento que limita a contratação de trabalhadores para o sector público e que condiciona investimentos.

No centro do problema está a quebra abrupta dos preços de petróleo no mercado internacional, que levou o Executivo a fixar, como perspectiva, a exportação do barril de petróleo a 81 dólares, contra os 98 dólares de 2014.

Numa economia baseada no investimento público, por sua vez alicerçado nas receitas fiscais do petróleo, em cima da mesa está um crescimento de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB), mas também um défice de 7,6%. Esta derrapagem vai fazer elevar a dívida pública angolana para 35,5% do PIB.

Contas descritas pelo ministro das Finanças como de “contenção”, justificada com as “incertezas” da “economia global” e face ao reduzido crescimento mundial. “Racionalidade implica gastar melhor, priorizar melhor. E o Executivo tem responsabilidades para todos os agentes na economia”, assume Armando Manuel.

Neste cenário, e com o petróleo a valer mais de 98% das exportações angolanas, a diversificação da economia, para evitar a dependência destas “incertezas”, promete voltar a ser assunto em 2015, tal como já apontou o Presidente angolano em Outubro.

“A sustentabilidade do nosso desenvolvimento pressupõe a necessidade de reduzir a actual dependência da nossa economia do petróleo bruto. Diversificar a actividade económica e a produção, em particular, é, pois, uma questão crítica, uma tarefa urgente e inadiável, determinante do nosso futuro e de uma mais efectiva Independência Nacional”, avisou José Eduardo dos Santos.

Todo esta arrazoado analítico, na circunstância feito pela Lusa, reflecte de facto o que é a árvore do nosso país. Cirurgicamente, como é natural, esquece-se a floresta, ou seja, o país real. O país da fome, da miséria, da intolerância política, da violência policial, do desrespeito pelos direitos humanos, das agressões, prisões e mortes arbitrárias, das assimetrias sociais, da constante violação a Constituição, do Estado ao serviço do regime e não do país.

Compreende-se também que, por ser uma agência pública portuguesa, a sua preocupação seja comercial, mesmo que travestida de jornalismo. Se fosse mesmo uma agência informativa daria voz a quem a não tem, mas como não é…

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