Existe uma ampla variedade de lugares comuns quando se trata de falar em África, nomeadamente quando estes enunciados provêm das margens geográficas. Estes tipos de enunciados têm impedido durante décadas um conhecimento franco da história e da actualidade africana, sendo os mais perigosos e frequentes aqueles que assinalam uma ignorância “inata” em relação ao que se passa desse outro lado do mundo.

Por Bárbara Igor Ovalle
Mestre em Teoria e História da Arte na Universidade do Chile

Embora esta situação de ignorância em países sem uma herança africana manifesta, como o Chile, seja uma realidade, é pertinente perguntar: quais são os motivos que impedem, na própria era das comunicações, um conhecimento básico sobre a história e a actualidade do continente africano e da diversidade de países que o compõem?

Para além da vantagem que supõe falar de uma realidade que conheço, resulta interessante situarmos no Chile por este país apresentar características que o distinguem, em termos culturais, do resto dos países que compõem o mapa da América. Porque, embora seja considerável a componente indígena da população, o Estado de Chile actualmente não reconhece sua condição indiscutível de nação pluri-étnica, como conseguiu fazê-lo a Bolívia ou a Colômbia, duas nações que instalaram desde seus próprios governos, a discussão sobre a sua identidade.

À criação do Vice Ministério de Descolonização, dependente do Ministério de Cultura e Turismo na Bolívia, que instala o problema da miscigenação, devemos contrapor a inclusão do ensino da História de África nas escolas do Brasil, e a Cátedra de estudos Afro-Colombianos, nas escolas deste país, que, para além das possíveis diferenças que apresentem nas suas metodologias, todas parecem estar à procura de integração destas populações que durante séculos estiveram marginalizadas e/ou invisibilizadas por uma maioria mestiça que tenta dissimular os seus antepassados.

No Chile, longe de imitar estes exemplos, a componente indígena continuam a ser rejeitada pela população mestiça, e os próprios indígenas continuam a ser condenados como terroristas nas suas acções de recuperação das suas terras originárias; no entanto, a herança africana, que se evidencia até na “cueca”, nossa dança e orgulho nacional, continua a ser recusada pela nossa história oficial por considerá-la pouco significativa. De fato, existe a crença generalizada de que no Chile não houve presença de escravos africanos, porque as condições geográficas e climáticas não o permitiam.

Um assunto, porém, é falar em termos de herança e da constituição da sociedade nacional, e outro é perguntarmos o que é que se passa na actualidade em que África continua a ser um continente desconhecido para a esmagadora maioria dos chilenos; no entanto, para aqueles que já tiveram a oportunidade de conhecê-la de perto, continua a ser aquele continente exótico e atrasado o qual devemos levar pela mão até ao progresso. Isto comprova-se em iniciativas como África Dreams, a que, como se ainda não fosse bastante, se autodenomina “O referente social de África no Chile”.

Esta ONG, na qual participam os jovens das classes mais privilegiadas do nosso país, propõe uma renovada imagem da caridade, emprestando “auxílio” às comunidades mais vulneráveis de países como a Quénia e Moçambique, nomeadamente às comunidades dos sectores rurais destes países. Isto, como se no próprio Chile não existissem comunidades rurais vivendo na mais absoluta precariedade. Por outras palavras, trata-se de uma caridade disfarçada de apoio ao progresso ou, o que é pior, sem disfarce, até porque a cultura deles não lhes permite entender o que o conceito de caridade traz consigo. Mas isto é matéria para outro depoimento.

O que é realmente preocupante, hoje, na minha visão, é a incapacidade dos meios chilenos de informar África a partir de uma perspectiva inclusiva, incapacidade à qual devemos adicionar a falta de interesse dos próprios chilenos, a respeito daquilo que do outro lado do Atlântico ocorre, como se o mundo de hoje não fosse uma comunidade globalizada, onde todas as nossas acções têm uma repercussão em espaços e tempos que nem podemos prever.

O problema da desinformação atinge todos os níveis de nossa sociedade, desde os estratos mais cultos até os mais populares. Há umas semanas, um trabalhador chileno chegou ao aeroporto de Santiago, vindo da Guiné Equatorial, com uma forte dor de cabeça e de barriga, e imediatamente se activou o alarme na imprensa nacional sobre um possível caso de Ébola num dos Hospitais públicos de maior capacidade do país, o qual, para piorar a situação, se encontrava totalmente impreparado para a ocorrência.

