Estou tentado a escrever sobre o que, hoje, disse o ex-Presidente da República portuguesa, Mário Soares, a propósito do seu amigo José Sócrates (impoluto cidadão) e dos outros não-socialistas (uns bandalhos).

Por Orlando Castro

H oje, Mário Soares voltou a mostrar que – para efeitos legais – não sabe o que diz. Também é certo que não diz o que sabe. Afirma ele, perante o orgasmo assassino dos porta-microfones, que “todo o PS está contra esta bandalheira”. E como a bandalheira é feita por bandalhos, a fazer fé no ex-presidente da República, o principal bandalho é o juiz Carlos Alexandre.

Mário Soares disse também que “toda a gente acredita na inocência do ex-primeiro-ministro”. Quem é essa a gente toda? Ninguém sabe. Nem sequer os socialistas todos acreditam, muito menos todos os portugueses, e ainda menos os milhões que José Sócrates quis ensinar a viver sem comer.

“Isto é uma malandragem daqueles tipos que actuam mas que que não fizeram nada”, disse Mário Soares, acrescentando que “isto não tem nada a ver com os socialistas, tem a ver com os malandros que estão a combater um homem que foi um primeiro-ministro exemplar”.

Exemplar? Vamos dar o benefício da dúvida a Mário Soares. Embora acompanhado por uma enfermeira, não há garantias que tenha tomado a medicação.

E enquanto a enfermeira não o retirou do meio dos canibalescos porta-microfones, Mário Soares continuou a vociferar: “Isto é tudo uma infâmia. Afinal o que é que ele fez?”.

Em tempos, 2011, o socialista Henrique Neto dizia que José Sócrates vivia num “estado de negação da realidade” que o “obriga a mentir e a criar um mundo irreal”.

Recordam-se que o próprio Ferro Rodrigues disse que o Governo português (do PS/José Sócrates) deveria ter “menos arrogância e mais humildade”?

No estrangeiro, tal como em Portugal, nem todos perceberam que José Sócrates mentia e mente tantas vezes porque acredita que, pela insistência, a mentira se tornará verdade. E a técnica, pelo menos junto dos seus acólitos, funcionou.

Todos, portugueses ou não, devem ainda recordar-se (já não se pede o mesmo a Mário Soares) que José Sócrates dizia às segundas, quartas e sextas o contrário do que afirma às terças, quintas e sábados.

Se como exímio ilusionista, José Sócrates conseguiu esconder de todos (muitos não foram na cantiga mas mantiveram-se calados) a verdade sobre o país, melhor o fez em relação à sua vida privada.

Cometeu, como agora se vai vendo às prestações, um crime que – contudo – não é punido. Aliás, se este tipo de crime de “lesa pátria” desse penas de cadeia, Portugal não teria prisões suficientes.

Reconheça-se, no entanto, que mentir sobre estas questões já se tornou um direito dos diferentes governos a ponto de, creio, um dias destes aparecer uma lei para punir quem fale verdade, entre outras coisas, sobre as negociatas envolvendo o promíscuo mundo da política, da economia e do “jornalismo”.

Muita gente, boa gente, está agora preocupada com uma coisa que Portugal já há muito deixou de ter: credibilidade. Quando, se calhar até no Burkina Faso, se sabe que os portugueses têm a chefiar um governo alguém que diz que “está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor do que eu”, nada mais é preciso.

José Sócrates disse também que os líderes políticos “têm a obrigação de apontar qual o caminho que o país deve seguir”. “É preciso uma atitude de confiança nos portugueses e no futuro do país – confiança que tem ver com acção e não com a atitude de nos entregarmos à descrença ou ao pessimismo”, disse. E disse muito bem.

É exactamente isso. E José Sócrates há muito que apontou o caminho do irreal e da mentira como a única saída. “Isto não vai lá de braços cruzados. Isto vai lá com acção e com aqueles que gostam de correr riscos e aceitam corrê-los. Não agir representa um preço que não podemos pagar”, advertiu o primeiro-ministro, indicando aos portugueses o caminho, ou não fosse ele uma reedição (um bocado fracota e a tombar para o foleiro) do homem do leme…

E foi, aliás, isso que fez o juiz Carlos Alexandre. Aceitou correr riscos.

Todos os socialistas, mesmo aqueles que como as marionetas só se aguentam de pé por terem alguém a segurá-los, sabem que José Sócrates considera-se de uma casta rara e superior.

Quando António Guterres dizia que a verdade era a principal qualidade de um governante, certamente José Sócrates entendia que isso era uma treta. E terá sido por isso que, quando se apanhou no poleiro, decretou que era o único dono da verdade e tratou de secar todos aqueles que pensavam de forma diferente.

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