O discurso pronunciado pelo camarada José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA, no encerramento do V Congresso Extraordinário do Partido no passado dia 6 de Dezembro, começou com a habitual passagem do verniz.

Por Arlindo Santana

N um floreado de considerações laudativas a dizer que tudo decorreu num clima de grande abertura e camaradagem, “durante os quais os delegados puderam intervir com liberdade, responsabilidade e espírito crítico sobre os temas em discussão, contribuindo para o aprofundamento e enriquecimento dos mesmos”, foi pois, segundo José Eduardo dos Santos, um momento de aprendizagem e de fortalecimento político.

É verdade, primou a necessidade de fortalecer e ampliar a base militante do MPLA, “transformando as organizações de base em eixos fundamentais da sua actividade e da vida do partido” pela simples razão que tudo vai mal a partir das bases, que se confinam num posicionamento de espera das benesses que lhes são devidas por serem meros militantes do MPLA. Portanto, vieram ao partido imbuídos de sentimentos de esperança e tiveram toda a liberdade de dizer amém ao chefe a fim de poder augurar um reconhecimento que lhes conceda algum benefício.

Para José Eduardo dos Santos, o problema é isso mesmo, as bases, ou melhor, as organizações de base, quer dizer, os comités de acção do partido, que “devem ser organismos vivos e dinâmicos, que aplicam as directrizes e orientações superiores de forma criativa, desenvolvendo a sua actividade tendo em conta os seguintes marcos, trabalhar para mobilização política de todo o povo e dos quadros, em torno dos problemas que mais afectam as áreas onde estão implantados”.

Ora aconteceu que, aí chegado, o presidente tenha decidido enveredar por um caminho que denuncia claramente o seu progressivo afastamento da rota que deveria levar o MPLA rumo a uma verdadeira democracia.

Mas não, o que ele propôs, que cada militante seja um agente difusor da política do partido e se esforce por ser o primeiro a desmentir as calúnias e ataques lançados sobre o mesmo, faz lembrar a tirada de Bento Bento, quando disse numa das suas aparições em público, que os oponentes ao partido dos camaradas seriam “milimetricamente controlados”, o que colide de maneira frontal e evidente com esse desiderato.

Um pouco mais adiante, o presidente do partido reconheceu que era necessário promover o recrutamento de novos membros, fazer um trabalho de formação e educação política, no espírito dos princípios e valores do MPLA, isto é, da sua ideologia, para depois chegar a uma curiosa conclusão que aqui assinalamos ipsis verbis: “As principais conclusões deste V Congresso Extraordinário apontam também para a necessidade da aplicação do princípio da renovação e continuidade da Direcção em todos os escalões, garantindo uma maior democratização das suas variadas estruturas e também um melhor acompanhamento da execução das suas orientações para a governação do país”.

Pelo que nos foi dado a entender, neste contexto, José Eduardo dos Santos entende que é necessário rejuvenescer os quadros do partido, mantendo e cultivando “uma especial atenção à disciplina, à atitude e ao comportamento dos nossos militantes perante o cumprimento dos compromissos assumidos e no respeito pelos Estatutos e regulamentos (…)”.

E não é tudo, Eduardo dos Santos também exprimiu claramente o seu “desejo que os militantes do nosso partido tenham uma conduta exemplar no respeito pelo património público e pela propriedade privada e que sejam os primeiros a exigir transparência em todos os actos de gestão. Neste sentido, podemos começar a reflectir sobre a possibilidade de adoptarmos no futuro um Código de Ética Partidária, que estabeleça a postura individual dos militantes, as relações entre si e com o seu meio social e a sua conduta no local do trabalho e no seio da família”.

Incrível, mas verdadeiro, ter o desplante de incentivar os militantes em geral e aos seus filhos, outros parentes, amigos e restantes kambas, em particular, “uma conduta exemplar no respeito pelo património público e pela propriedade privada e que sejam os primeiros a exigir transparência em todos os actos de gestão”, denota uma desarrumação mental próxima do devaneio irresponsável, enfim, uma perturbação gravíssima para um alto dirigente.

Mas ainda houve mais paradoxo em cima dos pobres militantes e, sobretudo, em cima dos mais de 15 milhões de angolanos que ignoram o MPLA do alto da discriminação de que são alvo, desarmados, perante tanta contradição: “aqui, neste V Congresso Extraordinário”, disse a dada altura José Eduardo dos Santos, “assumimos com coragem uma posição crítica, reconhecendo alguns dos erros e limitações registados na actividade desenvolvida pelo Partido (…)”.

Uff!, o chefe reconhece que foram cometidos erros… mas quais erros? Errozinhos que o presidente, certamente por julgá-los insignificantes, não se deu ao trabalho de mencionar, quando no que toca a erros cometidos pela sua governação, até mete medo pensar nas consequências funestas que deles possam surgir no futuro!

Enfim, a única coisa que conta é o que JES pensa e o mais grave é que, na sua perturbadíssima cabeça, o MPLA está cada vez mais forte e preparado para enfrentar os problemas (…) criando um quadro mais propício para o reforço da democracia participativa.

Não dá para comentar.

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