Os jornalistas turcos receiam que a liberdade de Imprensa esteja sob ameaça na Turquia, na sequência das operações dirigidas recentemente pelo poder político contra profissionais e executivos de grupos editoriais.

Por Orlando Castro

E m Angola, nesta matéria, existe uma vantagem decisiva para o regime. Só se pode recear por aquilo que existe. Tirando os casos mais resistentes, que se podem contar pelos dedos de uma mão em vias de ser amputada, tudo o resto é folclore, é propaganda.

Para Sevgi Akarçesme, uma colunista do Zaman, o diário de maior circulação na Turquia, o jornalismo é “uma das profissões mais perigosas” na Turquia actual, denunciando que a liberdade de imprensa está por um triz.

Se é perigosa! Nós sabemos bem disso. Para além de quase uma centena de processos judiciais, temos a noção de que estamos na linha de fogo de todos aqueles que querem que a nossa liberdade termine onde começa a deles, mas que afirmam que a deles nunca termina.

“Ser jornalista hoje na Turquia é uma das profissões mais perigosas. Recusamos que nos silenciem. A imprensa livre é importante para a democracia. Não sou optimista a curto prazo”, afirmou Sevgi Akarçesme.

Nós por cá também recusamos que nos silenciem. Isso não impedirá os donos dos jacarés de nos incluírem na cadeia alimentar destes répteis. Mesmo assim, haverá sempre quem resista, quem transporte dinamite no peito e faça os jacarés e os seus donos ir pelos ares.

Faz hoje duas semanas, também domingo, que a polícia turca bateu à porta do grupo de imprensa Zaman, na periferia de Istambul, com um mandado de prisão do editor-chefe Ekrem Dumanli.

Naquele dia, foram detidas 26 pessoas em todo o país, entre jornalistas, executivos e ex-chefes de polícia, considerados pelo Presidente da República, Recep Tayyip Erdogan, como integrantes de uma conspiração terrorista para o derrubar do poder.

Além do Zaman, o canal Samanyolu também foi um alvo da operação, com a detenção do presidente do grupo, Hidayet Karaca, de produtores e de argumentistas de séries televisivas.

A operação teve como alvo simpatizantes do clérigo muçulmano Fethullah Gulen, de 73 anos, auto-exilado desde 1999 na Pensilvânia, nos EUA.

Cá pela banda, do ponto de vista formal os processos judiciais que visam silenciar-nos têm como autores impolutos (segundo as regras e os valores do regime) cidadãos como, entre outros, António Pereira Furtado, Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, ou o General Pitagrós. Do ponto de vista informal, contam com operacionais “anónimos” pagos para nos tirarem a tosse.

Certamente para cumprir o seu maquiavélico desiderato, o Folha 8 continua a “contar com uma equipa de jornalistas nacionais e estrangeiros que no presente momento têm redigido os principais artigos detractores da política governamental do País”.

No início de 2008 surgiu uma coisa chamada “Independente”, um jornal estrategicamente renascido das cinzas, ligado a Fernando Manuel, outrora membro da DISA (a polícia do Estado), depois SINFO e ex-vice-ministro da Segurança do Estado, e que apareceu como um instrumento de desacreditação da imprensa privada que se atrevia a não tocar pelo diapasão do regime.

Em Angola, a filosofia oficial – com a qual é conivente a comunidade internacional através do seu silêncio – é valorizar os que trocam um prato de pirão em pé por uma lagosta de cócoras. Mas, continuamos a pensar que não é este tipo de sociedade que os angolanos querem, que os Homens livres querem.

A impunidade do regime e dos seus mercenários continua e quanto mais cedo se calarem as vozes que se batem pela denúncia das arbitrariedades e da corrupção endémica do sistema, melhor.

Este sistema mata mesmo, apesar da imagem de anjo do Presidente Eduardo dos Santos. O número de assassinatos não têm parado de crescer. As ameaça também não.

Ao contrário do que os mais ingénuos esperavam, o MPLA e o seu regime tentam eliminar todos quanto pugnem por uma imprensa livre, liberdade de expressão e implantação de uma verdadeira democracia. Não são os únicos, é certo. Como se vê pela Turquia, os jornalistas são – se vivos – uma epidemia que põe em perigo os que se julgam donos disto tudo.

Com os milhões do petróleo e de outras minas, Eduardo dos Santos ao invés de trabalhar para uma verdadeira reconciliação nacional, pretende consolidar o seu regime com a eliminação física dos seus adversários políticos, como aconteceu com o jornalista Ricardo de Melo, Nfulumpinga Landu Victor, ou Jonas Savimbi.

Embora seja um alvo a abater, o nosso Director, William Tonet, há muito que mostrou ter qualidades guerreiras que, inclusive, fizeram crescer as suas fileiras de seguidores, jornalistas ou não. Se assim não fosse não teria sobrevivido à “selva” onde exerce a sua profissão. Triunfos? Sim, teve muitos, destacando-se desde logo o facto manter um jornal independente e uma coluna vertebral erecta.

E de tal forma é assim que o Folha 8 nunca será derrotado. E não será porque nunca deixará de lutar. E isso é uma espinha atravessada na garganta dos seus inimigos. E que espinha!

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