A venda da Escom, empresa do Grupo Espírito Santo (GES) que geria os activos em Angola, foi liderada por Ricardo Salgado e estava prometida à Sonangol, revelou hoje Manuel Fernando Espírito Santo, chairman da Rioforte, em declarações à portuguesa Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES.

Por Norberto Hossi

M anuel Fernando Espírito Santos disse: “Não acompanhei as negociações mas sei que era para a Sonangol”. E acrescentou que, embora não tenha estado envolvido, sabe que “foi assinado o contrato de promessa compra e venda em Dezembro de 2010”.

Certo é que milhares de milhões de dólares atravessaram os balcões do BESA em malas, carros e camiões a favor de gente poderosa do país. Só a favor do vice-presidente da Escom, Eugénio Neto, terão saído 1.500 milhões, segundo refere o semanário Expresso.

Recorde-se que quando 70% da carteira de crédito do BESA estava “em risco de incumprimento”, uma garantia assinada pelo Presidente José Eduardo dos Santos deixou às costas do povo angolano a recapitalização do banco. O valor assegurado pelo Estado – 5,7 mil milhões de dólares, 5% do PIB – é superior ao que constituiu o Fundo Soberano de Angola, entregue à gestão pessoal do filho do presidente, José Filomeno dos Santos, “Zenu”.

Ricardo Salgado, presidente deposto do BES português, terá confiado sempre na cobertura do poder de Luanda, deixando para trás, nas contas do BES, um crédito ao BESA no valor de 3 mil milhões. Esta familiaridade levou-o a visitar o palácio presidencial por várias vezes desde finais de 2013 até às vésperas da sua queda.

Como aqui no Folha 8 escreveu Jorge Costa, um dos autores do livro “Os Donos Angolanos de Portugal”, a crise do grupo era já demasiado extensa para poder ser atalhada pelo recurso à ajuda do aliado angolano e, segundo as notícias publicadas em Portugal, o presidente Dos Santos terá deixado cair o velho parceiro.

A família Espírito Santo esteve presente em diversos ramos na exploração colonial de Angola, antes da independência, e regressou ao país em 1992, com a Escom, estabelecendo-se em quase todas as áreas da economia angolana, dos diamantes à construção, da aviação ao imobiliário. Em 2005, associou-se ao Fundo Internacional da China, que viria a formar a China Sonangol com Manuel Vicente.

A venda da Escom à Sonangol (ou ao Fundo Soberano de Angola), pendente há quatro anos, deveria fechar-se em breve, para entrar nas contas da falência do grupo Espírito Santo em Portugal. Em aberto, fica ainda a investigação ao eventual pagamento, pela parte angolana, de um vultuoso sinal que nunca terá entrado nas contas do grupo Espírito Santo, agora falido.

Quanto ao BESA, que motivou uma recente visita a Luanda do vice-primeiro-ministro português, Paulo Portas, deixou de ter maioria de capital português e mudou de nome.

Se a história continuar a parecer-se com a do BPN português, o círculo do poder irá trabalhando no esquecimento do caso e os culpados ficarão impunes. Estará consumado mais um momento importante do “processo de acumulação primitiva” em Angola: milhares de milhões de euros, que deveriam servir as necessidades da comunidade porque eram do Estado, terão encontrado novos donos.

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