O cónego Apolónio Graciano aconselhou na cidade do Luena, do alto da sua soberana cátedra ao serviço do regime angolano, os líderes políticos a serem modelo para a população no processo da consolidação e manutenção da paz e democracia no país.

Por Orlando Castro

Oprelado católico falava durante o acto de exaltação – obviamente – dos feitos do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, promovido pelo Movimento Nacional Espontâneo (MNE). Foi mais uma oportunidade para ressaltar que os políticos “têm que ajudar o país a reencontrar-se, consigo próprio, e devem, por consciência, ajudar a cimentar a paz e reconciliação nacional”.

Para o cónego Apolónio Graciano, os líderes partidários devem ser os principais mentores da implementação do espírito de fraternidade, amor, perdão e diálogo, como defensores dos concidadãos, mesmo que pertençam a partidos diferentes.

Por isso aconselhou-os a pautarem por uma linguagem reconciliadora, para consolidar a paz e a democracia, evitando insultos contra os adversários políticos.

A hierarquia da Igreja Católica de Angola continua a querer agradar a Deus e ao Diabo, aviltando ou – pelo menos – arquivando no fundo da gaveta, os seus mais sublimes fundamentos da luta pela verdade e do espírito de missão que deveria ser o de dar voz a quem a não tem.

A enorme violação dos direitos humanos em todo o país, a forma execrável como as autoridades tratam impolutos cidadãos cujo único crime cometido é o de não serem do MPLA, parece pouco interessar à Igreja Católica. Isto porque, de facto, o regime compra a sua apatia, ou cegueira selectiva, dando-lhe as mordomias que a leva a estar de joelhos perante o MPLA.

Todos nos recordamos das notícias de que, com a intenção de galvanizar as massas e ganhar as eleições, o MPLA mobilizou uma série de parceiros para a vitória fraudulenta, entre eles a hierarquia da Igreja Católica e doutras denominações.

Ao bispo Dom Damião Franklin, recentemente falecido, terá sido oferecido um jeep e três apartamentos no projecto Nova Vida. Em troca, o bispo fez uma recepção a Bento Bento, um mês antes das eleições, para atrair os fiéis a votarem no MPLA. Carros terão também sido oferecidos a Anastácio Cahango e ao Cardeal Alexandre do Nascimento, assumido adepto do regime.

Mais recentemente o Cónego Apolónio Graciano disse numa homilia que o país está muito bom e que não há razões para criticar a governação, acrescentando que quem critica o regime o faz por falta de patriotismo. E o ponto mais alto da bajulação deu-se quando afirmou que José Eduardo dos Santos merece mais o prémio Nobel da Paz do que o próprio Papa Francisco.

Procurando dar corpo e alguma alma à tese bíblica de que devemos olhar para o que diz e não para o que faz, a Igreja Católica diz estar reocupada com a falta de diálogo entre os partidos angolanos e considera “urgentíssimo” que a classe política encontre consensos. Esta tese propagandística foi defendida pelo porta-voz da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), o bispo de Saurimo, José Manuel Imbamba, que acrescenta que “ultimamente a linguagem dos políticos não tem sido a melhor”.

“É com alguma preocupação que nós estamos a ver esta agitação de todos os partidos: o que governa o país e os outros que estão na oposição. Penso que estão a agudizar as suas posições a favor dos interesses dos seus partidos e não a favor dos interesses da nação”, lamentou José Manuel Imbamba.

Perante esta situação, referiu o porta-voz da CEAST, a igreja tem vindo a apelar para que “todos os intervenientes tenham uma postura mais digna, tendo em conta o diálogo, que deve ser permanente, tendo em conta esse convívio na diversidade, que deve ajudar o próprio desenvolvimento, sem nos amarrarmos nas nossas posições em detrimento das outras, que também podem muito bem contribuir para o bem do país”.

“E isto tudo requer de todos muita humildade, muita capacidade de escuta, muita capacidade de partilha e muita capacidade também de olhar para o bem comum”, adiantou José Manuel Imbamba, reconhecendo o papel dos partidos na busca do poder, mas lembrou que tal “não pode ser feito a todo o custo”.

“Há que dar tempo ao tempo, há que amadurecer o diálogo, há que trabalhar para que a democracia sirva aos interesses de todos e que a democracia não seja só uma capa”, defendeu.

José Manuel Imbamba considerou que o processo de reconciliação nacional “ainda tem um longo caminho a percorrer”.

“Há necessidade de voltarmos às origens, àquelas mesas, àqueles assentos para dialogarmos, porque infelizmente o que está a acontecer agora é que cada um quer defender a sua posição. Falta colocarmos em comum os pontos de vista que devem nos ajudar a traçar o rumo para o país”, destacou.

Para o prelado, “é urgentíssimo” o diálogo, porque “talvez existam maus conselheiros, talvez existam aproveitadores, talvez existam interesses estranhos, mas tudo isto não deve ser feito a qualquer preço, é preciso que o povo seja respeitado, a vontade do povo seja respeitada e a própria soberania também”.

“Somos iguais e somos diferentes e o ser diferente não deve ser sinónimo de exclusão e então há que ter capacidade de ouvirmos aquilo que os outros têm para nos dizer mesmo que não comunguem com os nossos ideais”, sublinhou.

Talvez se deva, agora que Eduardo dos Santos já visitou o Papa Francisco, recordar o que o Papa Bento XVI disse quando visitou Luanda. Começou por apelar a todos os que “ocupam cargos públicos” para se preocuparem com os mais necessitados, com o bem comum, e defendeu a solidariedade em nome da “partilha equitativa” da riqueza. Recordar-se-á o regime, tal como a própria Igreja Católica, deste apelo?

Ou seja, disse que os poucos que têm milhões devem (deveriam) preocupar-se com os milhões que têm pouco, ou nada.

“Se me permitissem um apelo final seria para pedir que a justa realização das aspirações fundamentais das populações mais necessitadas constitua a preocupação principal de quantos ocupam cargos políticos públicos visto que a sua intenção, estou certo, é desempenhar a missão recebida não para si mesmo mas em vista do bem comum”, disse Bento XVI, no final de uma visita de quatro dias a Angola. Nesta matéria é caso para dizer, bem pregava o Santo Padre. Pregava no deserto, mas pregava. Tal como continua a fazer o seu sucessor.

“O nosso coração não pode estar em paz enquanto virmos irmãos sofrerem por falta de alimento, de trabalho, de um tecto ou de outros bens fundamentais”, disse o Papa, na cerimónia de despedida no aeroporto de Luanda.

Isso foi o que disse o Papa. Ao contrário dos dirigentes do regime que se estão nas tintas para o facto de perto de 60% da população angolana viver (se é que se pode chamar viver) na miséria.

Bento XVI que agradeceu ao chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, o “tratamento fidalgo” com que foi recebido pelas autoridades e defendeu, no discurso de despedida, a solidariedade como um valor capaz de vencer a injustiça social.

“Para se oferecer uma resposta concreta a estes nossos irmãos em humanidade, o primeiro desafio a vencer é o da solidariedade: solidariedade entre as gerações, solidariedade entre países e entre continentes, que dê origem a uma partilha cada vez mais equitativa das riquezas da terra, entre todos os homens”, referiu Bento XVI.

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