Angola pretende harmonizar a escrita das línguas bantu nacionais com as dos restantes países africanos com origens naquele grupo étnico, mas o processo, iniciado em 2002, tem sido dificultado pela fonética e diferentes grafias existentes.

Em declarações à imprensa, o director-geral do Instituto de Línguas Nacionais angolano, José Domingos Pedro, explicou que têm sido realizados seminários, com a participação de especialistas estrangeiros, como os da vizinha Namíbia, para estudar diferentes experiências nesta matéria.

“Outros países que integram a zona bantu já fizeram esse trabalho e Angola é que até agora ainda não tem essa situação resolvida”, admitiu o responsável.

Com a Namíbia, país com o qual Angola partilha algumas destas línguas, nomeadamente o oxikwanhama, oxiherero e o san, existe “um caso flagrante” dessa divergência. É o caso da oxikwanhama com um som que os namibianos escrevem com ‘fh’ e os angolanos com a letra ‘x’.

O mesmo tipo de situação vive-se internamente, o que levou aquele instituto, enquanto “órgão reitor da política linguística em Angola”, a decidir “reunir todos os utilizadores das línguas nacionais”, entre profissionais de rádio, televisão, instituições religiosas, Ministério da Educação ou Faculdade de Letras, para discutir as divergências detectadas.

O português é a língua oficial de Angola, herdada de 500 anos de colonização por Portugal, mas o país tem quase duas dezenas de línguas nacionais, estando já oficializadas seis, casos do umbundu, kimbundu, kikongo, tchokwe, oxikwanhama e mbunda. Além destas, aguardam ainda por oficialização as línguas nganguela, oxiherero, nyaneka entre várias outras.

Entretanto, a preocupação prende-se com as inúmeras divergências entre as línguas, sendo por vezes um som escrito de duas maneiras, de acordo com o alfabeto português, ou com o alfabeto das línguas africanas.

“Neste momento, estamos a ouvir os vários utilizadores, as reacções das discussões, só depois é que vamos tomar uma posição e fazer um relatório para submeter ao Conselho de Ministros”, explicou José Domingos Pedro.

Os técnicos angolanos têm contado com o apoio de vários investigadores da região africana, nomeadamente da universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique, da Faculdade de Letras e Ciências Humanas, da Universidade Marien Ngouabi, na República Democrática do Congo, e do Centro Avançado de Estudos Africanos.

“É preciso compreender que cada uma dessas línguas nacionais desdobra-se num certo número de variantes ou dialectos. Às vezes fica difícil fazer a diferença entre língua e variante. Noutros é simples, porque há muita semelhança e o que muda é apenas a maneira de falar, mas há entendimento”, comentou José Domingos Pedro.

Entretanto, a Igreja Católica já manifestou alguma preocupação sobre a intenção de se harmonizar a ortografia das línguas bantu “sem ter em conta a fonologia de cada grupo linguístico”, pelo que recomenda “maior profundidade e abertura na análise deste caso, respeitando as características típicas de cada língua enquanto veículo da identidade cultural de cada povo”.

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