Boa parte do pessoal do sector do Hospital onde o homem foi internado sumiu junto com os doentes e os seus parentes, em visita de domingo. Na segunda-feira seguinte, mesmo tendo passado quase doze horas desde a confirmação do falso alarme nos mesmos jornais que o activaram, o hospital aumentou o consumo de desinfectantes de todo tipo, e o número de pacientes desceu de maneira significativa, facto não menos relevante se tivermos em conta que é um dos hospitais com maior demanda da capital chilena.

Certo é que até hoje a Guine Equatorial não apresenta qualquer caso de Ébola. O trabalhador chileno, após uma série de exames deu positivo para o teste de Malária, e o Ébola, passou à história. O homem irritado – e com justa razão –, apareceu dias depois nos meios de imprensa alternativos, mostrando um mapa de África no qual apresentava o lugar exacto onde fica aquele país desconhecido de nome Guiné Equatorial. Com isto não quero arriscar a dizer que o erro cometido pelas autoridades, foi consequência do desconhecimento da geografia de África, quando entre a listagem de países afectados por este alarme do vírus Ébola, se encontra a Guiné. A semana transcorreu com críticas de todos os sectores ao governo pela falta de protocolos e a pouca preparação para contingências deste tipo, porém, ninguém se preocupou com o problema de fundo.

Como o anterior, não são poucas as situações nas quais a desinformação se faz evidente, embora umas vezes seja por desconhecimento e outras por aberta ocultação. No mês de Agosto do presente ano, a nossa Presidente Michelle Bachelet, visitou alguns países do Sul da África – imitando o exemplo das suas homólogas Cristina Fernández de Kirchner, da Argentina, e Dilma Rousseff, do Brasil – dentre os quais Angola era uma das visitas mais importantes da agenda.

A imprensa escrita, que comummente oferece uma informação mais extensa em comparação com os jornais da televisão, limitou-se a descrever as características dos países a serem visitados, destacando Angola, como o país com o segundo presidente com mais tempo no poder no continente africano, depois Teodoro Obiang, porém, sem fazer qualquer precisão respeito desta irregularidade. Aliás, o alto nível de corrupção (143 no ranking internacional noticiou La Tercera de Chile), a taxa de mortandade infantil e as diferenças existentes entre ricos e pobres, foi também sublinhado pelos jornais nacionais, contrastando com o facto de Angola ser um dos maiores produtores de petróleo do continente africano e Luanda a cidade mais cara do mundo para viver.

Após o encontro entre ambos os governantes, Michelle Bachelet, em depoimento, destacou os avanços de Angola em termos de inclusão feminina no Parlamento, matéria na qual Chile continua a ser um dos países mais atrasados da região, e reforçou a parceria económica, comprometendo a aquisição de três vezes mais da quantidade do que era comprado até agora, com vista a fazer de Angola o maior fornecedor de petróleo do país. Contudo, as notícias em relação ao evento, foram bastante pobres. Quando de acordos económicos convenientes se trata, não existem censuras possíveis, muito menos por parte do beneficiário no compromisso pactuado. De fato, longe das críticas, Michelle Bachelet destacou a confiabilidade que até agora o governo de Angola mostrou como sócio comercial, confiabilidade que se traduziu no compromisso da Presidente em apoiar a candidatura do país africano no Conselho de Segurança da ONU.

Se olharmos detidamente, há muito tempo que Chile aprendeu a fazer negócios com os poderosos, ou seja, com a capacidade de ver as conveniências, sem qualquer questionamento de tipo ético. Porque no mundo empresarial, a ética é só uma questão de imagem, e a imagem pode enfeitar-se posteriormente, ou seja, logo depois de obter os benefícios almejados. Isto é algo que nós os chilenos temos aprendido muito rápido, quando conseguimos compreender que o inimigo não era mais inimigo que o suposto amigo e vice-versa.

Deste jeito, não tem sido difícil ver na mesma mesa as vítimas da ditadura e os seus verdugos, brindando pela consecução dos objectivos comuns. Por que no Chile houve uma ditadura cruel da qual a nossa Presidente também foi vítima. Hoje, quando já se passaram 24 anos desde o fim da ditadura, o Chile está em pleno crescimento económico e, pelos visto, em condições de negociar com países para os quais a democracia é também uma imagem que se pode enfeitar.

Aliás, mesmo depois do fim da ditadura, existem semelhanças inegáveis entre Angola e Chile. Porque, mesmo que no Chile o presidente mude de quatro em quatro anos, são sempre os mesmos partidos os que se mantêm no poder. Isto, principalmente, pela falta de espaços de participação dos cidadãos na política. Deste jeito, a política fica reduzida à participação de um grupo selecto de empresários e à elite nacional. Por outro lado, as condições em que as populações menos favorecidas e mesmo o estrato mais pobre da classe média, vivem no país, fala de uma desigualdade que vai aumentando.

No Chile, a diferença de Angola, as crianças não morrem de fome. Elas conseguem chegar até perto dos oito anos, e sobreviver à crueldade da rua ou de instituições que foram criadas para a sua protecção. As que conseguem acabar a escola são vítimas de uma educação medíocre que as obriga converter-se em mão de obra barata; e as que conseguem, mesmo com uma educação medíocre, chegar à faculdade, acabam com um título profissional e sem qualquer espaço no qual se possam desenvolver profissionalmente. Por último, o privilegiado que consegue um espaço no mundo profissional, vive durante anos pagando a dívida que a passagem pela Universidade lhes deixou. Poderia continuar detalhando as semelhanças existentes, até para advertir todos aqueles africanos que chegam confiantes à América Latina na procura de melhores condições de vida. Porque o nosso desenvolvimento económico igualitário é também uma imagem muito bem enfeitada, como a imagem de nossa democracia, ou a de Angola.

Mas o problema continua a ser outro. A desinformação que antigamente foi culpa exclusiva da manipulação dos media, hoje parece ser também culpa do comodismo, porque a quantidade de meios informativos alternativos aos quais podemos aceder desde nossos computadores, é vasta. Mas também é certo que para nos interessarmos com coisas que à primeira vista parecem não nos afectar, primeiro é preciso criar consciência. E quando a educação é falida nesta matéria, não deveriam ser os media a primeira fonte educativa do cidadão comum, o criador de consciência? Não tenho certeza de qual seja a resposta adequada para isto, mas deixo instalada a pergunta e ofereço um novo exemplo que nos permita reflectir sobre este problema.

Logo depois do falso alarme de Ébola, reuni-me com uns amigos da faculdade, futura elite intelectual do país nas ciências humanas. Numa conversa fiada, eles riam da maneira em que nas redes sociais se representava África, como algo muito longe da nossa realidade. Eu fiquei surpresa e expressei que não achava que a nossa realidade fosse tão diferente da africana, e que ao longo da nossa história, bem podíamos encontrar muitas semelhanças, sobretudo nos nossos processos políticos e sociais – perspectiva que, acho, pode ser discutida. Depois de um longo silêncio, um dos meus amigos, o mais curioso de todos, pediu-me que explicasse aquele meu ponto de vista, porém, quando comecei explicar, ele fechou toda a possibilidade de diálogo com um “Nunca chegaremos a conhecer África”.

A minha desilusão e surpresa foi tal, que não tive coragem de continuar com a minha ideia. Passaram os dias, e uma nova reunião teve lugar num bar da cidade, e por um assunto que já nem lembro qual era, tocamos novamente na questão. Então já mais preparada, após dar muitas voltas ao que tinha acontecido, falei alto, mas dirigindo a conversa a esse meu amigo em particular: “como é que tu vais conseguir saber algo da África, se quando perguntas imediatamente te respondes a ti mesmo dizendo que não temos maneira de conhecer nada a tal respeito?” Enquanto eu acabei meu discurso, uma das pessoas da mesa e que eu não conhecia até aquele dia, repetiu a mesma frase que fechara a conversa do meu amigo na vez anterior, deixando-me desta vez algo irritada e já sem vontade de explicar nada.

Trata-se de uma situação muito comum entre os chilenos, chame-se preguiça ou excesso de especialização. Eu chamo a isto comodismo e falta de consciência, mais ainda quando se trata de pessoas que têm nas suas mãos o futuro de nosso país. Hoje entre os meus amigos, eu sou uma pessoa esquisita que tem um conhecimento ao qual o resto não tem permitido o acesso. Eu penso que o acesso, no caso deles, é proibido por seus próprios preconceitos.

Acredito que desta maneira é quase impossível livrarmo-nos dos lugares comuns que hoje e perante décadas envolveram a realidade africana. E como já vimos, são também os lugares comuns os que impedem o conhecimento franco sobre África. O conhecimento evitaria situações humilhantes, como a que viveu o trabalhador chileno ou como a que vivem dia a dia os africanos que tentam entrar no nosso país desde as distintas regiões de África – como as equipas africanas do Mundial de Futebol Rua, que se disputou no país. No caso do Hospital Barros Luco, teria evitado estar exposto nos jornais piorando sua já tão vexada imagem de Hospital Público. Hoje, pelo menos, fico na esperança de contribuir com que a informação dos leitores do Folha 8, em relação ao Chile, aumente. Aliás, isto não será difícil, porque estou na convicção de que a Folha 8 só atrai leitores com consciência critica ou aqueles com vontade de desenvolver uma nova consciência.

Exclusivo Folha 8

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